sábado, 17 de julho de 2010

Inveja de Vizinhas!...

Até que podiam dar-se bem melhor, porque sendo vizinhas, aconselharia o bom senso que fossem por aí!... Mas até ontem, ninguém havia conseguido fazer com que aquelas duas se entendessem no essencial, mas com o passar do tempo, que costuma ser bom conselheiro, as coisas até pioraram, deixaram mesmo de falar e por este andar não se antevê melhores dias, embora todos garantam, "a pés juntos", que nunca as viram discutir, mas que se vê a "olho nu", que o ambiente entre ambas é de "cortar à faca" e gelado, gelado, apesar do tempo quente que aí está!...
Dizem, os que estão mais por dentro do caso, e, pelo que nos apercebemos, a aldeia em peso há muito que sabe das divergências, e, há mesmo aqueles, que avançam com a hipótese de um dia destes verem o desentendimento ir parar aos tribunais!... Os mais sensatos, valendo-se da experiência e pelo que vão lendo e ouvindo pelos jornais e pelos tele-jornais, vão afirmando convictamente, que vai ser pura perda de tempo, que neste país que Abril resgatou, os tribunais não se entendem com as leis que demoram dez anos e mais a dar uma sentença, que só depois transitará em julgado, não, sem que antes, tenha de ser apreciado por outros juízes de outros tribunais e que já ninguém acredita, e, focam mesmo o célebre processo da Casa Pia, que "não ata nem desata" e que pelo "andar da carruagem" irá ficar em "águas de bacalhau", um termo muito usado nesta nossa aldeia!
Os mais antigos, felizmente ainda muitos e que conhecem bem toda a história, vão ao ponto de dar o seu palpite e percebe-se um "fraquinho" pela mais idosa, porque não acham jeito, dizem mesmo que é desumano terem-na abandonado completamente e pelo aspecto de todos os dias, pela maneira como se apresenta, parece que nem família tem, e, isso nem é verdade, só que não lhe ligam nenhuma... « É muito triste chegar a velho - rematam alguns pedoridenses - porque já não temos a mesma utilidade e começamos a dar trabalhos e até os familiares, quando os há, querem mas é ver-se livres do empecilho!...»
A verdade é que a vizinha mais nova tem muita coisa a seu favor, a começar pela idade, que lhe dá para se movimentar muito melhor e vai arranjar outros apoios, mesmo fora da aldeia e nos dias de hoje, isso conta e de que maneira!... Desde os poderes restritos lá em cima na Vila, mas que contam, quanto mais não seja, pelos interesses que estão à vista de todos, até às ligações a este e àquele ministério sediados em Aveiro, ou mesmo na Capital, quase dá para concluir, que com tribunais ou sem tribunais a vizinha nova leva para já larga vantagem, e, não será por acaso, que, ainda há dias, vimos "com estes dois que a terra há-de comer", como até se apresenta ao público toda bem arranjada, toda "modernaça", muito bem pintada e a transpirar uma felicidade e um à vontade de meter inveja à vizinha e mesmo àquelas que não são vizinhas!... Sinal dos novos tempos, que estão aí para ficar, dizem, embora com muitas divergências e incertezas, que as águas dos nossos dois rios - que já não são as mesmas de outrora - não se cansam de escutar, vindas dos pontos mais diversos e de ambas as margens, mas que não interferem nem um bocadinho, no deslizar das suas águas a caminho do mesmo Atlântico de sempre, agora com mais suavidade, muito mais calmas e alheias a todas as disputas humanas, incluindo das suas duas vizinhas - agora desavindas - e com quem fazem questão de manter um bom relacionamento, quanto mais não seja pela vizinhança, e, porque sabem, que podem contar com a cumplicidade e a protecção da Natureza, numa ligação que se crê com milhões de anos!!!....
Nota: Os pedoridenses atentos, já entenderam desde o início, que se trata de uma metáfora e se refere às duas pontes vizinhas do velhinho Arda e não pretende outros objectivos humanos, que quanto a nós não fariam qualquer sentido!...
-A MELHOR FORMA DE DAR A CONHECER A NOSSA ALDEIA É DIVULGÁ-LA!

Este post é uma cópia do que publicamos no blog PEdorido.com

Etiquetas: pontes, rios, invejas, águas, velhinhos

terça-feira, 13 de julho de 2010

As Concas, os Ciganos e a história do Camelo!... ( 3ª e última parte )

Terça-feira, Julho 13, 2010

Esta forma de vida independente e mesmo marginal da etnia cigana, haveria de criar alguns preconceitos e até alguma rejeição por parte das populações durienses, que não iriam ter qualquer impacto na opção de vida dos ciganos, que não hesitavam em dar resposta pronta, quando fosse caso disso e faziam-no com um certo orgulho por gestos, palavras, meias palavras e à mistura com algum nervosismo... Por falar em preconceitos e em rejeição, não resisto a contar-vos um facto passado nas Concas, quando decorria o ano de 1956:
«- Num belo dia de Primavera, um dos burritos terá escapado do acampamento cigano, vindo a aparecer no extremo oposto, nas proximidades do Arda e da sua ponte, procurando matar o apetite num terreno de um pequeno lavrador da nossa aldeia, depois de ter forçado a vedação.
Não sabemos se por coincindência, ou por ter sido avisado, o nosso agricultor veio ainda a encontrar o inconsciente animal a saborear as suas verduras e perante o desaforo desatou aos berros, ao mesmo tempo que esbracejava... Num breve espaço de tempo alguns miúdos e até adultos acorreram ao local, e, logo de seguida apareceu um cigano vindo do acampamento, que de imediato se dirigiu ao homem que não paráva de barafustar, para em tom humilde e respeitoso fazer o seguinte apelo:
- Desculpe senhor!...
O dono da horta ao ver o ar submisso e até comprometido do cigano dá-lhe como resposta:
- Não tem nada que desculpar! Só quero saber de quem é o camelo!?... »
Ficamos sem saber como terá terminado o diferendo entre as partes, mas sempre que recordamos o incindente, temos alguma dificuldade em entender como fora possível confundir um pequeno burro com um camelo!...
-RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!
Nota: Cópia do post publicado em PEdorido.com

domingo, 11 de julho de 2010

As Concas, os Ciganos e a história do Camelo!... ( 2ª parte )

O "divórcio" entre a nossa sociedade e a etnia cigana, era pelas razões apontadas um facto, até porque as curtas estadias de uma semana ou um pouco mais deste povo nómada, eram como que a garantia de que uns e outros, mantivessem as "distâncias" e nada de anormal viesse a complicar uma vizinhança que nunca seria efectiva... De resto, nem seria bom para ninguém e sempre nos causou algum espanto que a República tivesse criado uma lei em que constaria a tal obrigatoriedade, dizia-se, de os ciganos poderem permanecer apenas alguns dias no mesmo sítio, quando sabíamos que nem liam jornais, nem ouviam os noticiários da Emissora Nacional e muito menos tomariam conhecimento das leis aprovadas e reprovadas pelos deputados da União Nacional do Estado Novo! Pensando agora um pouco melhor, o que terá acontecido é que o poder político, terá decidido adaptar-se ao fenómeno e adoptar em lei a prática deste povo errante, que nunca deu mostras de querer cortar com o seu passado e jogar fora a liberdade de não ter que prestar contas das suas vidas a uma Monarquia ou a uma República estabelecidas!
Cozinhavam numa pequena fogueira improvisada, quase central ao acampamento, ao mesmo tempo que beneficiavam da sua luz e do seu calor, que nas noites frias e chuvosas tanto jeito lhes dava e ainda guardamos na memória, as habituais conversas que mantinham "acesas" para lá da última refeição e que mesmo a curta distância não conseguíamos entender!...
Esta gente não tinha grandes hábitos de higiene e nem era por falta de água, porque recordamos ver as mulheres e as miúdas mais crescidas a abastecerem-se nos fontenários da aldeia, contudo os acampamentos ao ar livre não lhes permitia ter acesso às condições necessárias para ajudar a boas práticas no campo da higiene... Apenas mais uma curiosidade:-« Chegamos a ver à distância, uma ou outra cigana a lavar-se ou a lavar a roupa de familiares, bem perto da foz do velhinho Arda, mas não recordo ver, por uma vez que fosse, um cigano jovem ou adulto a pescar, algures, nas águas do Arda ou do Douro!...»
Não havia volta a dar, porque os ciganos estavam vocacionados e poderíamos mesmo dizer que "treinados" para ir ao encontro das populações, procurando o contacto porta a porta, com o intuito de lhes proporcionar pequenos negócios, que poderiam passar pela venda de um simples tecido, ou na pior das hipóteses pela leitura da sina, que passava sempre por pedir ao residente para a abertura, creio que da mão direita, para de seguida debitar uma série de acontecimentos bem conseguidos para o futuro e que as mais jovens da aldeia gostavam de ouvir, ou pelo menos, era a ideia que ficava no ar, enquanto a cigana, assim que acabasse o "trabalho" lá seguia a caminho do acampamento, mas só depois de ter na mão a pequena quantia acordada com o "cliente"... Pudera, compromisso com cigano era para respeitar!... ( Continua )
Nota: Cópia do post original publicado em PEdorido.com

quinta-feira, 8 de julho de 2010

As Concas, os Ciganos e a história do Camelo!...

Nas décadas de cinquenta e sessenta habituámo-nos a assistir com alguma frequência à chegada e à partida da etnia cigana, que tinha pelo lugar das Concas uma preferência, digamos que natural e que nem seria difícil reconhecer-lhe os méritos pela escolha!... A etnia cigana, toda ela, percebia que era um sítio sossegado e espaçoso, com condições naturais quase únicas e de que nunca abdicaria com o correr dos anos, para uma das suas curtas mas preferenciais estadias!
Pensando melhor e à distância, somos levados a pensar, que esta gente saberia distinguir melhor que nós, as questões da Natureza com o seu entrosamento diário às vicissitudes do clima, nem sempre de acordo com as estações, com Invernos sempre duros e chuvosos, com Primaveras nem sempre amenas e onde as chuvas nunca faltariam, sendo certo que o Verão e parte do Outono iria brindar toda a zona deste vale do Douro e do Arda com um Sol quente e criador, um pouco amenizado pela influência dos rios e de um vasto arvoredo, com tons de verde diversificados, que ia buscar aos rios e às encostas a humidade tão do seu agrado e vital para que continuasse pujante e belo em todos os meses do ano!
Tinham por hábito utilizar transporte próprio, sempre uma carroça, puxada por um pequeno burro, que com muita coragem e personalidade era capaz de levar estas famílias em curtas, mas incessantes viagens e nunca dispensavam a companhia de um ou vários cães nas suas caravanas!... Chegavam e partiam, sempre de surpresa, mas nós sabíamos que voltariam mais tarde, meses volvidos, ou no ano seguinte, e, curiosamente, viriam ocupar o mesmo espaço, numa zona bastante arborizada das Concas, ali bem próximo da N222 e onde a largura iria reduzir, mesmo ao lado de um desajeitado, duro e macio carreiro, que daria acesso ao grande areal, um tanto grado, lá no fundo, que ainda teríamos que vencer, até alcançar a barca, que nos levaria até à outra margem, ali mesmo, onde o pequeno rio Mau acabaria por entregar as suas águas a um Douro buliçoso, ansioso por se encontrar com o Atlântico!
Era muito comum juntarem-se duas e mais carroças, que corresponderia a mais que uma família, mas em boa verdade nunca iríamos sabê-lo, dado que foi sempre um povo muito independente, com opções muito rígidas, um género de "apartheid" imposto a eles próprios, que nem os próprios ciganos saberiam quando e em que região da Europa teria começado... ( Continua )

Nota: Este post é uma cópia do original publicado no blog PEdorido.com

quarta-feira, 30 de junho de 2010

As Memórias e as Diferenças!... 2ª parte

Reparem nesta diferença abismal:- « Há cerca de sessenta anos, passou pela nossa linda aldeia e por cá se manteve largos anos, um abade, que se ocupou de forma empenhada - entre outras actividades - em controlar o dia a dia dos namoros cá da terra, duma forma continuada e para isso contou com a ajuda de terceiros, possivelmente convidados, e, que, terão aceitado colaborar nesse esquema, no mínimo degradante... Estamos em crer, que não teriam bem a noção do papel que desempenhavam, mas é bom perceber, que isto só foi possível, porque a igreja católica e o Estado Novo andaram de mãos dadas, e, por via dessa união, os padres, naquela época, tinham um poder que lhes permitia, caso optassem ir por aí, intrometer-se em questões que nada tinham a ver com a confissão religiosa! Este reprovável atrevimento, deu aso a situações que nunca deveriam ter acontecido e que marcaram pela negativa muito boa gente de Pedorido!O pior de tudo isto, é que neste país de brandos costumes, não se assumiu, nem se reparou o que de mal se fez, ou seja, feriu-se a dignidade e a liberdade das pessoas, mas nem a Instituição igreja, nem ninguém, apareceu a dar a cara e a assumir que errou e a pedir desculpas públicas pelo sucedido.»
Ainda hoje, apesar de vivermos num sistema democrático, resiste-se muito a reconhecer os erros de personalidade, num sinal claro de que as deformações de carácter, vão passando de geração para geração e resistem aos regimes políticos, quaisquer que eles sejam...
Ainda a propósito das nossas memórias e das diferenças, ocorreu-me, agora mesmo, imaginar aquele degradante cenário com perto de sessenta anos, transposto para os tempos actuais e para o Pedorido deste novo tempo!... Somos levados a pensar que os cidadãos de hoje, saberiam tomar uma posição de acordo com a circunstância e mais ao jeito das liberdades e direitos que o 25 de Abril veio repôr! É óbvio, que é para aí que vai a lógica do nosso raciocínio!

NOTA: Cópia do Post no blog PEdorido.com

quarta-feira, 23 de junho de 2010

As Memórias e as Diferenças!...

Cremos acreditar, que os Pedoridenses reconhecem ao lugar das Concas como que aquele espaço que é único e exclusivo, que nenhum outro lugar consegue suplantar no resto da aldeia, e, muito dificilmente o cenário irá mudar no futuro, porque ali, a Natureza tem tudo para desiquilibrar a seu favor, desde logo, porque os rios Douro e Arda ali se vão encontrar e esta coincidência faz toda a diferença que os humanos acabam sempre por valorizar mais, porque os rios e as suas águas têm atributos vários e que vão ao encontro dos seus interesses, seja na pesca, ou no lazer, que no Verão ganha a importância maior, quando as temperaturas ambientais sobem e encontram nestes volumes líquidos um antídoto eficaz!...Mas, quando citamos os meses mais quentes do ano e se nos lembrarmos de Pedorido, há três coisas que associamos no imediato:- O rio Douro, o rio Arda e o lugar das Concas, com todo o seu esplendoroso arvoredo que quase penetra pelas águas destes maravilhosos rios... Se connosco sucede sempre assim, somos levados a acreditar que com os conterrâneos sucederá o mesmo, ou andará muito por aí, mais coisa menos coisa... A seguir e se não partirmos para novas ideias, vamos seguir numas outras viagens ao passado, em que mais uma vez os rios, sempre os mesmos rios, de outros tempos, é certo, mas por isso mesmo mais belos, queremos acreditar nisso, sem ter o propósito do contra, mas pela ligação forte ao que eram as envolvências físicas de uma época difícil e sobretudo diferente, muito diferente, em que nos era ensinado só o essencial para aquele tempo e que passava sempre e acima de tudo pela sobrevivência e para a continuidade!...Reparem nesta diferença abismal: - Há cerca de sessenta anos...( CONTINUA )
NOTA: Cópia do post no blog PEdorido.com

sábado, 12 de junho de 2010

LUFICO - UMA HISTÓRIA DA GUERRA!...

Algum dia lá teria que ser, porque fomos adiando, adiando, mas não resultam os adiamentos, quando sentimos que algo para trás ficou por contar, e, logo nós, que, até com o decorrer dos tempos, fomos adquirindo a consciência de que devemos pôr cá para fora, mesmo o que nos terá desagradado, mas, que também terá ajudado a entender, que as nossas vidas são isso mesmo, compostas por pequenos sucessos, alguns insucessos e sobretudo muitas limitações, e , por vezes algumas contradições...
Recuar ao ano de 1966, para me situar naquele dia 9 de Maio na pequena mas linda cidade do Ambrizete, ali mesmo junto do Atlântico! Parecia um dia como tantos outros, não fosse ter na mão uma credencial passada pela minha Companhia de Engenharia, para logo pela manhã incorporar uma grande coluna de carros militares e civis, que daqui abalaria até à cidade de S. Salvador do Congo, lá mais no interior do norte de Angola. Era uma coluna de abastecimento para civis e militares, coisa já rotineira neste conflito, que era a guerra colonial.
Seguia comigo um outro camarada e grande amigo da Engenharia de nome Manuel Neto e que sempre me acompanhou desde a recruta em Paramos, até à mobilização e com quem fazia equipa nos trabalhos de electricidade, que haveria de ser necessário executar pela companhia durante os dois anos da comissão de serviço naquela colónia.
Era a primeira vez que iríamos deixar a nossa tropa da Engenharia, para um trabalho temporário, algures mais a norte, num local para nós desconhecido e que se chamava Lufico... Lembro-me perfeitamente, que ocupamos um lugar no mesmo carro, porque não conhecíamos ninguém da nossa tropa e até me recordo de ter aconselhado o Neto a não aceitar um melhor lugar num jipe, que, fora oferecido a um de nós pelo alferes - naquele dia sem divisas - da tropa do Lufico, um pouco antes da coluna arrancar do Ambrizete...
Esta grandiosa coluna seguiu intacta até ao Tomboco, e, aqui, a tropa do Lufico composta de cinco carros, separou-se para seguir rumo ao seu objectivo, que distava cerca de cem quilómetros, ou um pouco mais...
Faltaria pouco mais de trinta quilómetros para atingir o nosso objectivo e aconteceu um ataque-surpresa, montado bem perto da picada pelos guerrilheiros de um dos Movimentos de Libertação, que, no caso, seriam da FNLA ou MPLA, possivelmente, e que atingiu o jipe e um unimog, que eram a frente da nossa coluna militar. As baixas do lado da nossa tropa cifraram-se por alguns mortos e vários feridos, e, era a primeira vez, que tanto eu como o Neto, tomávamos contacto com a guerra de guerrilha e duma forma trágica para alguns daqueles jovens, e, vem-me sempre à memória, que, uma das baixas, foi precisamente o jovem maqueiro que aceitara o lugar que fora oferecido ao meu bom amigo Neto!...
Passaram já quarenta e quatro anos sobre tão triste memória, duma guerra que bem poderia nem sequer ter começado, mas não ficam por aqui as más notícias... O meu bom amigo Neto deixou-nos no passado dia 30 de Maio e como era meu dever, fui acompanhá-lo até à sua última morada no cemitério de S. Martinho do Campo...
O Neto, costumava dizer que me considerava como um irmão e sei que sentia essa estima de verdade, porque vivemos momentos de profunda amizade, numa partilha que nos marcou até ao fim e que nos convívios anuais gostávamos de relembrar!...
Neste 31 de Maio é que acabei por perceber o quanto custa perder um grande amigo! Vamos fazer por merecer a sua profunda amizade e recordar sempre as coisas boas e menos boas que partilhamos, beneficiando de uma idade generosa, numa época conturbada da nossa História colectiva, mas que nunca inviabilizou o nosso sonho de ajudarmos a construir um mundo diferente e bem melhor!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O MIÚDO NÃO ESQUECEU!...

Todas as pessoas trazem agarradas a si memórias, muitas memórias e das mais diversas, sendo certo que uma boa parte se vai perdendo com o tempo, por não ser possível registar tantos acontecimentos, quando nós próprios também não lhes damos essa importância, como é óbvio.
Há factos, que nos marcaram pelos mais váriados motivos, uns porque foram determinantes nas nossas vidas, outros pela raridade, ou mesmo pela novidade, como os que a seguir vou narrar e que calei durante várias décadas...
Teria os meus dezasseis anos e na época, (final dos anos cinquenta) era comum ver os miúdos a participar nas tarefas da Carbonífera a partir dos catorze anos, colaborando dessa forma com o baixo salário para as despesas familiares. Integrávamos como aprendiz, os serviços de apoio nas oficinas de uma empresa mineira, numa falésia sobranceira ao rio Douro e numa tarde quente do Verão de 1959, quando penetrava na galeria principal, para dar continuidade a um serviço no Poço Mestre de Germunde, a uma profundidade de cem metros, fui surpreendido pela voz autoritária de um eng. técnico dessas minas e que a uma distância de uns vinte metros, exclama:- «OLHA SE CALAS O ASSOBIO!...»
Na ocasião, achei desajustada a forma autoritária com que fui admoestado, porque assobiar no interior de uma galeria, não seria caso que justificasse tamanha reprimenda, mas lá calei o assobio e o nosso homem deve ter ficado com o ego favorecido, por sentir que tivera mais uma "grande vitória", numa curta disputa, sem sentido, perante um jovem ainda despido de memórias, mas já com sonhos, naturalmente...
Pouco tempo depois e por mera casualidade, escutava da boca de um tubista das minas, uma história para mim um pouco perturbadora e que não mais iria esquecer:
« O nosso tubista, nessas minas de carvão, contava a dois ou três mineiros, que, no desempenho da profissão junto do Poço Mestre, quando estava a ser construído, evitara, com alguma genica e sorte, que um eng. em desiquilíbrio, caísse ao referido Poço, que na ocasião teria cem metros de profundidade... O tempo foi passando, até que chegara o momento desse mesmo eng. apreciar uma pequena questão, passada nas oficinas da mina e a determinado momento manda chamar ao seu gabinete o nosso tubista e comunica-lhe a decisão de lhe aplicar 20 dias de castigo, ( sem vencimento ) tendo ainda o cuidado de acentuar, que estava a ter em conta, o facto de lhe ter salvo a vida!...
O homem, que tinha vários filhos, lamentava-se com alguma raiva e frustração, por considerar o castigo injusto e desproporcionado, e, por entender, agora, que em devido tempo, deveria ter deixado que o destino se cumprisse, permitindo a queda e a morte do referido engenheiro, enquanto recordava as suas palavras na ocasião do desiquilíbrio :-AH MEU SANTO, SALVASTE - ME A VIDA !...»
Só falta desvendar, que não será por acaso, que este mesmo eng., que apreciava castigar tão severamente os humildes - mesmo a quem lhe salvara a vida - foi o mesmo que mandou calar o meu assobio, e, já muito mais tarde, após o 25 de Abril, viemos a saber um pouco mais:
HAVIA SIDO COMANDANTE DA LEGIÃO PORTUGUESA, NA CLANDESTINIDADE, OU SEJA, SERVIRA O FASCISMO COM MILITÂNCIA!...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

UM ASSUNTO BEM SÉRIO!... ( 2ª PARTE )

( Continuação )
Pensamos nós, que a Democracia também responsabiliza os votantes, que, deveriam perceber, que ao quererem o "jeitinho" de construir no seu terreninho junto dos rios, correm o sério risco de ver num próximo Inverno, sem aviso prévio, as suas vidas e os haveres, como a casita, a ser postos em causa!... Será justo a seguir vir a exigir do País as indeminizações a que já nos habituaram em casos semelhantes?!...
Se a todas estas aberrações, juntarmos uma ETAR que já nem cumpre o seu papel, dando aso a que as águas saiam ainda mais poluídas na saída, temos um cenário que nos aproxima bastante dos países do 3º mundo e nos afasta ainda mais da Europa que se quer evoluída!
Como estamos a falar de desgraças, ocorre-nos já agora relembrar que neste Portugal de Abril, os militares tiveram o bom senso de se retirar da cena política a que voluntariamente haviam aderido, e, ainda bem que o fizeram, porque é uma desculpa a menos para aqueles que usam todas as armas de arremesso para encobrir os seus erros; mas é estranho, muito estranho, que nem todos os militares tenham regressado aos quartéis ou a suas casas, preferindo ignorar a nova ordem democrática, na vã esperança, quem sabe, de um sempre possível regresso a um velho e saudoso 24 de Abril, com direitos exclusivos, sem esquecer uma promoção militar pomposa e de encher o olho, capaz de fazer esquecer os galões de major, a quem o tempo já se encarregou de tirar o brilho das glórias militares de tempos passados...
A verdade, é que os portugueses dispensariam bem este punhado de desgraças, sabendo que todos irão perder e não são só os humanos, mas também a Natureza, os mares e os rios incluídos, restando aos últimos o protesto violento das suas águas, assim que galgam para fora dos seus leitos, como que a admoestar os infractores por ocuparem espaços que sempre deveriam estar livres, para que a qualquer momento o rio tomasse conta desses espaços e ali deixasse os ricos sedimentos naturais, que iriam ajudar a adubar as terras ribeirinhas de cultivo!
Quem nasceu e morou junto do rio Douro nas décadas de quarenta, cinquenta e sessenta, conhece bem este tipo de comportamento e suas consequências, porque o Douro sempre foi um rio desigual e imprevisível, manso nos meses do Estio, mas quase sempre destemido nas prolongadas invernias, ao ponto de se sobrepôr aos afluentes e suas ribeiras, com a finalidade de ali deixar os tais sedimentos, tão do agrado das terras e dos homens que as trabalhavam, porque sabiam que as produções estavam garantidas!
A maior desgraça, é que os "inteligentes" que no nosso tempo chegaram ao Poder, teimam em remar contra a maré e a nossa maior alegria reside na certeza, que, no amanhã, que já não iremos ver, novas gentes mais descomprometidas e mais capazes, irão dar a volta a tanta asneira, para corrigir o que de mal tem sido feito aos rios e ao ambiente e com a cumplicidade de políticos europeus!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

UM ASSUNTO BEM SÉRIO!. ( 1ª Parte )

As operadoras de TV põem à nossa disposição canais e muitos canais, às centenas, mas a realidade diz-nos que grande parte, a maior parte nem sequer é visionada, porque trata de temas para os quais não estamos vocacionados, como as passagens de modelos e até alguns desenhos animados, que afinal nem funcionam a maior parte do dia...
De facto, há um canal nacional que é a RTP2, que tem merecido a nossa procura, porque, regra geral, brinda-nos com alguma qualidade e merece ser referenciada por alguns dos programas que vai apresentando aos tele-espectadores portugueses!
Ontem, domingo, tive a grata surpresa de ver ali o programa BIOSFERA e deliciei-me com aquele programa do princípio ao fim e dei por mim a concluir, o que já concluira há muito tempo a esta parte: - Sem uma Democracia, não era possível ver ali ser tratados os temas que aquele programa aflorou e que esclareceram bem quem quis ser esclarecido e que estivesse de boa fé, claro... O assunto apresentado tinha a ver com o pequeno rio Tinto e a forma como tem sido tratado, desde a nascente até à foz no rio Douro, na margem direita e já com a cidade do Porto à vista... Neste local, foi autorizada a construção duma marina, de todo desaconselhada pelos especialistas, que denunciaram os muitos atentados que ao longo das últimas décadas têm sido consentidos pelos poderes públicos a começar pelas autarquias e pela Junta Metropolitana do Porto, com a autorização da construção de casario nas zonas adjacentes ao rio Tinto, com os esgotos que para ali são encaminhados e que chegou ao atrevimento de entubar o próprio rio num espaço que permitisse depois a construção de algumas valências de interesse para a comunidade, como seja, uma piscina Municipal e outras, que, sendo uma mais valia, podiam e deviam ser equacionadas para outro local.
Pelo meio, segundo os intervenientes do programa, houve troca de terrenos e claro o interesse de particulares, que também quiseram aproveitar tão "gentil oferta"...
Esta decisão já vem dos anos noventa em que um tal major, decide por "voto de qualidade" o castigo de um pequeno rio, incapaz de se defender e apelar para um sítio algures na Europa ou no Mundo, uma vez que os mais entendidos académicos não foram escutados, ou pelo menos atendidos nos seus reparos!...
A determinada altura, alguém chegava ao ponto de afirmar que os alemães e os noruegueses neste preciso momento estão a tratar estes problemas de forma bem diferente, mas que deverão estar errados e os portugueses, esses sim, é que estarão certos!... Estava a ironizar, é claro!
Sendo certo que vivemos em Democracia, como é possível que estas coisas ainda vão acontecendo?!... É até de admitir que outros casos idênticos e até mais graves estejam a suceder em outros rios por esse Portugal além, mas aqui houve a coragem destes especialistas, que cumpriram o seu papel de divulgação mas também de formação, para quem, como nós, não é um entendido na matéria, percebendo-se, por este exemplo, da utilidade dos dinheiros públicos na formação de académicos capazes e descomprometidos!
( Continua )

sábado, 1 de maio de 2010

HAJA LUZ!... DOIS MAGNÍFICOS EXEMPLOS!

Os nossos dias não são todos iguais e com o comum dos mortais passar-se-á o mesmo, porque somos influenciados até por coisas mínimas mas reais, como a avaria de um exaustor da cozinha, a caminho dos dez anos de serviço e que trabalhou como um "desgraçado", mas que a nós custa a aceitar, porque é daquelas coisas que exige resolver "já" e "agora", mesmo que não seja possível no próprio dia!... Ainda mal refeito deste contratempo, não é que o radiador do automóvel dá indícios de perder líquido, mas voltamos à mesma sina, porque passaram catorze anos e o desgaste não tem contemplações!...
A propósito, tenho dois casos muito pouco comuns para vos contar e que me fizeram ultrapassar por completo as vicissitudes das duas referidas avarias, porque são duas lições, qual delas a calar mais no fundo, até porque não estava à espera nos dias que correm, vir a ser confrontado com atitudes, que, em boa verdade, pensávamos, já não ser possível...

1º caso:- « Dirigi-me a uma loja de peças, para saber quanto iria pagar pelo radiador novo e o snr. que me atendeu ficou com o meu contacto, para me informar do preço; no mesmo dia recebo em casa a informação de que o radiador custaria 68 euros , já com I.V.A. e que no dia seguinte já podia procurar; ao 2º dia dirigi-me à loja e o mesmo snr. diz-me o seguinte:- Disse-lhe que o custo do radiador era de 68 euros já com I.V.A., mas, como consegui mais barato, vou também beneficiá-lo e só terá que me pagar 58 euros com I.V.A...
Lá paguei, recebendo a factura, como mandam as boas regras, mas confesso que por esta não esperava, uma vez que já havíamos acordado o preço a pagar, e, posso garantir que nem somos amigos, nem sequer nos conhecíamos!...
Afinal, tenho de reconhecer, que há ainda pessoas que estão no mundo dos negócios duma forma que surpreende pela positiva e nós temos o dever de divulgar ao nosso mundo, que ainda há humanos que pertencem ao grande grupo das pessoas de carácter e com princípios marcantes nas suas atitudes, em oposição clara e frontal com aqueles que levam milhões e milhões com todo o descaramento, para as suas contas bancárias, dinheiro esse que é dos contribuintes e de um país que tem compromissos e que deverá respeitar!...»

2º Caso:- « Uma semana mais tarde, seguia muito compenetrado na minha caminhada e ao entrar numa estrada secundária e de algum movimento, dou com um jovem com cerca de trinta anos, que se ocupava na tarefa de apanhar das bermas e até do pinhal as latas de alumínio, que, depois de vazias, são atiradas para fora dos automóveis, sendo certo, que, os transeuntes fazem igual e então é uma praga esta poluição, que irá contribuir para pôr em risco o equilíbrio ecológico...
Achei aquilo, a meio da manhã, um gesto que me trouxe curiosidade e não tive qualquer problema em provocar o diálogo com o jovem e a primeira pergunta que lhe fiz, foi para tentar saber se pertencia a algum grupo de ecologistas, tendo o jovem dito que não e que se empenhava na tarefa para atingir dois objectivos: - Com esta recolha, conseguia arrecadar 50 cêntimos por Kg, ao mesmo tempo que conseguia um 2º objectivo ao colaborar na limpeza dos espaços públicos, que, segundo ele, estão cada vez mais poluídos e que sabia do que estava a falar... »
Estes dois magníficos exemplos, levam-me a pensar, que serão uma ínfima parte do que de bom ainda se pratica no dia a dia neste nosso Portugal, mas, o que acontecerá, é que a maioria dos meios de comunicação social vive do fantástico e do agitar de nomes sonantes, em que uma boa parte já nem são referência, e, se o forem, será pelas más razões, não admitindo perante o país, que a sua hora já passou e que fizeram algumas coisas certas, mas que os erros ficaram por admitir, com o intuito de os misturar no rol das coisas boas... Se o tivessem feito, teriam de facto outra dimensão, mas estão na VIDINHA como querendo ser os "paizinhos" de um povo, que, na sua opinião, precisa deles como do "pão para a boca", quando o mais real é que são essas figuras a precisar do ENCOSTO, e, alguns deles, vão mesmo ao ponto de fazer afirmações, sem nexo, como esta: - « PORTUGAL É UM PAÍS POBRE E PERIFÉRICO ... » Grande lata!
Estes dois excelentes exemplos, de como estar na vida, destes dois anónimos portugueses, soaram alto dentro de mim e acordaram-me para me dar a saber, que as realidades nem sempre são o que parecem, ou, que, matreiramente, nos querem impingir!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ!...

Há coisas que gostamos muito de fazer, mas há outras que nem por isso, mas que aceitamos fazer por razões várias, quando mais não seja, por entendermos que não devemos sobrecarregar os outros, que já estão ocupados e porque não seria justo, não percebermos, que as tarefas divididas, alivia uns e outros, pena é que os exemplos gerais das nossas sociedades, não apontem muito para outro tipo de divisões e os resultados dos egoísmos desenfreados e das vaidades exacerbadas, estão a pôr em risco os pilares de valores que eram considerados os barómetros dessas mesmas sociedades em tempos que já lá vão...
Quem será o culpado e onde mora? Será mesmo que haverá culpados para ser apontados a dedo, ou será que tudo isto tem vindo a acontecer, depois que os humanos "descobriram" que o que é bom para eles e para o planeta é o sucesso individual, mesmo que isso ponha em causa os outros sucessos todos, onde estão a restante sociedade, os outros animais, as árvores e até a vida no planeta?!...
Parece-nos que os desiquilíbrios estão a ficar mais desiquilibrados, mas será que isto é verdade? As vidas nunca foram fáceis para os povos e quem no-lo diz é a própria história desses mesmos povos e basta conhecer o essencial da nossa história, a caminho dos novecentos anos, para concluir, ou para tirar ilações do que foi a vida dos portugueses desde o Condado Portucalense...

Este mês de Abril, carregado de verdura e de flores, de todos os tipos e de todas as cores, onde incluímos as dos arbustos selvagens, transporta consigo como que uma força oculta, que consegue "arrancar" as pessoas da rotina e convidá-las a sair de suas casas, deixar para trás os meios urbanos, que tanto nos "prende" e embrenhar-se a pé, através de uma natureza, toda ela mais verde, mas sobretudo cheia de paz e de um sossego, que tantas vezes é quebrado pelos variados cantares dos pássaros, a maior parte já nossos velhos conhecidos, mas por vezes somos despertos pelo chilreio de um ou outro que não sabemos distinguir sequer de que pássaro se trata, mas que pouco importa, porque o que conta é que são bonitos, possuem cantares lindíssimos e nunca desafinam ... Desde que me conheço e me dei conta destas envolvências com a natureza, logo nos primeiros anos da minha meninice e naquela linda aldeia do Douro, reparo que ainda tudo é tão igual na natureza, sem avanços nem recuos, pelo que me é dado notar e quero acreditar, que não há ali qualquer desiquilíbrio e por esse lado, parece-me, que o cenário não terá sofrido qualquer alteração!...
Enquanto que no terreno dos humanos, as descobertas científicas nos últimos sessenta anos foram mais que muitas e em todas as áreas, porque será que não conseguiram convergir para o equilíbrio e até fizeram pior, basta ver os desiquilíbrios actuais na sociedade portuguesa para se perceber que não "bate a bota com a perdigota"...
Nos meus caminhos de Abril, com a natureza verde e tão verde, com os pássaros irrequietos e palradores, com um comportamento tão igual e tão feliz como o dos seus antepassados naquelas terras durienses de tempos passados, apetece-me perguntar:- « QUAL SERÁ A DIFICULDADE OU DIFICULDADES, QUE IMPEDE QUE OS HUMANOS, NÃO CONSIGAM OS MESMOS EQUILÍBRIOS QUE SERES MENOS INTELIGENTES VÊM CONSEGUINDO?!... »

quinta-feira, 22 de abril de 2010

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NOS ANOS CINQ.- (2ª Parte)

Recuar até aos anos Cinquenta e retermo-nos por uns instantes que seja a procurar visionar recordações de uma época já um pouco distante, mas, que, seguramente, não foi esquecida e que merece ser aflorada, independentemente dos factos serem bons e menos bons, para que possamos perceber que também fizemos parte dessas histórias, que nos cruzamos pelos mesmos caminhos de uma vivência que foi deveras difícil e que assistimos a muitos factos que atestam isso mesmo, ou, que, mais dia menos dia, acabaríamos por conhecer, porque era uma ligação diária e muito personalizada, que contrabalançava como que em oposição aos baixos conhecimentos escolares, onde uma larga maioria nem saberia ler e os outros tinham poucos hábitos de leitura, excluindo tudo quanto estivesse relacionado com as leituras religiosas, uma prática muito incentivada por uma igreja católica, que por ser única, dirigia a seu bel-prazer tudo o que deveria ou não ser feito por toda esta gente, que aspirava chegar um dia ao Céu, temendo ter de passar pelo Purgatório, mas afugentando para bem longe a hipótese de cair no Inferno...
Na época, os padres católicos tinham um estatuto social bastante elevado e sobretudo um poder, que, quase ninguém ousava enfrentar, porque era uma igreja que se tinha enraizado ao poder político de partido único, respirando o mesmo ar arrogante e que não admitia, sequer, a contradição, quando se envolvia em questões que nada tinham a ver com o catolicismo, sendo esse mais um dos grandes pecados cometidos por uma boa parte desses abades e com a cobertura das suas hierarquias. Claro, que houve honrosas excepções de abades que não excederam os limites da prática religiosa e do amor ao próximo, mas viram-se excluídos de progressão nas suas carreiras, por não serem da "confiança" absoluta dos chefes!...
Acontece, que em Pedorido essa intolerância era por mais evidente e visava sempre os mais humildes e a história que vamos contar prova isso mesmo:
« Ali pelo ano de 1955, alguns rapazes do Alto Picão, trabalhadores das minas e cheios de genica, até pela idade e ainda porque eram solteiros e bons rapazes, decidiram ocupar uma pequena parte de uma bela tarde de um domingo primaveril a "imitar" uma prática religiosa tão do agrado dos cristãos a que chamam Compasso, como se tivessem regressado ao tempo das "casinhas"...
Fizeram-no duma forma espontânea, com uma cruz de madeira grotesca, às "três pancadas", de exposição muito reduzida, e, pensamos nós, que debaixo de um clima de "muito boa disposição", próprio dos meios mineiros, onde as tabernas funcionavam de manhã à noite, e, só quem não viveu naquela época, poderá achar uma coisa insólita e muito desproporcionada...
Ora, numa aldeia controlada ao pormenor, é certo e sabido que o dono do rebanho foi de imediato avisado pelos informadores, que até podem não ter visto, mas que puseram pés a caminho como era seu "dever", levando até ao abade uma "boa notícia", de "qualidade rara" , presume-se... O abade não era de "meias medidas" e vai de excomungar, de imediato, dois dos brincalhões e foi assim colocada uma pedra sobre um assunto, em que mais uma vez, a igreja católica, foi tão mal servida por um vigário que usou a vingança sobre uns quantos humildes, que bem necessitados andariam de alguma compreensão e ajuda, para poder continuar a suportar a "cruz pesada" que a profissão e o baixo salário de mineiro a todos colocava!... »
O que ainda espanta é que uma Instituição como a igreja católica, bem organizada pelo que nos é dado observar, não tenha tido até aos dias de hoje a humildade de "descer à terra" para reconhecer e explicar a toda a sociedade que errou, como errou e porque errou....
Era tão fácil, era justo e seria uma boa prática, a prática da tolerância e do respeito pelos humildes, e, para se ficar a perceber, que, finalmente, esta mesma igreja havia cortado com as práticas erradas do seu passado recente!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

OS VERDES E AS FLORES DA PRIMAVERA!

Agora que as temperaturas "acalmaram," as caminhadas ou uns simples passeios pedonais permitem-nos apreciar e mesmo contemplar como bela é a Primavera!
Com toda a certeza que as árvores terão os portes da nossa meninice e o verde será o mesmo, mas também é verdade que uma ou outra espécie serão uma novidade, vindas sabe-se lá de onde, mas muito provàvelmente de algum ponto do nosso litoral, ou então dum dos muitos locais do nosso interior, estou a lembrar-me do Gerês, onde há uns anos atrás me recordo ter visto certas plantas e até árvores que foram novidade e que a altitude, as temperaturas amenas e a humidade explicarão bem melhor que quaisquer outras conjecturas...

É bem verdade, que há uns cinquenta anos atrás, só nos grandes centros urbanos e nas principais cidades deparávamos com jardins e canteiros públicos bem estruturados e floridos, mas, depois de Abril de 1974, aos poucos, foi-se generalizando e o hábito está espalhado por todas as cidades e vilas e ainda por grande parte das aldeias, que se tornaram ainda mais atraentes, sobretudo com a chegada da Primavera, porque as flores tornam os canteiros ou as rotundas um verdadeiro prazer para os olhos de quem passa e que não pode ficar indiferente a tanta beleza e diversidade!
Infelizmente, "nem tudo são rosas" e há vários dias nas minhas caminhadas de fim de tarde, fui surpreendido com uma atitude de um ou mais humanos que pela calada da noite - pensamos - terão tido o atrevimento de retirar uns dois pequenos arbustos rasteiros de um dos canteiros públicos, mesmo marginal ao passeio, abrindo uma clareira que ficou a notar-se à vista desarmada e ainda tiveram o desplante de espalhar uma certa quantidade de terra pelo passeio, em cerca de vinte metros, como que a deixar a marca do "crime"... Este tipo de atitude, não dignifica o ser humano e só vem provar que há ainda um caminho longo a percorrer no sentido da responsabilização individual, compatível com o que deverá ser uma Democracia moderna e exigente e que só poderá ser conseguida através do empenho dos cidadãos!
Há dias atrás, contava-me um amigo meu uma outra história passada na sua rua, em que um vizinho volvidos oito anos, "obrigou" um outro vizinho a retirar uma pequena planta, ( arbusto ) bem linda por sinal e ainda florida, só porque resolveu inventar argumentos sem cabimento, enquanto fazia saber que o seu arbusto não seria para retirar! Ou seja, retiras o teu arbusto, mas eu não retiro o meu... Tal e qual! Conseguiu o seu objectivo, porque ainda há criaturas que preferem ficar prejudicadas, e, com o apoio de outro vizinho, trataram de transferir o lindo arbusto para uma outra zona e estão a fazer todos os esforços possíveis para ver se ainda o conseguem "salvar"...
Estas situações "trazem à baila" as fragilidades ainda muito latentes na nossa sociedade, porque não se muda do dia para a noite!... As mudanças para melhor nas pessoas, levam uma vida e quando se consegue um feito desses é razão mais que suficiente para se fazer uma festa!... A mesquinhez, o egoísmo, a inveja e outros preconceitos interiorizados desde a infância, estão em profunda contradição com as sociedades solidárias, porque são doenças que dividem muito as pessoas, criam todo o tipo de quezílias e tornam-nas infelizes...
A esperança essa nunca vai morrer, porque acompanha sempre todas as causas merecedoras do empenho dos que não desistem, e, que sabem, que vai valer sempre a pena estar do lado dos justos e dos oprimidos!
Há até quem lhe chame uma "guerra" que não mais parará, mas eu prefiro o termo "batalha", porque as guerras dos povos e que nós estudamos na História, eram um conjunto de batalhas e por esse prisma esta será uma das "batalhas" do nosso tempo, e nós, tal como os nossos antepassados, estamos na firme disposição de "guerrear" para que o bem prevaleça sobre o mal!

terça-feira, 23 de março de 2010

Porque será que isto acontece aos HUMILDES?!

Já andávamos, há umas boas duas décadas para passar para o papel algumas considerações, que se prendem com a forma como a política vem sendo exercida no nosso país, desde que começou a ser possível a ida às urnas para eleger para um determinado período de tempo as pessoas ou os partidos políticos, mas também procurar "ver" ou "entender", como é que as pessoas votam, como votam ou, porque, simplesmente, se recusam a ir votar...Achamos por bem recorrer a dois "bons" exemplos, que se passaram nas autárquicas de 2009 e que põem a descoberto situações, que, no mínimo, encaixam mal num sistema, no essencial livre, mas que põe a nu as fragilidades e vulnerabilidades de uma sociedade que não saberá ponderar, se recusa a ponderar e resolve "alinhar", diria, quase cegamente, ao usar livremente o voto, mas sem exigência pela ética política e no maior dos desprezos por princípios de seriedade e de respeito por todos e em especial pelos humildes!

Estamos a referir-nos a Ovar e a Oeiras que são o paradigma da irracionalidade do voto, embora por questões diferentes, é justo que se diga.
Em Oeiras, estava em causa a eleição de um autarca a contas com a justiça, que, aliás, já se tinha pronunciado com uma pena de sete anos de cadeia efectiva e de cinco anos com perda do direito cívico... Apesar de todo este imbróglio, a maioria dos que foram às urnas naquele mês de 2009, optaram em consciência, por votar no autarca "condenado" pelo tribunal de que não restam dúvidas, terá funcionado como devem funcionar os tribunais num estado de direito!
Este caso é no mínimo polémico e levanta muitas questões, no campo jurídico e até constitucional, mas, parece-nos, que o caso mais sério, prende-se com os que quiseram nas urnas utilizar o voto sem o mínimo de exigência ética, com abandono total de princípios e alheando-se completamente das decisões de um juiz e de um tribunal, que ninguém vai acreditar que andou a inventar provas!...
Nos tempos que correm, onde a informação é abundante, não seria com essa desculpa que poderíamos ficar satisfeitos, quando até estamos informados que Oeiras será um dos concelhos do país com os mais elevados índices de letracia... Ou seja, uma boa percentagem daqueles eleitores terá escolaridade quante baste e essa realidade "incomoda" ainda mais, porque, felizmente, não estamos a tentar analisar o procedimento de pessoas de fracos conhecimentos académicos, quase analfabetos...
Em Ovar, um dos grandes pontos de discórdia, prendia-se com a tentativa do anterior executivo pretender mudar a distribuição da água aos munícipes para um novo contrato, que, no mínimo, iria durar cinquenta anos, que segundo estudos divulgados e nunca desmentidos preto no branco, levaria o preço do m3 para valores mais altos e logo nos primeiros três anos. O caso gerou muita discussão pública, durante a campanha eleitoral, tendo o candidato do BE, que havia rompido com o anterior executivo por via do mesmo assunto, utilizado grande parte da campanha a rebater o que considerava um erro histórico, não só pelos custos futuros da água, mas ainda pelo tempo a que os munícipes iriam ficar amarrados de pés e mãos; apesar de todos estes considerandos, a maioria que foi até às urnas, deu a maioria dos votos ao autor da proposta, que se recandidatara pelo seu partido e nem sequer atribuiu ao candidato do BE o número de votos suficientes para ser eleito como vereador!...Este é outro dos casos, em que mais uma vez, o voto terá sido usado de forma quase irracional, por uma maioria que acha muito bem que a água, um bem essencial para a vida de toda a gente, possa subir para preços mais elevados, logo nos três primeiros anos e que o contrato vá valer cinquenta anos, ou seja, um contrato já a contar com os netos que irão ser a continuidade... Acreditam estes "avós", que até tinham boas razões para duvidar, que os seus queridos netos, daqui a cinco décadas serão todos no mínimo da classe média alta, quando pelo que se vê, infelizmente, as coisas não apontam para sonhos tão altos!...
Um querido amigo meu, contava-me há dias da sua experiência, rica de conteúdos, vivida após a revolução dos cravos até ao início dos anos oitenta, numa empresa da região. No fundamental, cuidou-se de repôr a dignidade no trabalho, onde passou a haver melhores salários e outros direitos que os mais humildes não tinham, apesar da boa condição financeira da empresa! O 25 de Abril veio dar a possibilidade de uma viragem histórica naquela empresa, onde além dos lucros passou a haver DIREITOS e DEVERES para todos e só a partir dali os humildes puderam perceber, que é possível ter além do TRABALHO outros DIREITOS, sem pôr em causa nada, nem ninguém...Só que o "urso" tinha entrado em hibernação e com o colapso de Abril, depois do 25 de Nov. de 75, começa por sair lentamente desse estado e nesse ano de 1978, mobilizou-se e mobilizou alguns apoios internos e externos, para repôr a "ordem" numa situação que aceitara, mas que nunca aceitara, apesar dos excelentes resultados financeiros que todos os anos ia obtendo. Contou o meu amigo que o plano passou por duas fases distintas:

a) Começou por querer retirar alguns dos direitos aos trabalhadores que haviam sido acordados por ambas as partes no final de 74 e querendo que a C. dos Trabalhadores concordasse com o processo, coisa que a C. T. não fez!b) Avançar de seguida para um processo mais radical e eficaz, procurando que fossem os próprios trabalhadores num plenário a destituir a C.T., com o argumento de que só ainda não tinham pago a participação nos lucros, ( fazia parte do acordo interno ) por culpa da C.T.

Já no final do Plenário, alguns desses mobilizados avançaram com a proposta que tinha dois pontos: Propôr à C.T. que se demitisse e caso não o fizesse seria demitida pela Assembleia. É evidente que nenhum dos cinco se demitiu, e, explicaram, que se tratava de manobra do patronato, mas mesmo avisados, a maioria expulsou as cinco pessoas honestas da C.T.

O meu bom amigo, ainda se manteve nessa empresa até 1981, ano em que bateu com a porta, mas até lá, ainda assistiu a uma série de tropelias do patronato para com os trabalhadores mais humildes e como não podia deixar de ser, contra aqueles que foram sempre fiéis aos princípios dos acordos e que o patronato "rasgara" em pedaços, logo que começou a ter condições. Já em 1980, este mesmo patronato teve o descaramento de nas horas de trabalho chamar ao seu gabinete este nosso amigo e ao mesmo tempo que lhe lembrava ser um bom profissional, mas que já estaria a ganhar menos que os porteiros e só lhe dava duas alternativas:- a) Dentro das suas empresas não podia permitir que houvesse alguém a defender os trabalhadores e logo que o deixasse de fazer, teria um bom lugar como contra-partida; b) Caso não aceitasse a sua proposta, iria ter uma grande surpresa, sem chegar a concretizar a ameaça...

Nunca mais houve contactos e passado algum tempo o meu amigo despedia-se do seu chefe directo, dos trabalhadores e da empresa e hoje, passados trinta anos, está seguro que honrou o compromisso que assumira ao assinar o Acordo em fins de 1974 e por isso sente-se tranquilo, só sente uma angústia por se ter apercebido na época, que o tempo dos humildes havia regressado, e, isso doeu, e, ainda hoje, sente alguma saudade, quando recorda que os donos dessa empresa, apelidavam de REVOLUCIONÁRIOS os poucos trabalhadores que nunca vergaram!...

Será que esta história verídica e que em traços gerais o meu bom amigo, já na reforma, me contou, explicará em parte os caminhos curtos e aparentemente aveludados, que cativam os portugueses até às mesas de voto e que não passarão de belas encenações com direito a cumprimentos e a sorrisos, não farão parte, em alguns casos, de um aliciamento que nos poderá conduzir para caminhos longos e pedregosos e com consequências difíceis de avaliar?!...

Não valeria a pena reflectir, pelo menos reflectir?!... Os factos estão aí...

domingo, 21 de março de 2010

AS "nossas" MENTIRAS e as dos OUTROS!...

Vamos falar claro, procurando falar verdade, se possível!...
Por me parecer interessante, começo por contar uma pequena história, que apesar de simples merece ser contada:

« O final da manhã de hoje estava calmo e decidi entreter o olhar pelo meu jardim, porque espero com alguma ansiedade a chegada da Primavera, uma vez que já fiz o que devia ser feito, resta apenas a relva começar a despertar para a vida e o mesmo se espera do que foi previamente e carinhosamente enterrado pelos espaços do jardim, esperando, que o nosso empenhamento e o carinho que pusemos em todas as acções, venham a ser compensadas com os melhores resultados, que esperamos ver através de uma relva pujante e ainda mais verde, bem como de flores e rosas mais belas e mais perfeitas, porque temos sempre presente na nossa mente o sentido da exigência até para com a Natureza, talvez, sabe-se lá, por querermos que tudo à nossa volta devesse ser belo e perfeito, imaginando fazer parte de um outro mundo, que não descambasse, nunca, para o "abismo" ...
Só que pensamentos destes, acontecem a toda a gente e daí não vem mal ao mundo, valem o que valem e até nos ajudam a desvanecer, retirando do nosso cérebro outros estados de alma que só nos desfavorece e que dispensaríamos de muito bom grado... De repente, fui "sacudido" e "acordado" para a vida real em resultado de um estrondo característico de uma árvore em queda e o som provinha de um pinhal, que existe na continuidade do meu jardim e como tinha excelente visibilidade, fui capaz de localizar a árvore que caíra, mas continuei a achar muito estranho o silêncio que continuava instalado em toda aquela área e fiquei estático uns dois minutos, na espectativa de ver surgir "alguém" que estivesse agachado naquele matagal, porque sempre acreditei que era mais uma crueldade de algum humano... Como tudo continuava calmo, silencioso, decidi avançar até ao local e dou de caras com a árvore arrancada pela base, mas pelo que pude observar, o acidente foi provocado por todo este mau tempo e que terá tido a sua origem num Atlântico, que, de longe a longe, perde grande parte da sua passividade e faz-nos recordar outros mares e outras latitudes . »

Fiquei mais aliviado e senti alguma felicidade, por perceber, que no caso presente, o ser humano não merecia ser culpabilizado, sim, porque cada dia que passa o rol de crueldades e de acusações aumenta, vindo de todos os cantos da Terra, ao mesmo tempo que vemos a ser esgrimidos argumentos, na tentativa de tentar « TAPAR O SOL COM A PENEIRA », coisa que até hoje não foi conseguido, mas os humanos, por vezes, surpreendem-se a si pròprios...
Os casos de pedofilia, contam-se aos milhares e vêm de longa data, atingindo instituições como a igreja Católica, que terá escondido para "debaixo do tapete", mas que agora vai ter grandes dificuldades para dar explicações convincentes aos seus seguidores e ao resto do planeta, se, entretanto, não optar mais uma vez por ignorar, ou então seguir o caminho da mentira, quando no passado afirmou que esta igreja era santa, mas já se ouvem alguns teólogos a mudar o discurso milenar, ao catalogar, agora, a mesma igreja de santa e de pecadora!... A desculpabilização já estará em marcha, mas a dignidade está ferida de morte, enquanto os milagres irão continuar, possivelmente, na vã tentativa de contrabalançar o errado!...
Todo o ser humano, que duma maneira ou de outra, aspira a um mundo menos desigual e sem as chagas da pedofilia e de outras barbáries, sentir-se-á desassossegado, mas terá de buscar forças mesmo que elas já não existam, porque sempre vai haver gente de BEM, que será sempre a maioria e que terá o descernimento do poeta brasileiro Affonso Romano de Sant'Anna que foi o autor deste belo poema, sempre tão actual e que quero de todo o coração dedicar a todos os meus conterrâneos, com um carinho muito especial para o Manuel Araújo da Cunha e para o Valdemar Marinheiro, pela forma dedicada e continuada na divulgação da nossa linda zona do Douro e das suas boas gentes:
Deliciem-se, a seguir, com uma parte deste belo poema, que reputo de sublime e ainda por cima tão actual, para constrangimento nosso!...
A IMPLOSÃO DA MENTIRA
_____________________________
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
_____________________________
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
____________________________
Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
____________________________
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
(....e continua...)

sexta-feira, 5 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

Continuação ( V )
A actual e futuras gerações que tomem conta destes factos, vividos e sofridos pelos seus antepassados recentes, para que percebam da importância que a viragem que o 25 de Abril veio possibilitar, e, que, a não ter acontecido, não teria dado sequer a hipótese ao autor deste testemunho, se ter apercebido minimamente, de que assistiu aos factos, que participou neles e que fez parte duma sociedade ludibriada, e, o que ainda dói muito, é verificar, mesmo hoje, que ainda há pessoas, alguns são até nossos amigos, mas que ainda não se terão apercebido, que tal como eu, apenas tiveram direito a DEVERES, vivendo na mesma época de CINQUENTA!
Como é bom referir aqui, as provas de lealdade e de companheirismo para com todas as gentes desta vasta zona, por parte do grande rio Douro, do velhinho Arda e do pequeno mas muito útil rio Mau, sem esquecer aqueles saudosos moinhos, assim como toda a vasta e amiga floresta, que, no seu conjunto, tanto ajudaram a suavizar as tremendas dificuldades com que esta esforçada gente foi sendo "brindada" ao longo de décadas!... Só um tresloucado, ou um imbecil, que sempre aparecem ao longo da história dos povos, lhes poderia atribuir culpas, pelos desencantos e sobretudo pela felicidade que sempre escapou aos povos destas lindas aldeias, mas se quisermos ser honestos, por uma vez que seja em toda a nossa vida, iremos encontrar todas essas culpas em seres humanos, que se venderam a troco de quase nada, mas a História irá colocá-los no sítio onde vão parar todos os que merecem ser esquecidos e a nós, os que acordamos para a vida, só nos resta um caminho decente, que passa por alertar os nossos e os filhos dos outros, de que é muito perigoso permitir que a IGNORÂNCIA se volte de novo a instalar na nossa sociedade, porque a seguir é extremamente fácil retirar os DIREITOS e exigir apenas os DEVERES!
A terminar, comove-nos poder voltar a imaginação para umas remadas no maravilhoso Douro ou nos seus afluentes, na companhia de um dos "resistentes" Valboeiros e recordar como foi solidária a sua ligação de muitos e muitos anos com as gentes humildes da região mineira, em que ambos sempre ganharam, sem necessidade de alguma vez ter de ser redigido um qualquer documento entre as partes, já que o respeito mútuo era inequívoco e inquestionável! Está provado que qualquer rio é menos agressivo e mais previsível que o mais pacífico dos seres humanos...
Já não nos espanta, os muitos factos desagradáveis, e, que bem diferentes, para melhor, poderiam ter sido, mas enquanto os rios têm milhões e milhões de anos, os humanos terão a insignificante idade de cento e poucos milhares de anos, o que desculpa, em parte, muitos dos erros que ainda vão cometendo contra si próprios... E até quando?!...
OBRIGADO RIO DOURO!
FIM da 5ª e última REMADA!
UM ABRAÇO PARA TODA A REGIÃO MINEIRA DO PEJÃO!

quinta-feira, 4 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

( Continuação IV)
Seguramente que é aqui que vamos encontrar o grande défice, e, que explica, o que de menos bom sucedeu a toda esta gente, a quem não foi permitido evoluir para o conhecimento, numa época em que o carvão era uma das principais energias que fazia movimentar grande parte da economia deste país, e, até havia quem apelidasse o carvão de OURO NEGRO!... Houve como que o cuidado de atribuir salários baixos e muito más condições de trabalho a quem trabalhasse nas minas e como a indústria nacional necessitava muito desta matéria prima, "alguém" teve a ideia "brilhante" de atribuir uns prémios para juntar aos magros salários, mas só àqueles mineiros que produzissem para lá de um mínimo estabelecido... Estas jogadas e outras, aliadas ao analfabetismo latente e à falta de informação, que o regime de partido único, não permitia, contribuiram, no essencial, para a infelicidade de mineiros e suas famílias, quando havia todas as condições objectivas para que nesta região se vivesse dentro de padrões aceitáveis e sobretudo dignos...
O domingo, que era o único dia de descanso do mineiro e dos outros trabalhadores começava bem cedo, com uma missa pela manhã, a que se poderia juntar a reza do terço de tarde, ou então uma tarde de pesca no Douro, ou no Arda, ou um jogo de futebol ao vivo, que, a acontecer, daria para se encontrar com os amigos da semana, e, no final do mesmo, poder confraternizar com esses amigos e com outros, numa das muitas tabernas da sua aldeia, onde, mais uma vez, discutiriam os mesmos assuntos, de reduzidíssimo interesse, até que o final do dia convidava a tomar o caminho de casa, e, desta forma rotineira e culturalmente adversa, terminava mais uma semana, em que não se previligiou culturalmente a mente, com uma ida ao cinema ou ao teatro, ou a simples leitura de um livro dos autores portugueses mais consagrados, nem sequer uma ligação mais afectiva aos filhos e à esposa como seria aceitável e até desejável!...
Moral desta história:« É fundamental perceber que o trabalho, só por si, sem DIREITOS, não dá dignidade a ninguém, porque se assim fosse, os escravos não precisariam de aspirar pelo fim da escravatura, porque já teriam atingido o topo da dignidade possível, quando todos sabemos que foi precisamente o inverso»...
FIM da 4ª REMADA ( continua )

terça-feira, 2 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

( CONTINUAÇÃO III )
Será muito interessante abordar neste raciocínio as várias actividades, que, na época, representaram um papel fundamental na vida diária destas gentes e começaremos precisamente pelos moinhos, que, montados de forma engenhosa, aproveitavam o "desvio" de parte da água dos afluentes, nas duas margens do rio Douro, para possibilitar, por um processo simples e barato, a moagem de todos os cereais que entravam na composição do pão de milho, que era a base da alimentação das famílias humildes!
Outras actividades de extrema importância, estão ligadas à rica e abundante floresta de toda esta zona de baixa montanha, aonde as famílias humildes iam buscar, quase diariamente, aqueles desperdícios de lenhas com que faziam todos os cozinhados, numa lareira granítica e arrumada ao fundo e no ponto mais central da cozinha e onde todos se aqueciam nos invernos, sempre rigorosos, enquanto a cozedura do pão de milho, tinha lugar, uma vez por semana, num forno de tijolo e barro, bem encostado a um dos cantos da cozinha...
Da mesma floresta, trazia-se ainda o mato rasteiro com que os lavradores, pequenos caseiros e a generalidade das famílias faziam as "camas" de bois, vacas, suínos, galináceos, coelhos, ovelhas e cabras, para que algum tempo volvido, pudessem ter o proveito de sacar dali, o "belo" estrume com que adubariam as terras de cultivo e donde esperavam colher uma parte substancial da alimentação familiar!
As excelentes árvores de pinho e de eucalipto, criadas nesta floresta, e, em que uma boa parte das maiores e mais bem compostas "sortes" pertencia a duas ou três casas abastadas das aldeias, que, só muito raramente procediam ao seu abate, e, assim, ao entrar na floresta qualquer cidadão ficaria elucidado sobre o dono dessas "sortes", só pelo porte desproporcionado das referidas árvores!... Ao contrário, as "sortes" dos restantes donos, na altura certa, lá sofriam o corte necessário e as suas madeiras seguiam pressurosas a abastecer as fábricas, para ali ser transformadas em pasta de papel, ou, então, seguiam directamente para fazer os escuramentos nas galerias das minas do Pejão, outro dos destinos prováveis e de longe a actividade mais empreendedora de toda a região, com uma ocupação superior a mil postos de trabalho, só na Carbonífera!...
Depois de todo este grande empenhamento durante décadas e do grande esforço físico dispendido, absolutamente comum a todas as aldeias periféricas das minas do Pejão, e, que, ao fim e ao cabo, podemos considerar como fazendo parte dos seus DEVERES, apetece, e é justo que perguntemos:

« E quais foram os DIREITOS com que contaram?!»

FIM DA 3ª REMADA ( Continua )

segunda-feira, 1 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

(CONTINUAÇÃO II )
Na outra margem do Douro, quase em frente a Pedorido, escondia-se a ribeira de Rio Mau, de menor dimensão, mas igualmente trabalhada a gosto por pequenos lavradores, que, procuravam tirar o melhor partido daquelas terras ribeirinhas e que se estendiam até ao sopé da serra da Boneca, contornando todo aquele sinuoso vale na companhia do pequeno e inseparável afluente rio Mau, aqui e ali com marcas de alguma violência de invernos passados, mas como que retraído, e, por vezes escondido, segue agora sem pressas, acabando por entregar duma forma mais suave as suas águas ao grande rio Douro no lugar da Foz!
Mas, se agora acompanhássemos as correntes velozes do Douro, íamo-nos deparar um nada mais abaixo com Melres e a sua ribeira, de boa dimensão, paralela ao rio e ao grande areal, desafogada e airosa, porque a serrania ali tivera a "sensatez" de se arrumar para zonas mais afastadas do Douro, como que a criar as boas condições naturais para o surgimento, milhões de anos mais tarde, daquela linda e plana localidade, coisa invulgar em todo o sinuoso vale que vínhamos seguindo rumo ao Atlântico...
Melres, também ela terra de lavradores, pescadores e mineiros, devido à grande proximidade das minas do Pejão em Germunde, mas onde a lavoura e a pesca no Douro tinham grande expressão, assim como o comércio tinha ali um certo destaque, já que uma vez por mês ocorria lá uma feira que mobilizava as gentes das terras vizinhas, de ambas as margens do rio Douro, e, as travessias de barco, naquela época, nunca foram problema... Depois uma menor distância para a Cidade Invicta fazia a diferença, e, aquela gente, tão ligada ao rio, tinha ainda a dupla vantagem com esta proximidade por terra àquela cidade do litoral nortenho!
Convém aqui relembrar, que, nos anos cinquenta, se trabalhava de segunda a sábado e que mais de noventa por cento das pessoas desta vasta zona do Douro se movimentava a pé, não só para o local de trabalho, mas também para as outras tarefas necessárias, como ir ao médico, à farmácia, à igreja,à feira, às compras na Cooperativa, etc.; curiosamente, passar duma margem do Douro para a outra, era na época, coisa fácil e até rotineira, bastava que houvesse motivo, devido às várias travessias em actividade em todas as localidades e onde o barqueiro de serviço podia muito bem ser uma mulher, e, isto, era válido para o dia, como para o início da noite!... No inverno e com as grandes cheias do Douro as coisas "mudavam de figura", e, aí, só quem tivesse necessidade continuava a fazê-lo, porque os barqueiros eram experimentados e nas suas mãos os pequenos Valboeiros tornavam-se leves e rápidos, ou era essa a sensação que ficava nas nossas mentes e depois não se podia faltar ao trabalho, ou ao que quer que fosse...
Todo este labor, levava forçosamente a que as pessoas se encontrassem diariamente na Carbonífera e duma forma regular na igreja, nas capelas e nas procissões, nos funerais, nas tabernas, nos bailaricos, na pesca, na feira, na cooperativa de consumo, nas festas, no futebol, nos rios e seus areais, nos campos e nos montes, no hospital das minas em Oliveira do Arda, e, até as bandas de música contribuiam com o seu despique em arraiais populares, para um novo tipo de encontro, capaz de despertar, por vezes, sentimentos de índole bairrista, mas, todas estas vivências com o decorrer dos anos, ajudavam a criar laços de profunda amizade entre as gentes de todo o Couto Mineiro e que ainda se vão mantendo bem vivas, não sendo raros os casos, em que outras amizades deram mesmo em casamento entre jovens de ambas as margens, e, tudo isto acontecia com muita frequência e jamais a separação natural provocada pelo rio Douro serviu de impedimento a grandes amores, quando tiveram que acontecer!...

FIM DA 2ª REMADA ( continua ))mmmmMm