sábado, 19 de março de 2011

"AH, MEU LUÍS DA CARVALHEIRA!..."

Quando tinha os meus seis, sete anos e morava em Rio Mau, fixei uma das figuras mais típicas do pequeno lugar! Lembro-me que os adultos lhe chamavam Luís da Carvalheira, morava numa casinha humilde ali próximo da Pia da Casca com uma senhora mais idosa e que seria a sua mãe!... Era um local de passagem quase obrigatória, porque dava acesso à velha Capela e respectivo cemitério, e, o Outeiro, onde ficava a casa dos meus pais, era ali bem perto...
Sabíamos, que este homem simples e que aparentava ter mais de quarenta anos, era operário em Germunde e o seu modo de vestir, ao primeiro impacto, dava a perceber que teria as maiores dificuldades de sobrevivência, se tivéssemos em conta a forma andrajosa de toda a sua roupa!... Era um homem cordato, nunca lhe conheci qualquer desacato, mas, ficava-se com a ideia, que seria a pessoa mais pobrezinha de toda a aldeia, se fosse tido em conta a quantidade de remendos nas calças e no casaco que fazia questão em ostentar durante todos os dias do ano!... Tive ocasião de "espreitar" e ver que os remendos sobre remendos eram obra sua, de resto, era impossível, a quem quer que fosse, fazer pior trabalho!... Andei todo este tempo convencido, que toda a lide da casa passava por este homem, o que me leva a pensar, que a sua mãe teria problemas sérios, mas em rigor nunca poderei afirmá-lo... A forma de vestir era única em toda a aldeia, e, por ser tão bizarra, até aos miúdos da minha idade não passava despercebido, mas honra lhe seja feita, porque o nosso Luís da Carvalheira nunca deu mostras de quaisquer complexos de inferioridade, cumprimentava e falava com toda a gente, embora se soubesse que uma boa parte dos adultos, em especial as mulheres da nossa aldeia fizessem questão de pegar no seu mau aspecto exterior, como contraponto para casos tão diversos e que nem sequer tinham semelhança! Sobretudo as mães, sempre que "ralhavam" com os filhos, era certo e sabido que iam rebuscar a frase já crónica:
«- Ah, meu Luís da Carvalheira!...»
Na década de cinquenta, um pouco mais crescido e já a morar em Pedorido, na outra margem do Douro, continuei a ter a oportunidade de ver o Luís da Carvalheira a caminho de Germunde, ou seguindo em direcção oposta a caminho de Rio Mau e da sua casinha, agora com mais idade, mas rigorosamente fiel à sua roupa remendada e que ainda parecia ser a mesma dos anos quarenta da minha infância...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

AINDA SOBRE OS DESASTRES DE BHOPAL E CHERNOBIL! (2ª Parte)

Temos vindo a alertar para os desastres ambientais em Bhopal e em Chernobil na década de oitenta provocados pela irresponsabilidade humanas!... Na altura foi muito comentado, lembro-me, mas com o passar dos anos foi esbatendo e já nem se fala, nem se comenta... Faz parte da nossa cultura, é a nossa maneira de estar e depois fica lá longe, não nos tocou pela porta e não damos ao caso a importância que deverá ter! As consequências, essas ainda irão sobrar por muitos e muitos anos até que o equilíbrio volte ao planeta nas áreas afectadas, mas os humanos têm de ser avisados que muito de positivo há ainda a fazer e que se fez ainda muito pouco, sob pena de que novos e graves desastres dali possam advir, porque em Chernobil, por exemplo, colocaram à pressa uma campânula que isolou por algum tempo todo aquele descontrole radioactivo, impedindo que continuasse a soltar-se para o exterior... Só que os materiais utilizados ao fim de vinte, trinta anos irão ceder ao desgaste e as fugas darão lugar à libertação de novas e perigosíssimas quantidades de radioactividade que irão não só afectar toda a região envolvente, mas também seguir para outros pontos do planeta e que poderão até nem ser os mesmos de 1986!... É preciso dar a saber que vai ser preciso um milhar de anos ou muito próximo disso, para que os níveis radioactivos baixem para valores compatíveis e há que investir naquele local a melhor tecnologia e os melhores materiais porque as improvisações e o "deixa andar" dão sempre em surpresas desagradáveis.
Em Bhopal o cenário é diferente mas não é melhor... Discute-se mais e até já se fizeram manifestações, porque é bem mais fácil acusar nos tribunais e na via pública a multinacional americana Union Carbide e o seu dirigente máximo, mas, o que já não é aceitável, é que toda a área da extinta fábrica continue contaminada há mais de vinte anos! Várias organizações e moradores da região exigem a limpeza do local e afirmam que dentro da fábrica há uma grande quantidade de produtos químicos acumulados e sem protecção, que atingem o solo e contaminam as águas.
Recentemente a BBC publicou uma pesquisa que indicava que a água em Bhopal tem um nível de contaminação 500 vezes mais alto que o limite estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Não é necessária uma grande inteligência para perceber que milhares de indianos pobres na região de Bhopal estarão a ingerir esta água imprópria para consumo e que conterá um variado leque de substâncias perigosas não só para a saúde pública, mas que afectará toda a biodiversidade naquela região do centro da India.
Já passaram mais de vinte e cinco anos sobre estas duas tragédias e pelo que sabemos pouco de seguro foi levado adiante. Uma vida de trabalho e alguma experiência na indústria química, ensinou-me, que nestas questões não pode haver remendos nem falsas soluções, porque pode sair muito caro e o pormenor de que é muito longe e não nos toca, além de ser uma atitude egoísta é também irresponsável e perigosa! O ditado popular "do longe se faz perto...", tem aqui total cabimento, porque as variações das correntes atmosféricas levam a contaminação das nuvens radioactivas para zonas bem afastadas do local de origem, que no caso presente foi Chernobil.
Deu para entender?! É que está tudo em aberto!... (CONTINUA)


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Relembrar os Desastres de Bhopal e Chernobil! (1ª Parte)


Quando pensamos nas questões ambientais, dois dos maiores acidentes ou desastres acodem de imediato à nossa memória: Bhopal na India e Chernobil na Ucrânia.
Curiosamente estávamos em meados da década de oitenta e ligado a uma empresa química norte americana, e, talvez por isso, seria a partir dali que me comecei a interessar mais pelo que se passava por cá e também lá por fora...
Pareceu-me, que a partir de Bhopal em 1984, começou a haver outras preocupações e cuidados na indústria química e não seria caso para menos, porque embora não haja dados estatísticos rigorosos, crê-se, que, devido à libertação de cerca de 40 toneladas de gás tóxico, aproximadamente 2 mil e 500 pessoas morreram nos instantes seguintes ao acidente e mais 8 mil morreram nos três primeiros dias após a explosão. Actualmente, pelo menos morre uma pessoa por dia devido a doenças relacionadas com a exposição às substâncias tóxicas e cerca de 150 mil possuem doenças crónicas e necessitam de assistência médica.
A fábrica química da Union Carbide em Bhopal permanece abandonada desde a explosão tóxica, mas os resíduos perigosos e materiais contaminados ainda estão espalhados pela área, contaminando o solo e as águas subterrâneas, dentro e no perímetro da sua antiga fábrica.
Tinham passado mais de dois anos e desta vez tinha lugar em Chernobil na Ucrânia o pior desastre nuclear de que há memória! O acidente produziu uma nuvem radioactiva que atingiu toda a URSS, Europa Oriental, Reino Unido e Escandinávia. Grandes áreas foram contaminadas principalmente na Ucrânia e na Bielorrússia, tendo levado à evacuação de cerca de 200 mil pessoas. A radioactividade espalhou-se por aqueles países, devido às condições atmosféricas, sempre variáveis, acabando por afectar a vida de regiões a milhares de quilómetros de distância.
Também aqui é extremamente difícil informar a quantidade exacta de pessoas que morreram devido ao acidente, mas em 2005 a ONU divulgou um relatório que atribuiu 56 mortes e uma estimativa de cerca de 4 mil pessoas, que, possivelmente, morreriam no futuro por doenças relacionadas com os malefícios das elevadas doses de radioactividade.
Por último, aparecem destacados nos inquéritos alguns dados que teriam estado na origem do acidente e que nos fazem arrepiar, como a pouca instrução dada aos operadores, defeitos nos reactores, a falta de comunicação correcta entre os escritórios de segurança e os operadores, além de terem desligado os aparelhos de segurança dos reactores, atitude expressamente proibida.
Finalmente, há cerca de dez anos, após várias negociações internacionais com o governo da Ucrânia, conseguiu-se desactivar esta ultrapassada central nuclear cujos malefícios estão longe de ser avaliados.
Se foi péssimo e desagradável o que aqui acabamos por descrever, que possa contribuir para que repetições destas não voltem a suceder, porque a vida na Terra dispensa bem cenas e atitudes irresponsáveis de gente, que, terá de perceber, que é possível ter lucros sem ter que pôr em causa os equilíbrios ambientais, que, naturalmente, já existiam e que devem continuar!

(CONTINUA)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

QUANDO OS AVISOS "CAIEM EM SACO ROTO"...


Se guardo recordações ou memórias, fico a pensar que aos outros acontecerá coisa idêntica, e, acontecerá, com certeza, que as boas e más recordações ficaram a morar no mesmo patamar de um cérebro que se limita a fazer unicamente o que lhe compete, sendo certo que nos dá muito mais prazer relembrar aquilo em que nos saímos melhor, preferindo até, que as piores recordações nem existissem, ou, na pior das hipóteses, fossem ocupar uma zona mais cinzenta do nosso cérebro, uma espécie de penumbra, já mal iluminada, onde o esquecimento viesse a acontecer num prazo que fosse curto como convinha.
Todavia, já achamos muito reconfortante, visionar em pensamento os momentos que identificamos como os mais bem conseguidos, porque achamos que nos deram as maiores alegrias, e, esses factos saborosos, servem de estímulo para que continuemos a sonhar com futuros momentos, se possível, iguais, numa espécie de repetição, que a acontecer já não teria os mesmos cenários de outrora...
Entretanto, uns mais que outros, terão conseguido lidar com as boas lições, que a vida foi ou vai proporcionando, onde as escolhas vão ter de ser feitas depois de o raciocínio e a serenidade actuarem como conselheiros.
Ao longo das nossas vidas lidamos com gente sábia, que nos ajudou, sem saber, naturalmente, que o estariam a fazer e a quem ficamos agradecido. Assistimos também a bons exemplos dirigidos directamente a terceiros de que fomos testemunha, mas, que, infelizmente, acabariam por "cair em saco roto"... De entre esses queria destacar aquele que acabou por me chocar e que não resisto a contar:
-« Há seguramente vinte anos, encontrei-me por casualidade a almoçar na mesma mesa de um restaurante com outros dois profissionais que laboravam na mesma companhia e foi por essa razão que nos viríamos a encontrar naquele local e àquela hora... Falou-se de várias coisas, como sempre acontece em situações semelhantes, mas em determinado momento o homem de mais idade, aproveita a ocasião para relembrar ao mais jovem que tivesse mais cuidado, porque vinha a observar - há já algum tempo - que a forma como se comportava no comando da sua pesada moto, era de molde a prever que iria acabar por se matar!... A seguir, deu-se ao cuidado de explicar e contou até que tomara parte em corridas de motas de grande cilindrada em várias cidades de Angola durante a sua juventude, e, que, a experiência aí adquirida, levavam-no a prever a tal fatalidade, se, entretanto, não viesse a mudar de comportamento... O jovem lá se justificou e deu mostras de não aceitar o palpite ditado pela experiência e foi buscar até alguns argumentos, que fariam dele um condutor à altura das velocidades e dos zig-zagues com que brindava quem observava tais habilidades! Passaram- se umas duas semanas, o tempo suficiente para que a notícia chegasse até nós, dando conta de que o jovem havia tido morte imediata num despiste a cerca de cem metros da casa onde morava na Granja, ali próximo de Espinho...»
Avisos deste e de outro teor são o pão nosso de cada dia, mas alguma experiência, vai-nos alertando, de que há fases na vida dos humanos em que os conselhos raramente são aceites, por teimosia, dizem alguns, enquanto outros culpam a imaturidade e a irresponsabilidade!... E será só isso?!...

domingo, 16 de janeiro de 2011

CADA UM É PR'Ó QUE NASCE?!...

Ainda não entendi lá muito bem até onde podemos ir com este provérbio popular e que pensamos será já muito antigo! Pensamos, que poderá mesmo ter várias interpretações, muito embora aquela com quem convivemos melhor e a que queremos dar crédito tem a ver com uma postura digna em todos os momentos da vida, não pretendendo nunca passar os limites da decência, nem para ir atrás daquele, com quem fizemos a primária e que pelos vistos veio anos depois a dar nas vistas no mundo dos negócios, pondo assim, talvez, em cheque o tal provérbio, dado que nunca nos passara pela cabeça, que, se, tornaria, poucos anos volvidos, numa figura com jeito para essas andanças e lembro-me até, na quarta classe, que era um dos que tinha muitas dificuldades em construir as frases e então nos verbos irregulares emperrava como nenhum outro!... Nesses tempos, já um pouco longínquos, fiquei com a ideia de que aquele miúdo iria ter muitas dificuldades para singrar em qualquer profissão no mercado de trabalho, mas passados todos estes anos, e, pelo que vou ouvindo, lá na aldeia, fizera mesmo vida no que toca às questões financeiras, muito embora as pessoas não saibam desenvolver como tudo terá acontecido e nem falam - nem pensarão nisso... - se o êxito de que falam também acontece na sua vida familiar e no seu relacionamento com a sociedade... Queremos acreditar que sim!
Um outro nosso parceiro da escola primária, um tudo mais nervoso, tivera sempre uma prestação mais regular em qualquer das disciplinas e não tivemos uma tão grande surpresa quando ficamos a saber que se lançara em projectos na construção civil, creio que no Uruguai, para onde abalara com os pais e onde viria a ter algum sucesso, mas nos últimos tempos, parece que a roda terá desandado e mudou-se para o vizinho Brasil, com a esperança de recuperar e o Brasil era ali mesmo ao lado...
Ficou-nos, porém, na retina um outro miúdo, que, como os demais, era filho de gente humilde e laboriosa, porque nada cai do céu e o número de filhos não lhes permitia outro modo de vida! Sempre admirei aquele nosso colega, porque era um aluno soberbo em todas as disciplinas, muito certinho e fiquei sem saber se estudaria em casa, coisa que na aldeia não era hábito neste início dos anos cinquenta... A sua leitura era fluente e ritmada pela pontuação que aprendera a respeitar, coisa que alguns procuravam imitar, sem o conseguir, e, ainda hoje, cremos acreditar, que aquele rapazinho deveria ter hábitos de leitura fora da escola, que, agora, sabe-se ser a base para um bom desempenho académico. Do que nos recordamos, lembro-me que a professora, uma profissional pontual e muito exigente, mas muito parca nos elogios, lá ia reconhecendo, de vez em quando, o mérito de quem o tinha e mostrava satisfação no aproveitamento dos alunos que se destacavam, e, não demorou muito tempo, que viéssemos a compreender como era correcta a postura daquela profissional do ensino! Lá está, incompreensivelmente, aquele miúdo, brilhante aluno com dez anos de idade viria a ter um fim trágico, anos mais tarde, na guerra colonial, pagando com a vida as vicissitudes de um conflito, que, julgamos, nem conheceria bem, porque na época, com os demais, sucederia o mesmo e há sempre alguém a beneficiar da ignorância dos humildes...
Desde a primária que fiquei "marcado" pelos bons exemplos daquela professora e daquele meu colega e os livros e outras leituras, passaram a ser a minha principal fonte,onde passei a ir buscar uma boa parte do que precisei durante a minha actividade profissional e também para a minha formação como cidadão, que, como todos sabemos, só irá terminar no fim das nossas vidas.
Será que nos devemos conformar e resignar, encolhendo os ombros, ao bom estilo,"maria vai com as outras...", aceitando o que à partida, alguém, ou a própria sociedade terão "engendrado" para nós?!
Não teremos o direito de saber crescer inconformados, se isso for necessário, sendo exigentes com nós próprios e também com os outros, sem abdicar dos princípios e da ética, para que possamos dizer lá mais para o final e com todo o propósito:-« Obrigado àqueles dois seres, infelizmente já desaparecidos, porque para nosso bem e logo no início da nossa longa e difícil caminhada, nos indicaram para a única maneira de estar numa sociedade, em que o servir e ser servido sempre estiveram na ordem do dia!?...»

Nota: Este é um outro dos meus trabalhos em acrílico, um pescador algures na Europa!...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

HÁ NASCER, VIVER E MORRER!...

Já sabia que era uma questão de dias!... O desenlace aconteceu ontem, precisamente a quatro de Janeiro, mas de 2011... A última rosa que era vermelha resistiu e muito, pareceu-me que estava decidida a viver quanto mais melhor, porque, talvez soubesse, que também era essa a nossa vontade! Mesmo nos dias chuvosos e frios, nunca deixei de me aproximar daquela que seria a última rosa do jardim e até tinha o cuidado de regar a roseira num ou outro dia mais solarengo, embora, devido ao Inverno que já começou e se faz sentir por todo o lado, nem seria necessário associar mais humidade a quem tão bem resistiu aos dias quentes do Verão e do Outono!
Foi um desaparecimento lento e que foi deixando marcas que anunciavam o pior! A cor começara por perder aquele brilho intenso e aos poucos dava mostras de que se iniciara como que um processo degenerativo! Ao mesmo tempo que perdia o brilho, percebia-se que a sua forma se alterava e deixava a forma homogénea, que encanta os nossos olhos e que não nos deixa indiferentes. O pior viria depois, quando as primeiras pétalas não resistindo ao processo degenerativo acabaram por se soltar e ao tentar pôr-lhe a mão como que a tentar evitar o inevitável, mais duas pétalas se soltaram e aí percebi que o processo era irreversível...
Custa-nos imenso as perdas de coisas a que nos afeiçoamos, porque sentimos que somos atingidos na nossa sensibilidade, mas que não há cura nem remédio para que o ciclo da vida seja diferente e daí a nossa resignação, que, se for acompanhada pela compreensão possível e desejável nos tornará seres de muito melhor qualidade e todo o Universo agradece e rejubila!
Desta vez pegamos num pequeno e insignificante exemplo, como este de uma rosa vermelha que nasceu em fins de um Outono algo estranho e que de botão resistiu mais que o habitual até se abrir como que em esforço já Dezembro ia a meio, mas os exemplos sobre os diferentes ciclos de vida são tantos e variados, que, da mesma forma que por nós são vividos, com igual ligeireza são arrumados e até esquecidos, e, se não fora assim, nem o nosso cérebro seria capaz de atingir alguns dos fins para que fora criado, e, aqui, parece-nos, que os conceitos e as sensibilidades diferem muito e tanto assim é que as divergências entre os humanos existem numa proporção que muitos consideram avassaladora, mas que poderá nem sê-lo!...
Reparemos nestes pequenos e elucidativos exemplos que vão acontecendo em simultâneo, neste nosso pequeno planeta:- «Enquanto um ser humano assiste algo incomodado ao fim de vida de uma flor que até deixara de ser bela ou formosa, na mesma latitude, mas um pouco afastado para Ocidente ou Oriente, num moderno e sofisticado laboratório, alguns outros humanos devidamente "protegidos" procuram encontrar a fórmula ou fórmulas para "chegar" à tal arma poderosa, que fará com que o resto da Humanidade se encolha e aceite uma superioridade bélica que irá ter as diversas consequências que todos estaremos a imaginar, como a desigualdade extrema que todos dizem querer reduzir e até eliminar...
Entretanto, bem mais perto de nós, algures neste continente num outro laboratório, também sofisticado, um outro grupo de homens e mulheres, devidamente equipados, como convém, procuram com afinco e determinação encontrar os caminhos que os possa conduzir com sucesso à cura de doenças terríveis como a sida, alhzeimer e diverso tipo de cancro...
Por paradoxal que possa parecer, bem mais perto de nós, algures em Portugal, um grupo de indivíduos, onde prevemos nem estará uma mulher sequer, em gabinetes fechados e providos de ar condicionado, tendo à disposição máquinas sofisticadas de cálculo, nem sempre utilizadas no passado, ou então mal utilizadas, procuram fazer as últimas contas para resolver ou enganar um passivo que deixaram descontrolar, em parte em proveito próprio, pelo menos à desconfiança já não fogem...»
O meu velho amigo, já desaparecido, nascido ali para as bandas de Famalicão, ia-me dizendo em meados dos anos setenta, com a sabedoria adquirida ao longo de uma vida difícil e trabalhosa:- « ... Cada um é p'ró que nasce!...»

Nota final: Decidi, não sei se bem, mostrar aos meus amigos, um pequeno trabalho feito em acrílico e que pretende ser uma justa homenagem aos homens do mar (Furadouro)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A ÚLTIMA ROSA!


Desde o mês de Outubro que andava intrigado com o que via no meu jardim!... A curiosidade nasceu por me ter apercebido de que as roseiras estavam a resistir bem nos meados do Outono, aliás, como é habitual, mas uma novidade aparecia pela primeira vez! Os botões sucediam uns a seguir aos outros e não davam sinais de parar e assim continuou por Dezembro dentro e o facto aguçou a minha curiosidade e procurei saber se o insólito estaria a suceder nos demais jardins desta vasta zona do litoral nortenho! Foi então que me apercebi, que em todos os jardins o "fenómeno" era do mesmo teor e veio-me à lembrança muito do que tem sido dito e comentado por cientistas, que, vão avisando, haver sinais claros de que no nosso planeta estarão a dar-se alguns acontecimentos - e citam o degelo das calotes polares - que irão provocar alterações significativas nos climas que conhecíamos como estáveis e que nem sequer sonhávamos que até poderiam eventualmente mudar nas quatro estações definidas há largas décadas...
Naturalmente, que a quase generalidade das pessoas gostam do que é belo e as flores estão no rol do que de mais bonito acontece nos jardins e fora deles, porque é comum ver nos campos e até nos montes de baixa altitude, sobretudo junto às margens de rios e ribeiros uma variedade de plantas e arbustos autóctones, que, na altura de florir, transmitem cores alegres, algumas bem berrantes, que vão do vermelho ao amarelo mais torrado, passando por tons de rosa mais claro e por diversos tons de azul, bem bonitos por sinal, embora o branco apareça em tudo quanto é lugar, mas sem dar tanto nas vistas... Diz quem sabe, que esta Natureza das plantas e das flores, não se veio instalar por cá para satisfação do Homem, mas que o fez muito antes para ir ao encontro das necessidades das aves e dos insectos, e, porque teria também interesse, nos serviços que estes lhes poderiam prestar!... Se for o caso, nada a dizer e que se entendam como sempre fizeram, aliás, fazem-no e bem, há milhões de anos...
Como chegámos ao planeta muito recentemente podemos desde logo inebriar-nos com tanta cor à solta, ao perto e ao longe, desfrutar dos sabores e dos cheiros e só não aproveitamos de mais benefícios por falta de conhecimentos duma flora, que não sabe comunicar connosco e que será o grande obstáculo para que se fizesse mais cedo luz e com proveitos para ambos os lados, e, possivelmente, com mais vantagens para o lado dos humanos.
Os nossos amigos dos blogues pouco dizem sobre estes temas comportamentais da flora e só o Virgílio "vibra" a sério com as coisas do ambiente e as fotos confirmam-no! Será dos mais ecléticos pela variedade de temas, e, até o vimos preocupado, com os restauros do interior das capelas e dos altares! Digno esforço deste homem que já foi marinheiro e que em terra também gosta de cumprir e "chateia-se", porque outros não cumprem!...
O Carlos e o Valdemar Ferreira têm médias muito altas de produtividade, verdade seja dita, mas os temas sobre a nossa sociedade ocupam-nos permanentemente e não é possível chegar a todo o lado! Melhor é quase impossível...
O Eduardo Nunes que muito nos teria a contar do Alentejo, além das anedotas, claro, porque já só vive as "boas memórias" por ter deixado um pouco cedo aquelas terras a que alguém chamara "o celeiro de Portugal", mas que se ficaram pelas intenções, infelizmente ainda sem cumprir...
Do Agostinho Verde apreciamos os poemas e o jeito para a sátira bem construída de raiz e que "não dá ponto sem nó" ao não deixar o objectivo por definir ou dúbio... Temos imensa pena de não podermos contar mais com a sua escrita, mas haverá razões e só teremos que as aceitar.
Se somos ou éramos um país de marinheiros teremos de os ter espalhados pelos cantos todos da Terra, não para segurar o Império, mas para cumprir com a missão que os novos tempos exigiram deles! É assim com o Artur Leiria e com o Valdemar Alves, bem distanciados um do outro, mas com a genica dos antigos marinheiros, que, nota-se e bem, pelo que vamos lendo!...O Artur Leiria porque gosta de comunicar, arranja ainda algum tempo livre e sente-se que não tem espartilhos e essa faceta coloca-o à vontade para introduzir temas e pontos de vista diversos das sociedades por este mundo além e a isto é usual apelidar de diversidade e de plural... Já o Valdemar fica-se mais pelos comentários, porque não terá todo o tempo do mundo, mas diz muito em pouco espaço e é fácil perceber que temos ali um homem com uma real história de vida para nos contar que deixaria alguns de nós um tanto pasmados e quase incrédulos!...
Bem, mas o que me trouxe até vós, se estais lembrados, foi a "última rosa" que lá continua no meu jardim, agora um pouco mais aberta e virada ao nascente, como que a ensinar, quem ainda não sabe, que é dali, daquela banda, que chega a luz e o calor, a fonte que está na origem da vida de tudo o que nasce neste planeta e a roseira-mãe sente, que a sua última flor irá perder-se muito em breve, mas traz dentro de si a esperança de que lá para Maio próximo o ciclo irá repetir-se e os botões de rosa, sempre vermelhos, surgirão sequencialmente, e, já agora, ficamos curiosos e à espera que no final de Dezembro do próximo ano, tenhamos no jardim não uma rosa, mas duas lindas rosas vermelhas!...

Nota: Se fosse possível enviava aos meus sinceros amigos a última rosa do meu jardim!...

sábado, 20 de novembro de 2010

Inseguro, mas Porquê?!...

Foi já há vários dias que tivemos a oportunidade, não muito rara, de ouvir um homem do interior duriense e que me pareceu ocupar lugar de alguma responsabilidade, trazer à baila, ou ao conhecimento da Nação, a sua inquietação quanto ao futuro de toda a zona do Alto Douro, mais conhecida por Douro vinhateiro, e, que, muito justamente, foi considerada como património mundial! Dizia o sujeito, no fundamental, que todo aquela riqueza das vinhas em socalco, corriam sério risco de desaparecer, e, se, mais tempo de antena tivesse, ainda íamos ter pena do homem, tal a lamechice continuada, como se andássemos a "ver passar os comboios"!...
Logo à partida e para começar não percebemos qual a finalidade de tais lamentações, porque temos até grande dificuldade em perceber todo aquele quadro negro que pretendeu passar para todo o país... E não é para alimentar polémicas, que, geralmente, não passam disso e não têm resultados práticos para as pessoas e para as regiões!
O que não dá para perceber é onde estão os grandes futuros males de uma das regiões do interior com mais sucesso, onde se investe há centenas de anos, como é do conhecimento geral nas vinhas e vinhos de altíssima qualidade, onde os ingleses, portugueses e outros se instalaram e continuam sem queixumes, porque foram bem sucedidos, naturalmente... Achamos muito estranho, tais lamentos em relação ao futuro, quando com o mundo global que aí está, até os chineses e outros povos poderão ser futuros clientes de uma bebida, que, se mantiver a qualidade, não correrá riscos...
Já para não falar no turismo, que continuará a "vender" e ninguém desconhecerá que a navegabilidade do rio Douro foi um novo maná para o Alto Douro! Surpreendeu-nos o facto do cavalheiro nem sequer ter falado nesta nova realidade, e, já agora, que "estamos com a mão na massa", é justo que se diga, aqui e agora, que as gentes do Baixo Douro, que em nada terão beneficiado com a navegabilidade do rio, nem um queixume lhes temos ouvido nas televisões, nos jornais ou na rádio, sabendo nós, que do lado de quem beneficiou, não há a coragem de querer ver, por egoísmo exacerbado e ridículo, que toda aquela zona deveria ter acesso a contra-partidas, mas, infelizmente, mesmo num país livre e democrático, é muito raro valorizar quem é digno, leal e correcto!
Entendemos que é o momento certo para recordar, aqui e agora, que no seio deste povo, há quem queira continuar a olhar grande parte dos dias - quase não dormem - para o seu umbigo, mesmo depois de terem sido contemplados com ajudas estatais, julgando-se uns senhores da República, que têm de ser acarinhados, mas é preciso relembrar esta gente com alguma rudeza, se necessário, que terá chegado a hora de retribuir a favor de um país, que acabou cansado de dar tanto e sempre em favor de quem nem isso reconhece!... Haja sentido pátrio, ou será preciso legislar sobre tão evidente matéria?!

Etiquetas: Alto Douro, vinho do Porto, turismo, rio Douro, socalcos de vinhas, património mundial, gentes ribeirinhas, Baixo Douro.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Surpresa, ou talvez não!...

Percebe-se, ou melhor, sente-se um rebuliço enorme no mundo financeiro e a agitação vai de um extremo ao outro do planeta, e, parece, que, já não haverá grandes dúvidas das grandes alterações nas maiores economias mundiais, e, fala-se até, numa troca de lugares para os próximos tempos entre a poderosa América e a China, quando, até se sabe, que este colosso do Oriente detém uma boa parte da dívida externa americana... É já um bom começo, para os dirigentes chineses, claro!
Entretanto, as últimas novas vêm lá dos confins do planeta e queremos acreditar que terão deixado muito boa gente de "cara à banda", porque não esperariam que Timor Leste, pela voz do seu presidente, seja mais um dos candidatos a comprar parte da dívida ao estado português!... Então, este não é aquele pequeno país que há tão pouco tempo teve graves problemas após a descolonização, devido à ocupação indonésia e à divisão interna que se gerou com a criação dos vários partidos políticos a favor da integração na vizinha Indonésia, enquanto a Fretilin mantinha o seu grito de "indepedência ou morte"?!... Este, não é aquele pequeno país, despido de quaisquer estruturas, que só sobrevive com as ajudas externas da ONU, do antigo país colonizador que foi Portugal e de outros países desenvolvidos?! Nem nos compete "meter foice em seara alheia", quem somos nós para o fazer, mas como somos português e não temos a memória curta, ainda trazemos bem presente, como se vivia nas aldeias, ali, junto das margens do Douro no final dos anos quarenta e décadas que se lhe seguiram!... Aquilo era como que uma espécie de "fado triste" e repetido até à exaustão, sem queixume, aparentemente, e sem protestos, daquelas boas gentes a quem o analfabetismo tolhera o descernimento, tornando a vidinha fácil a quem lá longe na capital do Império manobrava a bel-prazer, ano após ano, e, por via disso, apetece-nos "trazer à baila" o velho ditado popular, quase gasto e meio esquecido e que "rezava" assim:- «Os meus burrinhos é que me fazem doutor!...»
Esta "cena", como diz a "malta" deste novo tempo, durou tempos infinitos e pagou-se uma factura quase impossível de contabilizar, uma vez que várias gerações trabalharam toda uma vida com direitos mínimos e insuficientes e a troco de miseráveis salários! Este ciclo era repetitivo, e, no entanto, "falava-se à boca pequena", que os cofres do Estado estavam cheios de dinheiro e de barras de ouro, mas que nunca se abriram, nem por uma vez, a favor de um povo que merecia "sair da cepa torta" e rumar a uma vida mais digna, mais humanizada!...
Será que a História irá repetir-se, agora, lá longe, naquele pequeno país "encravado" entre as ilhas Indonésias e a grande Austrália e que dá pelo nome de Timor-Leste e que traduzido para a língua maubere dá Timor Lorosae?!...
Pela parte que nos toca, desejamos ao povo maubere um futuro digno desse nome, mas não há "fogo sem fumo", e, se às notícias, que já vieram a público, juntarmos algumas das nossas más experiências de tempos mais antigos, teríamos como resultado um "caldinho" bem difícil de tragar para os timorenses!...

Etiquetas: Timor Loro Sae, economia mundial, descolonização, ONU, Austrália, Indonésia, povo maubere, petróleo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O NOSSO RECONHECIMENTO!

Achamos muito curioso, termos acordado hoje com o pensamento num facto já passado há alguns anos, que não mais esqueceremos e que nos deixou pensativo para o resto da vida e queremos acreditar que naquele dia nem fomos capaz de perceber o alcance do que nos estaria a acontecer... Mas passemos à história:
« Entre 1998 e 2006 o nosso desempenho profissional repartiu-se um pouco por este país industrial e viemos a conhecer uma boa parte das zonas industriais, onde pontificam médias e sobretudo pequenas empresas do sector metalúrgico. Isto, equivale a dizer, que contactamos com muitas pessoas do mundo do trabalho e estamos a englobar trabalhadores, quadros intermédios e também patrões, com quem mantivemos relacionamento de âmbito profissional e que nos ajudaram a compreender, um pouco melhor, as realidades deste nosso país no sector industrial privado!
Decorria o ano de 2002 e fomos solicitado para executar uma tarefa numa zona industrial próxima do tão falado IC 19, e, enquanto reparávamos umas deficiências no sistema automático de uma máquina de corte, pudemos estabelecer um relacionamento profissional com um jovem engenheiro, que se encontrava nessa mesma empresa com idêntico motivo ao nosso, ou seja, apoiar os seus clientes no sector das vendas e dando ainda apoio técnico... Ficamos a saber, que este jovem engenheiro tinha muitos clientes em toda as zonas industriais da grande Lisboa e na margem sul do Tejo até à península de Setúbal!
Decorrido um ano ou pouco mais deste nosso primeiro encontro profissional, fomos destacado para montar uma máquina automática numa zona industrial próximo de Palmela e dispúnhamos de uns três dias para executar a tarefa, sabendo que ia ser um trabalho cansativo só para um profissional, porque se tratava de uma máquina de três módulos e com cerca de 22 metros... Ao 3º dia, uma sexta-feira e já com tudo devidamente alinhado e fixo ao piso do pavilhão, só faltava a parte final e que passava por programar todo o sistema e passar esses conhecimentos a um profissional dessa empresa, como "rezava" no contrato... Sucedeu, que estávamos arrasado física e intelectualmente e por volta das quatro horas dessa sexta-feira, já nem conseguíamos programar o sistema de medida automático e corríamos o risco de ter de continuar no dia seguinte, que era um sábado, e, esse atraso, iria complicar parte dos nossos planos de trabalho para a semana seguinte.
Aproximava-se as cinco horas da tarde e estávamos tão absorvido com a nossa última tarefa, quando somos surpreendido com a chegada do tal jovem engenheiro, que, por casualidade, estava de passagem e que logo se abeirou para nos cumprimentar ao mesmo tempo que observava a maquinaria já montada, e, é aqui, que lhe damos a saber do esforço e desgaste que estávamos a ter na parte final do nosso trabalho... Ao perceber o nosso estado de espírito, aquele jovem engenheiro tomou em mãos o pequeno manual e em cerca de quinze minutos, terminou aquilo que nós já não conseguiríamos fazer!... Ficou ainda ao nosso lado a assistir ao arranque da máquina e despediu-se todo sorridente, enquanto dávamos as últimas explicações e entregávamos o equipamento!...
Ainda voltamos mais vezes a empresas nossas clientes nas diversas zonas industriais da grande Lisboa, mas nunca mais nos encontramos! Viemos a saber, que abraçara um novo projecto para que fora convidado e ainda nos recordamos que estaria casado com uma moça holandesa e que trabalharia na embaixada da Holanda em Lisboa...
Ficamos com a certeza, isso sim, de que este jovem engenheiro português, que terá agora cerca de quarenta anos, ou um pouco mais, estará a ter o sucesso profissional que merece, e, não nos larga uma vontade enorme de poder ainda agora repetir-lhe, que temos bem gravado o gesto solidário que teve para connosco e quanto ficamos reconhecido pela sua ajuda. Bem haja!

Etiquetas: automatismos, sector metalúrgico, IC 19, Palmela, engenharia, solidariedade, reconhecimento, Lisboa, Setúbal, embaixadas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ser ou Parecer!

Mal a 2ª Guerra Mundial terminou repararam-se os muitos estragos daí derivados ao mesmo tempo que era incentivado um desenvolvimento sem precedentes nos diversos campos científicos, que não mais pararia, aproveitando os conhecimentos já adquiridos, sabendo-se que em tempos de paz as condições seriam as ideais para aperfeiçoamentos e para novas descobertas! Era já evidente, que as nações iriam ficar alinhadas de acordo com os seus interesses e conveniências, como sempre acontecera até então , e, por via disso, investiu-se muito em armas para futuras guerras, ou como "medidas dissuasoras", um termo tão do agrado de alguns estrategas militares...
Entretanto, alguns milhões de pessoas e que pertencem a sociedades mais primitivas, nem se aperceberam de semelhante guerra, nem tão pouco da evolução despoletada pelas ciências após essa mesma guerra e não foram só os índios por toda a Amazónia, mas também outras civilizações primitivas e que vivem em ilhas e continentes isoladas do resto do mundo, e, que, ainda hoje, nem imaginam outros mundos financeiros e cotados em bolsa e que suportam arsenais com armas de destruição maciça.
Felizmente, que neste mundo "mais esclarecido" dos humanos, ainda acontece de tudo um pouco e até vamos encontrar quem se "desvie" para objectivos mais nobres, onde o conhecimento é bem vindo e onde se está bem mais próximo da tão ambicionada felicidade terrena!
É ao redor de todo este contexto, que ainda é possível deparar com pessoas bem formadas academicamente e que decidem "cortar" com o "belíssimo futuro" que os seus abastados progenitores lhes haviam reservado a partir de um berço com cores douradas, não permitindo sequer, que, após a sua formação académica, esses seus queridos familiares continuassem a ser os tutores dos seus sonhos...
É assim, que registamos o exemplo daquela jovem, que decidiu autonomamente enveredar pela pesquisa laboratorial e pela procura, algures no fundo dos oceanos para algumas das boas respostas que a ciência poderá vir a dar a toda a humanidade ainda no século XXI!
Também foi gratificante conhecer a decisão daquele outro jovem com pais super-ricos e que decidiu formar-se numa área que o traz permanentemente em contacto com povos e culturas diversas para depois levar às televisões, às revistas e aos jornais de maior renome, os acontecimentos que fazem dele um verdadeiro cidadão do mundo!...
Fazer este tipo de opções, tendo a noção exacta do elevado escalão da sociedade de que faziam parte, não estará ao alcance de todos os mortais! Sabemos pela experiência, que a esmagadora maioria de nós humanos correria atrás de uma carreira de executivo, onde passaria uma boa parte das vinte e quatro horas de cada dia em reuniões fastidiosas para conseguir o êxito em negócios com muitos números, e, onde vale quase tudo, para ajudar a manter um nome que seja conhecido e reconhecido na praça dos financeiros e de preferência com chorudas contas bancárias em off-shores, porque a "esperteza", já agora, deverá ser levada até às últimas consequências...
Estamos a falar de alguma gente, que nada tem a ver com os bons exemplos que mencionámos lá atrás, e, que, regra geral, vem do mundo das dificuldades e que procura dar nas vistas a qualquer preço e se presta a "aplicar" com "empenho", alguns "truques" até à exaustão... Só que a experiência tem mostrado, que, passados alguns anos, uma boa parte destes deslumbrados "sonharam alto demais" e o descalabro foi fatal, mas não haveria emenda possível, porque continuaram a repudiar as suas boas origens, e, nem aceitam, que se lhes recorde, as primeiras aulas em que tomaram parte depois de se sentarem desconfortavelmente nos bancos da modesta escola lá da aldeia, onde aprenderam as primeiras letras e uma tabuada dita e repetida em voz alta por toda a classe, e, sob o olhar sério e quase intimidatório de um velho professor já cansado e à espera de uma reforma que tardava em chegar!...

-Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!...

Etiquetas: sociedades, sonhos, deslumbramento, fatalismo, aldeias, ciência, progenitores, origens.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Desleixo que nos dá que Pensar!...

Fazemos parte duma sociedade que tem as suas regras a que vamos juntando os nossos princípios, adquiridos ao longo de toda uma vida, mas, que, por vezes, são "mandados às urtigas" só porque não nos convém, ou, porque, simplesmente, resolvemos resvalar para o erro, alegando desculpas esfarrapadas, como aquela, de que se os outros não cumprem, porque teremos nós de o fazer?!... Vai daí, puxamos dos "nossos galões" e sem sequer pensarmos um pouco, desatinamos a tomar atitudes feias, num sinal claro de falta de civismo e de desrespeito para com o ambiente, como se todo o mundo fosse culpado das nossas frustrações como humanos.
Por achar tratar-se de situações anómalas, que mostram claramente o estádio actual de uma franja significativa da nossa sociedade, achei, por bem, trazer ao vosso conhecimento dois episódios em que de alguma forma me vi envolvido e que gostaria de vos dar a saber! Cá vai:
- Um pouco afastado da casa onde moro estão colocados dois contentores do lixo, além dos três bidrões que todos nós conhecemos... Acontece, que tenho por hábito durante o trajecto até aos contentores, aproveitar por "limpar" as zonas envolventes por onde passo, porque não sou capaz de passar indiferente por um maço de cigarros já vazio e que fora arremessado para a berma, ou ignorar uma garrafita de plástico, ou uma lata de sumo, já vazias, sabendo que não perdi tempo algum com o meu gesto, uma vez que teria de efectuar aquele percurso até aos contentores...
Há alguns dias, um indivíduo bem adulto, que estava a observar o "ambiente" e de mãos nos bolsos, ao ver parte do meu "trabalho" reage desta maneira:- «... Não se incomode com isso, ninguém lhe agradece nada, "eles" que limpem, são "eles" que o ganham... Vê-se, que você é de bom tempo...»
Mas as coisas não se ficaram por aqui! Ontem, arrumei o lixo selectivo para os bidrões, mas fui surpreendido com a deslocação destes aparelhos para uma zona mais afastada sem aviso prévio... Naquele local, encontravam-se parados alguns operários da construção civil à espera do transporte depois de mais um dia de trabalho e questionei-os acerca da nova "morada" dos bidrões "desaparecidos"... Disseram-me, que tinham sido levados para o fundo da rua, mas foram peremptórios e unânimes a sugerir para que despejasse ali nos contentores gerais do lixo as garrafas, cartões e plásticos:- « É de bom tempo... Despeje aí e vá à sua vida... Isso é que era bom, ir agora até ao fundo, fazer mais outro caminho... tá bem tá... "eles" não merecem o sacrifício das pessoas... etc,etc,»
Claro, que levei a minha missão até ao fim e não seria por mais oitenta metros que deixaria de o fazer!...
Moral da história:- Nota-se em largos sectores da sociedade portuguesa uma falta de brio, de exigência ética à mistura com alguma raiva e tudo serve como "ajuste de contas", nem que seja deixar poluir as zonas próximas das nossas habitações... É verdade que há problemas sérios por resolver, mas mistura-se tudo e "paga o justo pelo pecador", um ditado popular muito usado pelas boas gentes das margens do Douro.
Com cabeças tão confusas e sem esperança, para onde caminha este povo?!...

Etiquetas: ambiente, princípios, ética, civismo, operários, justiça, missão, regiões...

sábado, 2 de outubro de 2010

A razão e o porquê do Neo-Realismo!...

Quem como nós foi ensinado a ler as obras de alguns dos mais sonantes do neo-realismo português, já quando éramos mais crescidinho, logo virou adepto e a explicação até é simples de perceber! Estamos a comentar uma escrita de uma época ainda bem próxima - meados do século vinte - que teria como objectivo "furar" um certo bloqueio, que havia tomado conta da vida deste país, que, não encontrava limites no seu âmbito e que atingiu a própria literatura - também ela controlada - duma forma acérrima, até finais dos anos sessenta, pelo que nos foi dado observar...
A escrita incisiva do mestre Aquilino, fez-nos compreender que éramos ainda um povo que "remava" contra a desdita e que punha a nu as dificuldades de um país rural e atrasado, devido ao abandono a que fora botado por um poder matreiro e ardiloso, onde se podia também ler, aqui e além, acerca de algumas referências que atestavam a existência de conceitos ainda enraizados nas cabeças de populares e que vinham dos primórdios e não eram outra coisa senão a pujança de um povo bastante antigo e experiente nas dificuldades, disposto a analisar e só depois a decidir! Como deveria ser!...
Entretanto, as décadas foram passando e já ninguém faz referências a Alves Redol ou a Soeiro Pereira Gomes, nem se sabe bem porquê, mas podemos pensar que poderá ter acontecido uma espécie de complexo, que terá atingido muitos portugueses, que adoptariam outras "modas", e, não quererão, agora, parar um pouco e olhar para trás para reflectir quem já fomos e como deveríamos ser! Será, talvez, por isso, que já não se discute os princípios que nos deveriam nortear como povo, antes preferem e adoram falar à volta de números - que muitos deles mal dominam - e que assentam em bases pouco sólidas, para não dizer falsas, pondo de lado um princípio bastante antigo e que nos diz:- « A mentira tem perna curta!» Na verdade é uma missão quase impossível, nos dias que correm, "tentar tapar o Sol com a peneira", porque com os meios que estão no terreno, mais hora menos hora, as agências noticiosas põem cá para fora não só as notícias, mas até os comentários... Só que a mediocridade é tamanha, que não dá para ver a figurinha que fazem!... Claro que estamos a generalizar.
A nós sempre nos ensinaram que "o crime não compensa", mas assistimos a partir dos anos oitenta ao desplante de quadros portugueses formados em universidades a tentarem incutir nas empresas, um novo hábito acabadinho de chegar da "estranja" e que "rezava" assim :- « O que hoje é verdade, amanhã poderá ser mentira!» Tal e qual...
O que é lamentável, para não lhe chamar coisa pior, é ver como esta gente que luta para vencer sozinhos, tenta semear tudo o que lhe é transmitido, quando sabe que está a ir pelo pior caminho e com consequências difíceis de imaginar para um povo, que, vai ver-se confrontado, mais dia menos dia, com contradições difíceis de superar! Quem leu "QUANDO OS LOBOS UIVAM", sabe aonde queremos chegar, mas, infelizmente, a ganância roubou o discernimento a filhos de muito boa gente e o mal foi começar!...

-Com o que Pedro sara, Sancho adoece!

Etiquetas: escritores; neo-realismo; ruralidade; complexidades; números; hábitos; tribunais plenários; tradições; partidos políticos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pedorido visto do rio Douro! ( 9ª e última parte )

Assim que entramos na zona demarcada, pareceu-nos que o encontro com a Régua foi bem mais rápido do que estaríamos à espera, e, aí, pudemos ver uma cidade do interior com uma vida própria assinalável e até um pouco agitada, porque a rota do vinho tem a virtude de "atrair" o turismo, agora através das três frentes conhecidas e que são o comboio, os barcos de recreio e as auto-estradas... Este turismo de que falamos, chama muito mais pessoas, estrangeiros e portugueses, desejosos de conhecer a região demarcada do Douro e uns e outros são unânimes em tecer elogios às belas paisagens que desfrutaram, e, por via disso, fizeram questão de guardar não só nas suas memórias, mas também em máquinas mais ou menos sofisticadas a quem não deram tréguas durante as horas que durou a viagem, para que mais tarde, já em ambiente familiar e de amigos, poderem rever as imagens com as quais se encantaram! De resto, não será por acaso que se diz em bom português:-« Recordar é viver duas vezes!...»
Ao longo da viagem de cerca de seis horas, deu para notar que os nossos hábitos gastronómicos diferem um pouco dos estrangeiros, que, apreciam melhor os nossos vinhos, porque para lá da refeição, fizeram questão de continuar a saborear os bons vinhos desta região demarcada, demonstrando um prazer e uma alegria para lá do comum dos portugueses!
Achamos oportuno focar aqui um outro aspecto que poderá não ter sido salvaguardado, tendo em conta as diferentes realidades desde a Foz do Douro até se atingir a região demarcada. Estamos a referir-nos às contra-partidas, que quanto a nós se justificariam, porque, quer se queira ou não admitir, a bacia do Douro não é homogénea... E, por não ser homogénea, houve formas de vida que foram sacrificadas devido à subida do nível das águas em todo este Baixo Douro e que nem sequer os dinheiros irão resolver!... Relembremos aqui a melhor agricultura de toda a zona ribeirinha, passando por todo o tipo de pesca sazonal e que dava muita vida pelas freguesias e lugares ao redor desses extensos areais, já para não falarmos no corte radical que foi feito às ligações ancestrais, já com centenas de anos e que diariamente eram feitas pelo rio, nos casos de Pedorido e Rio Mau, Sebolido/Cancelos e Midões e Melres e Lomba... Só para citar os exemplos que melhor conhecemos! Tudo isso passou a fazer parte da História e das memórias ainda vivas das gentes que ali despertaram para a vida e que não esquecem o passado colectivo!
É difícil perceber e mais difícil ainda é aceitar, que não tivessem previsto neste grandioso projecto o respeito pelo rico historial destas gentes ribeirinhas, num "chega p'ra lá", intencional ou não, mas que foi muito feio e que merece ser aqui denunciado!!!

-Um abraço fraterno para toda a região duriense!

Etiquetas: turismo, comboio, interioridade, memórias, povos ancestrais, pesca sazonal, gentes ribeirinhas, rios e afluentes.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Pedorido visto do rio Douro! 8ª Parte



A seguir a Entre-os-Rios ficamos com curiosidade por chegar à foz do rio Paiva, por ser um afluente por quem temos uma simpatia especial e que vem de há muitos anos! A simpatia surgiu quando deram a conhecer que era dos rios menos poluídos da Europa e por roçar pelos limites do nosso distrito... E foi reforçada, depois de sabermos dos desportos radicais que ali se praticam, porque é uma das várias formas de dar a conhecer belas e naturais paisagens e nos sítios mais escondidos do interior deste bonito país!
A Ilha dos Amores surge a anunciar a proximidade do rio da nossa simpatia, mas também foi giro rever o Castelo e o Escamarão, que nos trouxeram lembranças de gentes mais antigas e que sabe bem recordar, porque ajudaram de alguma forma à nossa identidade!
Finalmente a barragem de Carrapatelo e a 2ª eclusa, que após uma operação demorada, que decorreu com toda a segurança, após vencer um desnível com quase o dobro do de Crestuma!... Aqui, mais uma vez nos vimos confrontados com a história e com uma das obras do grande Camilo C. Branco, quando descreve com a arte que se lhe reconhece a passagem por estas bandas do Douro da quadrilha do Zé do Telhado, o tal que tirava aos ricos para dar aos pobres e tudo isto há pouco mais de cento e cinquenta anos!... Conta-se, que terá sido o primeiro escritor em Portugal a viver à custa dos seus trabalhos literários, isto em pleno século dezanove!
Nesta nova albufeira até à Régua, deu para perceber, que flutuávamos em águas mais profundas, porque deixamos de ver as marcações a vermelho, que desde a saída do cais de Gaia foram uma constante rio acima. Começamos a notar que entrávamos numa vasta zona de floresta acentuada e em ambas as margens, aqui e além, com uma ou outra casa isolada, de acessos bem difíceis, razão porque nesses sítios, umas pequenas lanchas encostadas à margem, davam a perceber, que será através do rio, que fazem os seus contactos com o mundo exterior... Por vezes, não muitas, éramos surpreendidos com a presença das garças, uma ave que não esperávamos encontrar por ali!... Fazem parte da chamada bio-diversidade, bem real e nada fácil de ser entendida pelos humanos...
Esta sucessiva monotonia, só iria mudar bem lá mais para cima, especialmente a partir do encontro do comboio com o rio na margem direita, onde a presença do casario começa a ser mais constante e a presença humana começa a ganhar mais consistência e que será como que o prenúncio da proximidade de um outro Douro, o chamado Douro vinhateiro, onde as vinhas já antes da Régua, surgem em ambas as margens devidamente ordenadas pela mão dos humanos, na forma de socalcos até ao cume das encostas, num aproveitamento e perfeição, que à distância lhes dá uma beleza única e que todo o mundo admira!...

-Este post é uma cópia do que publicamos no blogue PEdorido.com

domingo, 19 de setembro de 2010

Pedorido visto do rio Douro! 7ª Parte



Nunca escondemos que trazemos bem gravado o rio mais antigo e por razões muito especiais e diversas, que nem serão difíceis de imaginar!... Daí, navegarmos, quase convencido, que poderemos ser o único a bordo deste barco de recreio, que conseguirá ver ou imaginar, outros rios e outros cenários que já desfrutamos neste mesmo Douro, donde não é possível separar os belos e naturais areais, que eram diversos e que hoje estão submersos, para não dizer escondidos, e, que tantas vezes pisáramos...
Este nosso apego às memórias, que não nos largam, fez com que "desligássemos" por muitos minutos e nem prestássemos a devida atenção aos pequenos lugares ribeirinhos de Cancelos, numa das margens e de Midões e Gondarém na outra margem, sendo que estamos ligados por laços afectivos a este último povoado! Sabemos que a nossa mãe é dali natural e há indícios de que os antepassados do lado paterno sejam oriundos de Rio de Moinhos, o que equivale a dizer que somos um duriense dos sete costados...
Ainda durava o almoço quando atingimos Entre-os-Rios, povoação antiga e ribeirinha, não só do rio Douro, mas ainda do Tâmega que ali resolveu entregar-se duma forma pacífica ao grande rio e de forma idêntica ao Arda da outra margem em Pedorido!
Pudemos constatar que no presente, Entre-os-Rios dispõe de três pontes para desfrutar, mas terá ficado muito marcada pelo trágico acontecimento de 2001! Constatamos que alguns dos portugueses que viajavam neste barco comentavam o sucedido, sinal de que o país não se libertará tão cedo da tragédia que se abateu sobre as gentes desta zona do Douro... Foi péssimo, porque se perderam tantas vidas humanas e de seguida foi terrível ter de assistir ao desfile hipócrita de gentinha que aspira ao protagonismo a qualquer preço e que o tempo veio pôr a nu, se dúvidas houvesse!... ( Continua )

Nota: Esta é uma cópia do post publicado no blogue PEdorido.com

Etiquetas: Tâmega, Rio de Moinhos, Entre-os-Rios, Arda, pontes...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Pedorido visto do rio Douro! 6ª Parte



Isto é muita emoção para tão poucas horas! Ainda saboreávamos o paladar deste "novo" Pedorido e de seguida caía-nos bem à nossa frente a bonita e solarenga aldeia de Rio Mau, que já compararam com terras bem distantes... Quanto a nós, Rio Mau só é comparável consigo própria, porque é única e tem o seu próprio padrão! Seria como comparar este Douro navegável com o rio Tejo, que não são comparáveis, de forma alguma! O Tejo orgulha-se do grande estuário e de ser como que o anfiteatro natural da grande capital, mas o Douro "arrasa" com a sua identidade própria, que todo o mundo reconhece e já considerou património mundial! Penso para mim, que cairmos na tentação das comparações, estaríamos, talvez, a ir atrás dum qualquer sentimento de inferioridade, ou de coisa semelhante, que não faria sentido algum...
Acentuemos, isso sim, a componente humana do povo desta terra, que no seu todo, sempre se distinguiu pelo apego e amor à sua terra, e, que, quanto a nós, estará na base do que é muito justamente comentado como um sucesso colectivo!
De referir que em 1950, a pequena aldeia de Rio Mau era um pequeno lugar, onde só lhe conhecíamos uma pequena e artesanal oficina de colmeias, uma agricultura pobre e de subsistência e com gente humilde e bem disposta, que soube encontrar nas minas de Germunde, nos rabões da Carbonífera, na pesca no Douro e até na emigração, a forma honesta para a sobrevivência e para "mais altos voos"! A coesão deste povo decidido, viria a dar os frutos que estão à vista, e, sem desprimor, por quem quer que seja, entendemos da maior justiça, relembrar aqui, a figura e os exemplos de trabalho do saudoso padre Manuel que ainda conhecemos no final dos anos quarenta, éramos ainda uma criança!
Há um pormenor que ainda hoje transportamos connosco rio acima e para o qual ainda não conseguimos encontrar resposta convincente... Em boa verdade, desconhecemos em absoluto, se foi a coesão deste povo que "ganhou" o padre Manuel, ou, se, pelo contrário, teria sido a forma de estar no mundo daquele abade que "conquistou" toda aquela gente!... Ou seriam as duas coisas que se conjugaram? Será que alguém sabe?!...
Tudo isto, acudia em catadupa à mistura com recordações de factos de vária ordem e vividos no final dos anos quarenta e que tiveram continuidade até aos magníficos anos sessenta e que fizemos questão de "armazenar" com todo o carinho, porque fazem parte das nossas boas recordações e dos melhores exemplos que queremos perservar até ao fim!... É nesta fugaz volta pelo passado, que nos faz esquecer por largos momentos o realismo das paisagens durienses, mas às doze horas, fomos "acordados" através do altifalante para que descêssemos, porque ia ser servido o almoço... Apesar de Rio Mau e Pedorido terem ficado já para trás, fiquei só no exterior do Pirata Azul a digerir as emoções e convencido de que nenhum dos acompanhantes terá suspeitado das nossas raízes e deste nosso envolvimento a toda esta região do Douro!

- Um grande abraço para os nossos conterrâneos de Rio Mau!

Nota: Esta é uma cópia do post que publicamos no blogue PEdorido.com

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pedorido visto do rio Douro! 5ª Parte




Teriam decorrido cerca de duas horas de viagem e Germunde aparecia já ao alcance da nossa vista! De propósito, preferimos um espaço isolado, donde fosse possível não só olhar, mas também esconder alguma emoção, porque não foi em vão que ali acordamos para o mundo do trabalho e onde viríamos a criar boas amizades, tudo isto durante a nossa juventude!
Assim de repente e volvidos quase cinquenta anos muita coisa mudou!... O lugar é o mesmo, mas nota-se o silêncio do abandono depois do fecho das minas da Carbonífera! Até o teleférico que escoava o carvão retirado às entranhas sumiu, o que leva a supor, que às estruturas metálicas que por ali abundavam terá acontecido coisa semelhante!... O arvoredo, tomou conta de grande parte de toda a zona inclinada até ao rio e devido a essa metamorfose o verde está muito mais acentuado e o negro já perdeu a expressão de outrora o que não deixa de ser normal em consequência do fecho das minas!... Mas, há um outro pormenor, que memorizamos dos anos cinquenta e sessenta e que já não é possível visionar, aqui, nesta margem esquerda do Douro... Estamos a relembrar a "frota" de rabões, aqui bem perfilados e ancorados à espera de vez, para receber a carga de carvão e partir de seguida, rio abaixo, a caminho dos cais de Campanhã e do Porto, com a finalidade de movimentar uma boa parte deste País!
Se dúvidas houvesse, o edifício do Poço Mestre continua ali firme, e, a destacar-se, como que a assinalar um pouco mais acima, a meio da encosta adjacente ao rio Douro, toda a história de várias gerações de mineiros!!!!.... Faltará ali, sòmente, o símbolo que melhor representaria toda a época mineira e estamos a referir-nos ao briquete incandescente... Visto ao perto e do rio Douro seria como que a homenagem certa no lugar certo!
Mas as emoções não iriam ficar por ali, porque de seguida, Pedorido e Rio Mau surgiriam como que apressadas, mas tiveram que ser pacientes, e, perceber, que, o nosso imaginário iria perder-se por algum tempo de volta às recordações do que foi a quinta de Fornelo, ali, com o rio a seus pés e que mais parecia um jardim durante os doze meses do ano e onde fomos tão feliz!!!...
E, eis, que, de repente, aparece o esplendor da igreja da nossa aldeia de Pedorido, devidamente enquadrada com o Douro e com o ambiente, e, que, só agora, deu para perceber da visão e da competência do pessoal técnico dos anos quarenta! É claro que os tempos ocasionaram diversas alterações físicas no meio, mas, ficamos com a ideia de que a aldeia estará mais ribeirinha e mais aconchegada, porque se terá abandonado a ideia de outrora de construírem as novas casas nos pontos mais altos e de difícil acesso. Com o fecho das minas o pensamento das novas gentes poderá estar à procura de voltar à proximidade dos rios e poderá ser como que um retorno a um passado mais longínquo!... Vendo por esse lado, será mais original e talvez mais primitivo, uma espécie de reconciliação com os nossos antepassados que muito justamente teriam começado por se instalar desconfortavelmente e com os olhares não muito distantes das margens do Douro e do Arda!
Todo aquele enquadramento actual entre o arvoredo mais antigo com as pontes e com a foz do Arda é de uma beleza única em todo o Baixo Douro, e, a praia fluvial, mesmo ao lado, veio dar a oportunidade que sempre faltara aos pedoridenses e àqueles forasteiros que fazem desta praia a sua preferida...
A sensibilidade que fomos adquirindo ao longo da nossa vida, diz-nos, que Pedorido tem agora um aspecto mais jovial e mais bem cuidado, e, parece-nos, que terá perdido aquele ar sombrio e mais escuro de outros tempos!... Do centro deste belo rio Douro, gostamos do que observamos e temos muito orgulho de cá termos vivido até 1963!

-Um abraço do tamanho do Arda!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Pedorido visto do rio Douro! 4ª Parte



Custou a despegar o olhar de Melres e da sua ribeira, que sempre havíamos guardado bem lá no fundo e sentimos como que um misto de saudade e alegria, porque nos pareceu, que o actual rio Douro não terá mexido ou alterado o que era fisicamente aquela linda povoação nos anos cinquenta! Por vezes somos traídos pela imaginação, e, no caso, vivíamos com a ideia de que as águas do "novo" Douro teriam "invadido" uma parte de Melres e da sua viçosa ribeira... Foi como que o transportar de um "peso" que carregamos durante muito tempo e, no final, sentirmos o alívio dessa libertação, mas não sermos capazes de encontrar as palavras certas para tamanho alívio...
Quem não se recorda dos mineiros que diariamente transpunham o rio vindos daquela margem, e, que, volvidos trinta minutos eram "engolidos" para as entranhas da terra durante horas seguidas?!... E ao recordar Melres, é mais que justo relembrar aqui, aquele jovem louro, de aspecto nórdico, que dava pelo nome de António Vieira da Rocha, um exímio lançador do martelo no início dos anos cinquenta e que no velhinho campo entre Pedorido e a Póvoa, tantas vezes vimos lançar o engenho a distâncias que para a época eram um espanto!... Bela prática desportiva e a "feijões", que é como quem diz, sem ganhar tostões nem milhões, e, só faltará acrescentar, que, a sua primeira profissão foi como mineiro, e, só mais tarde seria transferido para as Obras, uma espécie de construção civil da Carbonífera! Ou seja o mérito viria depois das provas dadas!...
A Lomba sempre viveu um pouco escondida em resultado daquele ziguezaguear do Douro, mas que soube aproveitar mais tarde aquele grande espaço junto do rio e construir ali uma praia fluvial, onde é notório o bom aspecto de ponta a ponta e que aqui registamos! Dos tempos de miúdo, vem-nos à lembrança os sermões do padre Regadas, cuja fama de orador ecoou pelas terras ao redor e pelos vales circundantes e de que nos recordamos ainda, daquele longo sermão na esplendorosa igreja de Pedorido, onde aquele abade repetiu, vezes sem conta, a frase que seria o título que escolhera e que estivera na origem de tão polémico sermão:-« ... É PERIGOSO DIZER A VERDADE!...» Hoje, temos fortes dúvidas que em meados dos anos cinquenta estivesse a ser entendido por algum dos presentes, dado que se tratava de sermões demasiado filosóficos, teóricos, se quisermos, sem chamar os bois pelos nomes, quando deveria saber-se que se tratava de assistências quase analfabetas e habituadas a trabalhos duros e a vida difíceis...
Achamos curioso, passado todo este tempo, estas recordações "saltarem cá para fora", num sinal para nós, claríssimo, de que não vamos agora, nem amanhã, esconder o realismo de uma época, que também foi a nossa e da qual memorizamos o essencial! E o essencial foi perceber, que, com o passar dos tempos, as mentalidades são capazes de evoluir, e, se, hoje, nos foi possível navegar Douro acima, num barco com alguma dimensão e conforto, não vamos querer esquecer aquele outro tempo em que fizemos idêntico caminho, rio abaixo, rio acima, a bordo de uma pequena lancha, sem comodidade alguma, mas onde reinava a alegria de uma juventude, que, viria, uns anos mais tarde, a dar o seu melhor para as mudanças que o país aplaudiu e que só terão pecado por tardias!...

-Se tens amor à tua região, divulga-a!

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