quarta-feira, 30 de junho de 2010

As Memórias e as Diferenças!... 2ª parte

Reparem nesta diferença abismal:- « Há cerca de sessenta anos, passou pela nossa linda aldeia e por cá se manteve largos anos, um abade, que se ocupou de forma empenhada - entre outras actividades - em controlar o dia a dia dos namoros cá da terra, duma forma continuada e para isso contou com a ajuda de terceiros, possivelmente convidados, e, que, terão aceitado colaborar nesse esquema, no mínimo degradante... Estamos em crer, que não teriam bem a noção do papel que desempenhavam, mas é bom perceber, que isto só foi possível, porque a igreja católica e o Estado Novo andaram de mãos dadas, e, por via dessa união, os padres, naquela época, tinham um poder que lhes permitia, caso optassem ir por aí, intrometer-se em questões que nada tinham a ver com a confissão religiosa! Este reprovável atrevimento, deu aso a situações que nunca deveriam ter acontecido e que marcaram pela negativa muito boa gente de Pedorido!O pior de tudo isto, é que neste país de brandos costumes, não se assumiu, nem se reparou o que de mal se fez, ou seja, feriu-se a dignidade e a liberdade das pessoas, mas nem a Instituição igreja, nem ninguém, apareceu a dar a cara e a assumir que errou e a pedir desculpas públicas pelo sucedido.»
Ainda hoje, apesar de vivermos num sistema democrático, resiste-se muito a reconhecer os erros de personalidade, num sinal claro de que as deformações de carácter, vão passando de geração para geração e resistem aos regimes políticos, quaisquer que eles sejam...
Ainda a propósito das nossas memórias e das diferenças, ocorreu-me, agora mesmo, imaginar aquele degradante cenário com perto de sessenta anos, transposto para os tempos actuais e para o Pedorido deste novo tempo!... Somos levados a pensar que os cidadãos de hoje, saberiam tomar uma posição de acordo com a circunstância e mais ao jeito das liberdades e direitos que o 25 de Abril veio repôr! É óbvio, que é para aí que vai a lógica do nosso raciocínio!

NOTA: Cópia do Post no blog PEdorido.com

quarta-feira, 23 de junho de 2010

As Memórias e as Diferenças!...

Cremos acreditar, que os Pedoridenses reconhecem ao lugar das Concas como que aquele espaço que é único e exclusivo, que nenhum outro lugar consegue suplantar no resto da aldeia, e, muito dificilmente o cenário irá mudar no futuro, porque ali, a Natureza tem tudo para desiquilibrar a seu favor, desde logo, porque os rios Douro e Arda ali se vão encontrar e esta coincidência faz toda a diferença que os humanos acabam sempre por valorizar mais, porque os rios e as suas águas têm atributos vários e que vão ao encontro dos seus interesses, seja na pesca, ou no lazer, que no Verão ganha a importância maior, quando as temperaturas ambientais sobem e encontram nestes volumes líquidos um antídoto eficaz!...Mas, quando citamos os meses mais quentes do ano e se nos lembrarmos de Pedorido, há três coisas que associamos no imediato:- O rio Douro, o rio Arda e o lugar das Concas, com todo o seu esplendoroso arvoredo que quase penetra pelas águas destes maravilhosos rios... Se connosco sucede sempre assim, somos levados a acreditar que com os conterrâneos sucederá o mesmo, ou andará muito por aí, mais coisa menos coisa... A seguir e se não partirmos para novas ideias, vamos seguir numas outras viagens ao passado, em que mais uma vez os rios, sempre os mesmos rios, de outros tempos, é certo, mas por isso mesmo mais belos, queremos acreditar nisso, sem ter o propósito do contra, mas pela ligação forte ao que eram as envolvências físicas de uma época difícil e sobretudo diferente, muito diferente, em que nos era ensinado só o essencial para aquele tempo e que passava sempre e acima de tudo pela sobrevivência e para a continuidade!...Reparem nesta diferença abismal: - Há cerca de sessenta anos...( CONTINUA )
NOTA: Cópia do post no blog PEdorido.com

sábado, 12 de junho de 2010

LUFICO - UMA HISTÓRIA DA GUERRA!...

Algum dia lá teria que ser, porque fomos adiando, adiando, mas não resultam os adiamentos, quando sentimos que algo para trás ficou por contar, e, logo nós, que, até com o decorrer dos tempos, fomos adquirindo a consciência de que devemos pôr cá para fora, mesmo o que nos terá desagradado, mas, que também terá ajudado a entender, que as nossas vidas são isso mesmo, compostas por pequenos sucessos, alguns insucessos e sobretudo muitas limitações, e , por vezes algumas contradições...
Recuar ao ano de 1966, para me situar naquele dia 9 de Maio na pequena mas linda cidade do Ambrizete, ali mesmo junto do Atlântico! Parecia um dia como tantos outros, não fosse ter na mão uma credencial passada pela minha Companhia de Engenharia, para logo pela manhã incorporar uma grande coluna de carros militares e civis, que daqui abalaria até à cidade de S. Salvador do Congo, lá mais no interior do norte de Angola. Era uma coluna de abastecimento para civis e militares, coisa já rotineira neste conflito, que era a guerra colonial.
Seguia comigo um outro camarada e grande amigo da Engenharia de nome Manuel Neto e que sempre me acompanhou desde a recruta em Paramos, até à mobilização e com quem fazia equipa nos trabalhos de electricidade, que haveria de ser necessário executar pela companhia durante os dois anos da comissão de serviço naquela colónia.
Era a primeira vez que iríamos deixar a nossa tropa da Engenharia, para um trabalho temporário, algures mais a norte, num local para nós desconhecido e que se chamava Lufico... Lembro-me perfeitamente, que ocupamos um lugar no mesmo carro, porque não conhecíamos ninguém da nossa tropa e até me recordo de ter aconselhado o Neto a não aceitar um melhor lugar num jipe, que, fora oferecido a um de nós pelo alferes - naquele dia sem divisas - da tropa do Lufico, um pouco antes da coluna arrancar do Ambrizete...
Esta grandiosa coluna seguiu intacta até ao Tomboco, e, aqui, a tropa do Lufico composta de cinco carros, separou-se para seguir rumo ao seu objectivo, que distava cerca de cem quilómetros, ou um pouco mais...
Faltaria pouco mais de trinta quilómetros para atingir o nosso objectivo e aconteceu um ataque-surpresa, montado bem perto da picada pelos guerrilheiros de um dos Movimentos de Libertação, que, no caso, seriam da FNLA ou MPLA, possivelmente, e que atingiu o jipe e um unimog, que eram a frente da nossa coluna militar. As baixas do lado da nossa tropa cifraram-se por alguns mortos e vários feridos, e, era a primeira vez, que tanto eu como o Neto, tomávamos contacto com a guerra de guerrilha e duma forma trágica para alguns daqueles jovens, e, vem-me sempre à memória, que, uma das baixas, foi precisamente o jovem maqueiro que aceitara o lugar que fora oferecido ao meu bom amigo Neto!...
Passaram já quarenta e quatro anos sobre tão triste memória, duma guerra que bem poderia nem sequer ter começado, mas não ficam por aqui as más notícias... O meu bom amigo Neto deixou-nos no passado dia 30 de Maio e como era meu dever, fui acompanhá-lo até à sua última morada no cemitério de S. Martinho do Campo...
O Neto, costumava dizer que me considerava como um irmão e sei que sentia essa estima de verdade, porque vivemos momentos de profunda amizade, numa partilha que nos marcou até ao fim e que nos convívios anuais gostávamos de relembrar!...
Neste 31 de Maio é que acabei por perceber o quanto custa perder um grande amigo! Vamos fazer por merecer a sua profunda amizade e recordar sempre as coisas boas e menos boas que partilhamos, beneficiando de uma idade generosa, numa época conturbada da nossa História colectiva, mas que nunca inviabilizou o nosso sonho de ajudarmos a construir um mundo diferente e bem melhor!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O MIÚDO NÃO ESQUECEU!...

Todas as pessoas trazem agarradas a si memórias, muitas memórias e das mais diversas, sendo certo que uma boa parte se vai perdendo com o tempo, por não ser possível registar tantos acontecimentos, quando nós próprios também não lhes damos essa importância, como é óbvio.
Há factos, que nos marcaram pelos mais váriados motivos, uns porque foram determinantes nas nossas vidas, outros pela raridade, ou mesmo pela novidade, como os que a seguir vou narrar e que calei durante várias décadas...
Teria os meus dezasseis anos e na época, (final dos anos cinquenta) era comum ver os miúdos a participar nas tarefas da Carbonífera a partir dos catorze anos, colaborando dessa forma com o baixo salário para as despesas familiares. Integrávamos como aprendiz, os serviços de apoio nas oficinas de uma empresa mineira, numa falésia sobranceira ao rio Douro e numa tarde quente do Verão de 1959, quando penetrava na galeria principal, para dar continuidade a um serviço no Poço Mestre de Germunde, a uma profundidade de cem metros, fui surpreendido pela voz autoritária de um eng. técnico dessas minas e que a uma distância de uns vinte metros, exclama:- «OLHA SE CALAS O ASSOBIO!...»
Na ocasião, achei desajustada a forma autoritária com que fui admoestado, porque assobiar no interior de uma galeria, não seria caso que justificasse tamanha reprimenda, mas lá calei o assobio e o nosso homem deve ter ficado com o ego favorecido, por sentir que tivera mais uma "grande vitória", numa curta disputa, sem sentido, perante um jovem ainda despido de memórias, mas já com sonhos, naturalmente...
Pouco tempo depois e por mera casualidade, escutava da boca de um tubista das minas, uma história para mim um pouco perturbadora e que não mais iria esquecer:
« O nosso tubista, nessas minas de carvão, contava a dois ou três mineiros, que, no desempenho da profissão junto do Poço Mestre, quando estava a ser construído, evitara, com alguma genica e sorte, que um eng. em desiquilíbrio, caísse ao referido Poço, que na ocasião teria cem metros de profundidade... O tempo foi passando, até que chegara o momento desse mesmo eng. apreciar uma pequena questão, passada nas oficinas da mina e a determinado momento manda chamar ao seu gabinete o nosso tubista e comunica-lhe a decisão de lhe aplicar 20 dias de castigo, ( sem vencimento ) tendo ainda o cuidado de acentuar, que estava a ter em conta, o facto de lhe ter salvo a vida!...
O homem, que tinha vários filhos, lamentava-se com alguma raiva e frustração, por considerar o castigo injusto e desproporcionado, e, por entender, agora, que em devido tempo, deveria ter deixado que o destino se cumprisse, permitindo a queda e a morte do referido engenheiro, enquanto recordava as suas palavras na ocasião do desiquilíbrio :-AH MEU SANTO, SALVASTE - ME A VIDA !...»
Só falta desvendar, que não será por acaso, que este mesmo eng., que apreciava castigar tão severamente os humildes - mesmo a quem lhe salvara a vida - foi o mesmo que mandou calar o meu assobio, e, já muito mais tarde, após o 25 de Abril, viemos a saber um pouco mais:
HAVIA SIDO COMANDANTE DA LEGIÃO PORTUGUESA, NA CLANDESTINIDADE, OU SEJA, SERVIRA O FASCISMO COM MILITÂNCIA!...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

UM ASSUNTO BEM SÉRIO!... ( 2ª PARTE )

( Continuação )
Pensamos nós, que a Democracia também responsabiliza os votantes, que, deveriam perceber, que ao quererem o "jeitinho" de construir no seu terreninho junto dos rios, correm o sério risco de ver num próximo Inverno, sem aviso prévio, as suas vidas e os haveres, como a casita, a ser postos em causa!... Será justo a seguir vir a exigir do País as indeminizações a que já nos habituaram em casos semelhantes?!...
Se a todas estas aberrações, juntarmos uma ETAR que já nem cumpre o seu papel, dando aso a que as águas saiam ainda mais poluídas na saída, temos um cenário que nos aproxima bastante dos países do 3º mundo e nos afasta ainda mais da Europa que se quer evoluída!
Como estamos a falar de desgraças, ocorre-nos já agora relembrar que neste Portugal de Abril, os militares tiveram o bom senso de se retirar da cena política a que voluntariamente haviam aderido, e, ainda bem que o fizeram, porque é uma desculpa a menos para aqueles que usam todas as armas de arremesso para encobrir os seus erros; mas é estranho, muito estranho, que nem todos os militares tenham regressado aos quartéis ou a suas casas, preferindo ignorar a nova ordem democrática, na vã esperança, quem sabe, de um sempre possível regresso a um velho e saudoso 24 de Abril, com direitos exclusivos, sem esquecer uma promoção militar pomposa e de encher o olho, capaz de fazer esquecer os galões de major, a quem o tempo já se encarregou de tirar o brilho das glórias militares de tempos passados...
A verdade, é que os portugueses dispensariam bem este punhado de desgraças, sabendo que todos irão perder e não são só os humanos, mas também a Natureza, os mares e os rios incluídos, restando aos últimos o protesto violento das suas águas, assim que galgam para fora dos seus leitos, como que a admoestar os infractores por ocuparem espaços que sempre deveriam estar livres, para que a qualquer momento o rio tomasse conta desses espaços e ali deixasse os ricos sedimentos naturais, que iriam ajudar a adubar as terras ribeirinhas de cultivo!
Quem nasceu e morou junto do rio Douro nas décadas de quarenta, cinquenta e sessenta, conhece bem este tipo de comportamento e suas consequências, porque o Douro sempre foi um rio desigual e imprevisível, manso nos meses do Estio, mas quase sempre destemido nas prolongadas invernias, ao ponto de se sobrepôr aos afluentes e suas ribeiras, com a finalidade de ali deixar os tais sedimentos, tão do agrado das terras e dos homens que as trabalhavam, porque sabiam que as produções estavam garantidas!
A maior desgraça, é que os "inteligentes" que no nosso tempo chegaram ao Poder, teimam em remar contra a maré e a nossa maior alegria reside na certeza, que, no amanhã, que já não iremos ver, novas gentes mais descomprometidas e mais capazes, irão dar a volta a tanta asneira, para corrigir o que de mal tem sido feito aos rios e ao ambiente e com a cumplicidade de políticos europeus!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

UM ASSUNTO BEM SÉRIO!. ( 1ª Parte )

As operadoras de TV põem à nossa disposição canais e muitos canais, às centenas, mas a realidade diz-nos que grande parte, a maior parte nem sequer é visionada, porque trata de temas para os quais não estamos vocacionados, como as passagens de modelos e até alguns desenhos animados, que afinal nem funcionam a maior parte do dia...
De facto, há um canal nacional que é a RTP2, que tem merecido a nossa procura, porque, regra geral, brinda-nos com alguma qualidade e merece ser referenciada por alguns dos programas que vai apresentando aos tele-espectadores portugueses!
Ontem, domingo, tive a grata surpresa de ver ali o programa BIOSFERA e deliciei-me com aquele programa do princípio ao fim e dei por mim a concluir, o que já concluira há muito tempo a esta parte: - Sem uma Democracia, não era possível ver ali ser tratados os temas que aquele programa aflorou e que esclareceram bem quem quis ser esclarecido e que estivesse de boa fé, claro... O assunto apresentado tinha a ver com o pequeno rio Tinto e a forma como tem sido tratado, desde a nascente até à foz no rio Douro, na margem direita e já com a cidade do Porto à vista... Neste local, foi autorizada a construção duma marina, de todo desaconselhada pelos especialistas, que denunciaram os muitos atentados que ao longo das últimas décadas têm sido consentidos pelos poderes públicos a começar pelas autarquias e pela Junta Metropolitana do Porto, com a autorização da construção de casario nas zonas adjacentes ao rio Tinto, com os esgotos que para ali são encaminhados e que chegou ao atrevimento de entubar o próprio rio num espaço que permitisse depois a construção de algumas valências de interesse para a comunidade, como seja, uma piscina Municipal e outras, que, sendo uma mais valia, podiam e deviam ser equacionadas para outro local.
Pelo meio, segundo os intervenientes do programa, houve troca de terrenos e claro o interesse de particulares, que também quiseram aproveitar tão "gentil oferta"...
Esta decisão já vem dos anos noventa em que um tal major, decide por "voto de qualidade" o castigo de um pequeno rio, incapaz de se defender e apelar para um sítio algures na Europa ou no Mundo, uma vez que os mais entendidos académicos não foram escutados, ou pelo menos atendidos nos seus reparos!...
A determinada altura, alguém chegava ao ponto de afirmar que os alemães e os noruegueses neste preciso momento estão a tratar estes problemas de forma bem diferente, mas que deverão estar errados e os portugueses, esses sim, é que estarão certos!... Estava a ironizar, é claro!
Sendo certo que vivemos em Democracia, como é possível que estas coisas ainda vão acontecendo?!... É até de admitir que outros casos idênticos e até mais graves estejam a suceder em outros rios por esse Portugal além, mas aqui houve a coragem destes especialistas, que cumpriram o seu papel de divulgação mas também de formação, para quem, como nós, não é um entendido na matéria, percebendo-se, por este exemplo, da utilidade dos dinheiros públicos na formação de académicos capazes e descomprometidos!
( Continua )

sábado, 1 de maio de 2010

HAJA LUZ!... DOIS MAGNÍFICOS EXEMPLOS!

Os nossos dias não são todos iguais e com o comum dos mortais passar-se-á o mesmo, porque somos influenciados até por coisas mínimas mas reais, como a avaria de um exaustor da cozinha, a caminho dos dez anos de serviço e que trabalhou como um "desgraçado", mas que a nós custa a aceitar, porque é daquelas coisas que exige resolver "já" e "agora", mesmo que não seja possível no próprio dia!... Ainda mal refeito deste contratempo, não é que o radiador do automóvel dá indícios de perder líquido, mas voltamos à mesma sina, porque passaram catorze anos e o desgaste não tem contemplações!...
A propósito, tenho dois casos muito pouco comuns para vos contar e que me fizeram ultrapassar por completo as vicissitudes das duas referidas avarias, porque são duas lições, qual delas a calar mais no fundo, até porque não estava à espera nos dias que correm, vir a ser confrontado com atitudes, que, em boa verdade, pensávamos, já não ser possível...

1º caso:- « Dirigi-me a uma loja de peças, para saber quanto iria pagar pelo radiador novo e o snr. que me atendeu ficou com o meu contacto, para me informar do preço; no mesmo dia recebo em casa a informação de que o radiador custaria 68 euros , já com I.V.A. e que no dia seguinte já podia procurar; ao 2º dia dirigi-me à loja e o mesmo snr. diz-me o seguinte:- Disse-lhe que o custo do radiador era de 68 euros já com I.V.A., mas, como consegui mais barato, vou também beneficiá-lo e só terá que me pagar 58 euros com I.V.A...
Lá paguei, recebendo a factura, como mandam as boas regras, mas confesso que por esta não esperava, uma vez que já havíamos acordado o preço a pagar, e, posso garantir que nem somos amigos, nem sequer nos conhecíamos!...
Afinal, tenho de reconhecer, que há ainda pessoas que estão no mundo dos negócios duma forma que surpreende pela positiva e nós temos o dever de divulgar ao nosso mundo, que ainda há humanos que pertencem ao grande grupo das pessoas de carácter e com princípios marcantes nas suas atitudes, em oposição clara e frontal com aqueles que levam milhões e milhões com todo o descaramento, para as suas contas bancárias, dinheiro esse que é dos contribuintes e de um país que tem compromissos e que deverá respeitar!...»

2º Caso:- « Uma semana mais tarde, seguia muito compenetrado na minha caminhada e ao entrar numa estrada secundária e de algum movimento, dou com um jovem com cerca de trinta anos, que se ocupava na tarefa de apanhar das bermas e até do pinhal as latas de alumínio, que, depois de vazias, são atiradas para fora dos automóveis, sendo certo, que, os transeuntes fazem igual e então é uma praga esta poluição, que irá contribuir para pôr em risco o equilíbrio ecológico...
Achei aquilo, a meio da manhã, um gesto que me trouxe curiosidade e não tive qualquer problema em provocar o diálogo com o jovem e a primeira pergunta que lhe fiz, foi para tentar saber se pertencia a algum grupo de ecologistas, tendo o jovem dito que não e que se empenhava na tarefa para atingir dois objectivos: - Com esta recolha, conseguia arrecadar 50 cêntimos por Kg, ao mesmo tempo que conseguia um 2º objectivo ao colaborar na limpeza dos espaços públicos, que, segundo ele, estão cada vez mais poluídos e que sabia do que estava a falar... »
Estes dois magníficos exemplos, levam-me a pensar, que serão uma ínfima parte do que de bom ainda se pratica no dia a dia neste nosso Portugal, mas, o que acontecerá, é que a maioria dos meios de comunicação social vive do fantástico e do agitar de nomes sonantes, em que uma boa parte já nem são referência, e, se o forem, será pelas más razões, não admitindo perante o país, que a sua hora já passou e que fizeram algumas coisas certas, mas que os erros ficaram por admitir, com o intuito de os misturar no rol das coisas boas... Se o tivessem feito, teriam de facto outra dimensão, mas estão na VIDINHA como querendo ser os "paizinhos" de um povo, que, na sua opinião, precisa deles como do "pão para a boca", quando o mais real é que são essas figuras a precisar do ENCOSTO, e, alguns deles, vão mesmo ao ponto de fazer afirmações, sem nexo, como esta: - « PORTUGAL É UM PAÍS POBRE E PERIFÉRICO ... » Grande lata!
Estes dois excelentes exemplos, de como estar na vida, destes dois anónimos portugueses, soaram alto dentro de mim e acordaram-me para me dar a saber, que as realidades nem sempre são o que parecem, ou, que, matreiramente, nos querem impingir!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ!...

Há coisas que gostamos muito de fazer, mas há outras que nem por isso, mas que aceitamos fazer por razões várias, quando mais não seja, por entendermos que não devemos sobrecarregar os outros, que já estão ocupados e porque não seria justo, não percebermos, que as tarefas divididas, alivia uns e outros, pena é que os exemplos gerais das nossas sociedades, não apontem muito para outro tipo de divisões e os resultados dos egoísmos desenfreados e das vaidades exacerbadas, estão a pôr em risco os pilares de valores que eram considerados os barómetros dessas mesmas sociedades em tempos que já lá vão...
Quem será o culpado e onde mora? Será mesmo que haverá culpados para ser apontados a dedo, ou será que tudo isto tem vindo a acontecer, depois que os humanos "descobriram" que o que é bom para eles e para o planeta é o sucesso individual, mesmo que isso ponha em causa os outros sucessos todos, onde estão a restante sociedade, os outros animais, as árvores e até a vida no planeta?!...
Parece-nos que os desiquilíbrios estão a ficar mais desiquilibrados, mas será que isto é verdade? As vidas nunca foram fáceis para os povos e quem no-lo diz é a própria história desses mesmos povos e basta conhecer o essencial da nossa história, a caminho dos novecentos anos, para concluir, ou para tirar ilações do que foi a vida dos portugueses desde o Condado Portucalense...

Este mês de Abril, carregado de verdura e de flores, de todos os tipos e de todas as cores, onde incluímos as dos arbustos selvagens, transporta consigo como que uma força oculta, que consegue "arrancar" as pessoas da rotina e convidá-las a sair de suas casas, deixar para trás os meios urbanos, que tanto nos "prende" e embrenhar-se a pé, através de uma natureza, toda ela mais verde, mas sobretudo cheia de paz e de um sossego, que tantas vezes é quebrado pelos variados cantares dos pássaros, a maior parte já nossos velhos conhecidos, mas por vezes somos despertos pelo chilreio de um ou outro que não sabemos distinguir sequer de que pássaro se trata, mas que pouco importa, porque o que conta é que são bonitos, possuem cantares lindíssimos e nunca desafinam ... Desde que me conheço e me dei conta destas envolvências com a natureza, logo nos primeiros anos da minha meninice e naquela linda aldeia do Douro, reparo que ainda tudo é tão igual na natureza, sem avanços nem recuos, pelo que me é dado notar e quero acreditar, que não há ali qualquer desiquilíbrio e por esse lado, parece-me, que o cenário não terá sofrido qualquer alteração!...
Enquanto que no terreno dos humanos, as descobertas científicas nos últimos sessenta anos foram mais que muitas e em todas as áreas, porque será que não conseguiram convergir para o equilíbrio e até fizeram pior, basta ver os desiquilíbrios actuais na sociedade portuguesa para se perceber que não "bate a bota com a perdigota"...
Nos meus caminhos de Abril, com a natureza verde e tão verde, com os pássaros irrequietos e palradores, com um comportamento tão igual e tão feliz como o dos seus antepassados naquelas terras durienses de tempos passados, apetece-me perguntar:- « QUAL SERÁ A DIFICULDADE OU DIFICULDADES, QUE IMPEDE QUE OS HUMANOS, NÃO CONSIGAM OS MESMOS EQUILÍBRIOS QUE SERES MENOS INTELIGENTES VÊM CONSEGUINDO?!... »

quinta-feira, 22 de abril de 2010

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NOS ANOS CINQ.- (2ª Parte)

Recuar até aos anos Cinquenta e retermo-nos por uns instantes que seja a procurar visionar recordações de uma época já um pouco distante, mas, que, seguramente, não foi esquecida e que merece ser aflorada, independentemente dos factos serem bons e menos bons, para que possamos perceber que também fizemos parte dessas histórias, que nos cruzamos pelos mesmos caminhos de uma vivência que foi deveras difícil e que assistimos a muitos factos que atestam isso mesmo, ou, que, mais dia menos dia, acabaríamos por conhecer, porque era uma ligação diária e muito personalizada, que contrabalançava como que em oposição aos baixos conhecimentos escolares, onde uma larga maioria nem saberia ler e os outros tinham poucos hábitos de leitura, excluindo tudo quanto estivesse relacionado com as leituras religiosas, uma prática muito incentivada por uma igreja católica, que por ser única, dirigia a seu bel-prazer tudo o que deveria ou não ser feito por toda esta gente, que aspirava chegar um dia ao Céu, temendo ter de passar pelo Purgatório, mas afugentando para bem longe a hipótese de cair no Inferno...
Na época, os padres católicos tinham um estatuto social bastante elevado e sobretudo um poder, que, quase ninguém ousava enfrentar, porque era uma igreja que se tinha enraizado ao poder político de partido único, respirando o mesmo ar arrogante e que não admitia, sequer, a contradição, quando se envolvia em questões que nada tinham a ver com o catolicismo, sendo esse mais um dos grandes pecados cometidos por uma boa parte desses abades e com a cobertura das suas hierarquias. Claro, que houve honrosas excepções de abades que não excederam os limites da prática religiosa e do amor ao próximo, mas viram-se excluídos de progressão nas suas carreiras, por não serem da "confiança" absoluta dos chefes!...
Acontece, que em Pedorido essa intolerância era por mais evidente e visava sempre os mais humildes e a história que vamos contar prova isso mesmo:
« Ali pelo ano de 1955, alguns rapazes do Alto Picão, trabalhadores das minas e cheios de genica, até pela idade e ainda porque eram solteiros e bons rapazes, decidiram ocupar uma pequena parte de uma bela tarde de um domingo primaveril a "imitar" uma prática religiosa tão do agrado dos cristãos a que chamam Compasso, como se tivessem regressado ao tempo das "casinhas"...
Fizeram-no duma forma espontânea, com uma cruz de madeira grotesca, às "três pancadas", de exposição muito reduzida, e, pensamos nós, que debaixo de um clima de "muito boa disposição", próprio dos meios mineiros, onde as tabernas funcionavam de manhã à noite, e, só quem não viveu naquela época, poderá achar uma coisa insólita e muito desproporcionada...
Ora, numa aldeia controlada ao pormenor, é certo e sabido que o dono do rebanho foi de imediato avisado pelos informadores, que até podem não ter visto, mas que puseram pés a caminho como era seu "dever", levando até ao abade uma "boa notícia", de "qualidade rara" , presume-se... O abade não era de "meias medidas" e vai de excomungar, de imediato, dois dos brincalhões e foi assim colocada uma pedra sobre um assunto, em que mais uma vez, a igreja católica, foi tão mal servida por um vigário que usou a vingança sobre uns quantos humildes, que bem necessitados andariam de alguma compreensão e ajuda, para poder continuar a suportar a "cruz pesada" que a profissão e o baixo salário de mineiro a todos colocava!... »
O que ainda espanta é que uma Instituição como a igreja católica, bem organizada pelo que nos é dado observar, não tenha tido até aos dias de hoje a humildade de "descer à terra" para reconhecer e explicar a toda a sociedade que errou, como errou e porque errou....
Era tão fácil, era justo e seria uma boa prática, a prática da tolerância e do respeito pelos humildes, e, para se ficar a perceber, que, finalmente, esta mesma igreja havia cortado com as práticas erradas do seu passado recente!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

OS VERDES E AS FLORES DA PRIMAVERA!

Agora que as temperaturas "acalmaram," as caminhadas ou uns simples passeios pedonais permitem-nos apreciar e mesmo contemplar como bela é a Primavera!
Com toda a certeza que as árvores terão os portes da nossa meninice e o verde será o mesmo, mas também é verdade que uma ou outra espécie serão uma novidade, vindas sabe-se lá de onde, mas muito provàvelmente de algum ponto do nosso litoral, ou então dum dos muitos locais do nosso interior, estou a lembrar-me do Gerês, onde há uns anos atrás me recordo ter visto certas plantas e até árvores que foram novidade e que a altitude, as temperaturas amenas e a humidade explicarão bem melhor que quaisquer outras conjecturas...

É bem verdade, que há uns cinquenta anos atrás, só nos grandes centros urbanos e nas principais cidades deparávamos com jardins e canteiros públicos bem estruturados e floridos, mas, depois de Abril de 1974, aos poucos, foi-se generalizando e o hábito está espalhado por todas as cidades e vilas e ainda por grande parte das aldeias, que se tornaram ainda mais atraentes, sobretudo com a chegada da Primavera, porque as flores tornam os canteiros ou as rotundas um verdadeiro prazer para os olhos de quem passa e que não pode ficar indiferente a tanta beleza e diversidade!
Infelizmente, "nem tudo são rosas" e há vários dias nas minhas caminhadas de fim de tarde, fui surpreendido com uma atitude de um ou mais humanos que pela calada da noite - pensamos - terão tido o atrevimento de retirar uns dois pequenos arbustos rasteiros de um dos canteiros públicos, mesmo marginal ao passeio, abrindo uma clareira que ficou a notar-se à vista desarmada e ainda tiveram o desplante de espalhar uma certa quantidade de terra pelo passeio, em cerca de vinte metros, como que a deixar a marca do "crime"... Este tipo de atitude, não dignifica o ser humano e só vem provar que há ainda um caminho longo a percorrer no sentido da responsabilização individual, compatível com o que deverá ser uma Democracia moderna e exigente e que só poderá ser conseguida através do empenho dos cidadãos!
Há dias atrás, contava-me um amigo meu uma outra história passada na sua rua, em que um vizinho volvidos oito anos, "obrigou" um outro vizinho a retirar uma pequena planta, ( arbusto ) bem linda por sinal e ainda florida, só porque resolveu inventar argumentos sem cabimento, enquanto fazia saber que o seu arbusto não seria para retirar! Ou seja, retiras o teu arbusto, mas eu não retiro o meu... Tal e qual! Conseguiu o seu objectivo, porque ainda há criaturas que preferem ficar prejudicadas, e, com o apoio de outro vizinho, trataram de transferir o lindo arbusto para uma outra zona e estão a fazer todos os esforços possíveis para ver se ainda o conseguem "salvar"...
Estas situações "trazem à baila" as fragilidades ainda muito latentes na nossa sociedade, porque não se muda do dia para a noite!... As mudanças para melhor nas pessoas, levam uma vida e quando se consegue um feito desses é razão mais que suficiente para se fazer uma festa!... A mesquinhez, o egoísmo, a inveja e outros preconceitos interiorizados desde a infância, estão em profunda contradição com as sociedades solidárias, porque são doenças que dividem muito as pessoas, criam todo o tipo de quezílias e tornam-nas infelizes...
A esperança essa nunca vai morrer, porque acompanha sempre todas as causas merecedoras do empenho dos que não desistem, e, que sabem, que vai valer sempre a pena estar do lado dos justos e dos oprimidos!
Há até quem lhe chame uma "guerra" que não mais parará, mas eu prefiro o termo "batalha", porque as guerras dos povos e que nós estudamos na História, eram um conjunto de batalhas e por esse prisma esta será uma das "batalhas" do nosso tempo, e nós, tal como os nossos antepassados, estamos na firme disposição de "guerrear" para que o bem prevaleça sobre o mal!

terça-feira, 23 de março de 2010

Porque será que isto acontece aos HUMILDES?!

Já andávamos, há umas boas duas décadas para passar para o papel algumas considerações, que se prendem com a forma como a política vem sendo exercida no nosso país, desde que começou a ser possível a ida às urnas para eleger para um determinado período de tempo as pessoas ou os partidos políticos, mas também procurar "ver" ou "entender", como é que as pessoas votam, como votam ou, porque, simplesmente, se recusam a ir votar...Achamos por bem recorrer a dois "bons" exemplos, que se passaram nas autárquicas de 2009 e que põem a descoberto situações, que, no mínimo, encaixam mal num sistema, no essencial livre, mas que põe a nu as fragilidades e vulnerabilidades de uma sociedade que não saberá ponderar, se recusa a ponderar e resolve "alinhar", diria, quase cegamente, ao usar livremente o voto, mas sem exigência pela ética política e no maior dos desprezos por princípios de seriedade e de respeito por todos e em especial pelos humildes!

Estamos a referir-nos a Ovar e a Oeiras que são o paradigma da irracionalidade do voto, embora por questões diferentes, é justo que se diga.
Em Oeiras, estava em causa a eleição de um autarca a contas com a justiça, que, aliás, já se tinha pronunciado com uma pena de sete anos de cadeia efectiva e de cinco anos com perda do direito cívico... Apesar de todo este imbróglio, a maioria dos que foram às urnas naquele mês de 2009, optaram em consciência, por votar no autarca "condenado" pelo tribunal de que não restam dúvidas, terá funcionado como devem funcionar os tribunais num estado de direito!
Este caso é no mínimo polémico e levanta muitas questões, no campo jurídico e até constitucional, mas, parece-nos, que o caso mais sério, prende-se com os que quiseram nas urnas utilizar o voto sem o mínimo de exigência ética, com abandono total de princípios e alheando-se completamente das decisões de um juiz e de um tribunal, que ninguém vai acreditar que andou a inventar provas!...
Nos tempos que correm, onde a informação é abundante, não seria com essa desculpa que poderíamos ficar satisfeitos, quando até estamos informados que Oeiras será um dos concelhos do país com os mais elevados índices de letracia... Ou seja, uma boa percentagem daqueles eleitores terá escolaridade quante baste e essa realidade "incomoda" ainda mais, porque, felizmente, não estamos a tentar analisar o procedimento de pessoas de fracos conhecimentos académicos, quase analfabetos...
Em Ovar, um dos grandes pontos de discórdia, prendia-se com a tentativa do anterior executivo pretender mudar a distribuição da água aos munícipes para um novo contrato, que, no mínimo, iria durar cinquenta anos, que segundo estudos divulgados e nunca desmentidos preto no branco, levaria o preço do m3 para valores mais altos e logo nos primeiros três anos. O caso gerou muita discussão pública, durante a campanha eleitoral, tendo o candidato do BE, que havia rompido com o anterior executivo por via do mesmo assunto, utilizado grande parte da campanha a rebater o que considerava um erro histórico, não só pelos custos futuros da água, mas ainda pelo tempo a que os munícipes iriam ficar amarrados de pés e mãos; apesar de todos estes considerandos, a maioria que foi até às urnas, deu a maioria dos votos ao autor da proposta, que se recandidatara pelo seu partido e nem sequer atribuiu ao candidato do BE o número de votos suficientes para ser eleito como vereador!...Este é outro dos casos, em que mais uma vez, o voto terá sido usado de forma quase irracional, por uma maioria que acha muito bem que a água, um bem essencial para a vida de toda a gente, possa subir para preços mais elevados, logo nos três primeiros anos e que o contrato vá valer cinquenta anos, ou seja, um contrato já a contar com os netos que irão ser a continuidade... Acreditam estes "avós", que até tinham boas razões para duvidar, que os seus queridos netos, daqui a cinco décadas serão todos no mínimo da classe média alta, quando pelo que se vê, infelizmente, as coisas não apontam para sonhos tão altos!...
Um querido amigo meu, contava-me há dias da sua experiência, rica de conteúdos, vivida após a revolução dos cravos até ao início dos anos oitenta, numa empresa da região. No fundamental, cuidou-se de repôr a dignidade no trabalho, onde passou a haver melhores salários e outros direitos que os mais humildes não tinham, apesar da boa condição financeira da empresa! O 25 de Abril veio dar a possibilidade de uma viragem histórica naquela empresa, onde além dos lucros passou a haver DIREITOS e DEVERES para todos e só a partir dali os humildes puderam perceber, que é possível ter além do TRABALHO outros DIREITOS, sem pôr em causa nada, nem ninguém...Só que o "urso" tinha entrado em hibernação e com o colapso de Abril, depois do 25 de Nov. de 75, começa por sair lentamente desse estado e nesse ano de 1978, mobilizou-se e mobilizou alguns apoios internos e externos, para repôr a "ordem" numa situação que aceitara, mas que nunca aceitara, apesar dos excelentes resultados financeiros que todos os anos ia obtendo. Contou o meu amigo que o plano passou por duas fases distintas:

a) Começou por querer retirar alguns dos direitos aos trabalhadores que haviam sido acordados por ambas as partes no final de 74 e querendo que a C. dos Trabalhadores concordasse com o processo, coisa que a C. T. não fez!b) Avançar de seguida para um processo mais radical e eficaz, procurando que fossem os próprios trabalhadores num plenário a destituir a C.T., com o argumento de que só ainda não tinham pago a participação nos lucros, ( fazia parte do acordo interno ) por culpa da C.T.

Já no final do Plenário, alguns desses mobilizados avançaram com a proposta que tinha dois pontos: Propôr à C.T. que se demitisse e caso não o fizesse seria demitida pela Assembleia. É evidente que nenhum dos cinco se demitiu, e, explicaram, que se tratava de manobra do patronato, mas mesmo avisados, a maioria expulsou as cinco pessoas honestas da C.T.

O meu bom amigo, ainda se manteve nessa empresa até 1981, ano em que bateu com a porta, mas até lá, ainda assistiu a uma série de tropelias do patronato para com os trabalhadores mais humildes e como não podia deixar de ser, contra aqueles que foram sempre fiéis aos princípios dos acordos e que o patronato "rasgara" em pedaços, logo que começou a ter condições. Já em 1980, este mesmo patronato teve o descaramento de nas horas de trabalho chamar ao seu gabinete este nosso amigo e ao mesmo tempo que lhe lembrava ser um bom profissional, mas que já estaria a ganhar menos que os porteiros e só lhe dava duas alternativas:- a) Dentro das suas empresas não podia permitir que houvesse alguém a defender os trabalhadores e logo que o deixasse de fazer, teria um bom lugar como contra-partida; b) Caso não aceitasse a sua proposta, iria ter uma grande surpresa, sem chegar a concretizar a ameaça...

Nunca mais houve contactos e passado algum tempo o meu amigo despedia-se do seu chefe directo, dos trabalhadores e da empresa e hoje, passados trinta anos, está seguro que honrou o compromisso que assumira ao assinar o Acordo em fins de 1974 e por isso sente-se tranquilo, só sente uma angústia por se ter apercebido na época, que o tempo dos humildes havia regressado, e, isso doeu, e, ainda hoje, sente alguma saudade, quando recorda que os donos dessa empresa, apelidavam de REVOLUCIONÁRIOS os poucos trabalhadores que nunca vergaram!...

Será que esta história verídica e que em traços gerais o meu bom amigo, já na reforma, me contou, explicará em parte os caminhos curtos e aparentemente aveludados, que cativam os portugueses até às mesas de voto e que não passarão de belas encenações com direito a cumprimentos e a sorrisos, não farão parte, em alguns casos, de um aliciamento que nos poderá conduzir para caminhos longos e pedregosos e com consequências difíceis de avaliar?!...

Não valeria a pena reflectir, pelo menos reflectir?!... Os factos estão aí...

domingo, 21 de março de 2010

AS "nossas" MENTIRAS e as dos OUTROS!...

Vamos falar claro, procurando falar verdade, se possível!...
Por me parecer interessante, começo por contar uma pequena história, que apesar de simples merece ser contada:

« O final da manhã de hoje estava calmo e decidi entreter o olhar pelo meu jardim, porque espero com alguma ansiedade a chegada da Primavera, uma vez que já fiz o que devia ser feito, resta apenas a relva começar a despertar para a vida e o mesmo se espera do que foi previamente e carinhosamente enterrado pelos espaços do jardim, esperando, que o nosso empenhamento e o carinho que pusemos em todas as acções, venham a ser compensadas com os melhores resultados, que esperamos ver através de uma relva pujante e ainda mais verde, bem como de flores e rosas mais belas e mais perfeitas, porque temos sempre presente na nossa mente o sentido da exigência até para com a Natureza, talvez, sabe-se lá, por querermos que tudo à nossa volta devesse ser belo e perfeito, imaginando fazer parte de um outro mundo, que não descambasse, nunca, para o "abismo" ...
Só que pensamentos destes, acontecem a toda a gente e daí não vem mal ao mundo, valem o que valem e até nos ajudam a desvanecer, retirando do nosso cérebro outros estados de alma que só nos desfavorece e que dispensaríamos de muito bom grado... De repente, fui "sacudido" e "acordado" para a vida real em resultado de um estrondo característico de uma árvore em queda e o som provinha de um pinhal, que existe na continuidade do meu jardim e como tinha excelente visibilidade, fui capaz de localizar a árvore que caíra, mas continuei a achar muito estranho o silêncio que continuava instalado em toda aquela área e fiquei estático uns dois minutos, na espectativa de ver surgir "alguém" que estivesse agachado naquele matagal, porque sempre acreditei que era mais uma crueldade de algum humano... Como tudo continuava calmo, silencioso, decidi avançar até ao local e dou de caras com a árvore arrancada pela base, mas pelo que pude observar, o acidente foi provocado por todo este mau tempo e que terá tido a sua origem num Atlântico, que, de longe a longe, perde grande parte da sua passividade e faz-nos recordar outros mares e outras latitudes . »

Fiquei mais aliviado e senti alguma felicidade, por perceber, que no caso presente, o ser humano não merecia ser culpabilizado, sim, porque cada dia que passa o rol de crueldades e de acusações aumenta, vindo de todos os cantos da Terra, ao mesmo tempo que vemos a ser esgrimidos argumentos, na tentativa de tentar « TAPAR O SOL COM A PENEIRA », coisa que até hoje não foi conseguido, mas os humanos, por vezes, surpreendem-se a si pròprios...
Os casos de pedofilia, contam-se aos milhares e vêm de longa data, atingindo instituições como a igreja Católica, que terá escondido para "debaixo do tapete", mas que agora vai ter grandes dificuldades para dar explicações convincentes aos seus seguidores e ao resto do planeta, se, entretanto, não optar mais uma vez por ignorar, ou então seguir o caminho da mentira, quando no passado afirmou que esta igreja era santa, mas já se ouvem alguns teólogos a mudar o discurso milenar, ao catalogar, agora, a mesma igreja de santa e de pecadora!... A desculpabilização já estará em marcha, mas a dignidade está ferida de morte, enquanto os milagres irão continuar, possivelmente, na vã tentativa de contrabalançar o errado!...
Todo o ser humano, que duma maneira ou de outra, aspira a um mundo menos desigual e sem as chagas da pedofilia e de outras barbáries, sentir-se-á desassossegado, mas terá de buscar forças mesmo que elas já não existam, porque sempre vai haver gente de BEM, que será sempre a maioria e que terá o descernimento do poeta brasileiro Affonso Romano de Sant'Anna que foi o autor deste belo poema, sempre tão actual e que quero de todo o coração dedicar a todos os meus conterrâneos, com um carinho muito especial para o Manuel Araújo da Cunha e para o Valdemar Marinheiro, pela forma dedicada e continuada na divulgação da nossa linda zona do Douro e das suas boas gentes:
Deliciem-se, a seguir, com uma parte deste belo poema, que reputo de sublime e ainda por cima tão actual, para constrangimento nosso!...
A IMPLOSÃO DA MENTIRA
_____________________________
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
_____________________________
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
____________________________
Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
____________________________
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
(....e continua...)

sexta-feira, 5 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

Continuação ( V )
A actual e futuras gerações que tomem conta destes factos, vividos e sofridos pelos seus antepassados recentes, para que percebam da importância que a viragem que o 25 de Abril veio possibilitar, e, que, a não ter acontecido, não teria dado sequer a hipótese ao autor deste testemunho, se ter apercebido minimamente, de que assistiu aos factos, que participou neles e que fez parte duma sociedade ludibriada, e, o que ainda dói muito, é verificar, mesmo hoje, que ainda há pessoas, alguns são até nossos amigos, mas que ainda não se terão apercebido, que tal como eu, apenas tiveram direito a DEVERES, vivendo na mesma época de CINQUENTA!
Como é bom referir aqui, as provas de lealdade e de companheirismo para com todas as gentes desta vasta zona, por parte do grande rio Douro, do velhinho Arda e do pequeno mas muito útil rio Mau, sem esquecer aqueles saudosos moinhos, assim como toda a vasta e amiga floresta, que, no seu conjunto, tanto ajudaram a suavizar as tremendas dificuldades com que esta esforçada gente foi sendo "brindada" ao longo de décadas!... Só um tresloucado, ou um imbecil, que sempre aparecem ao longo da história dos povos, lhes poderia atribuir culpas, pelos desencantos e sobretudo pela felicidade que sempre escapou aos povos destas lindas aldeias, mas se quisermos ser honestos, por uma vez que seja em toda a nossa vida, iremos encontrar todas essas culpas em seres humanos, que se venderam a troco de quase nada, mas a História irá colocá-los no sítio onde vão parar todos os que merecem ser esquecidos e a nós, os que acordamos para a vida, só nos resta um caminho decente, que passa por alertar os nossos e os filhos dos outros, de que é muito perigoso permitir que a IGNORÂNCIA se volte de novo a instalar na nossa sociedade, porque a seguir é extremamente fácil retirar os DIREITOS e exigir apenas os DEVERES!
A terminar, comove-nos poder voltar a imaginação para umas remadas no maravilhoso Douro ou nos seus afluentes, na companhia de um dos "resistentes" Valboeiros e recordar como foi solidária a sua ligação de muitos e muitos anos com as gentes humildes da região mineira, em que ambos sempre ganharam, sem necessidade de alguma vez ter de ser redigido um qualquer documento entre as partes, já que o respeito mútuo era inequívoco e inquestionável! Está provado que qualquer rio é menos agressivo e mais previsível que o mais pacífico dos seres humanos...
Já não nos espanta, os muitos factos desagradáveis, e, que bem diferentes, para melhor, poderiam ter sido, mas enquanto os rios têm milhões e milhões de anos, os humanos terão a insignificante idade de cento e poucos milhares de anos, o que desculpa, em parte, muitos dos erros que ainda vão cometendo contra si próprios... E até quando?!...
OBRIGADO RIO DOURO!
FIM da 5ª e última REMADA!
UM ABRAÇO PARA TODA A REGIÃO MINEIRA DO PEJÃO!

quinta-feira, 4 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

( Continuação IV)
Seguramente que é aqui que vamos encontrar o grande défice, e, que explica, o que de menos bom sucedeu a toda esta gente, a quem não foi permitido evoluir para o conhecimento, numa época em que o carvão era uma das principais energias que fazia movimentar grande parte da economia deste país, e, até havia quem apelidasse o carvão de OURO NEGRO!... Houve como que o cuidado de atribuir salários baixos e muito más condições de trabalho a quem trabalhasse nas minas e como a indústria nacional necessitava muito desta matéria prima, "alguém" teve a ideia "brilhante" de atribuir uns prémios para juntar aos magros salários, mas só àqueles mineiros que produzissem para lá de um mínimo estabelecido... Estas jogadas e outras, aliadas ao analfabetismo latente e à falta de informação, que o regime de partido único, não permitia, contribuiram, no essencial, para a infelicidade de mineiros e suas famílias, quando havia todas as condições objectivas para que nesta região se vivesse dentro de padrões aceitáveis e sobretudo dignos...
O domingo, que era o único dia de descanso do mineiro e dos outros trabalhadores começava bem cedo, com uma missa pela manhã, a que se poderia juntar a reza do terço de tarde, ou então uma tarde de pesca no Douro, ou no Arda, ou um jogo de futebol ao vivo, que, a acontecer, daria para se encontrar com os amigos da semana, e, no final do mesmo, poder confraternizar com esses amigos e com outros, numa das muitas tabernas da sua aldeia, onde, mais uma vez, discutiriam os mesmos assuntos, de reduzidíssimo interesse, até que o final do dia convidava a tomar o caminho de casa, e, desta forma rotineira e culturalmente adversa, terminava mais uma semana, em que não se previligiou culturalmente a mente, com uma ida ao cinema ou ao teatro, ou a simples leitura de um livro dos autores portugueses mais consagrados, nem sequer uma ligação mais afectiva aos filhos e à esposa como seria aceitável e até desejável!...
Moral desta história:« É fundamental perceber que o trabalho, só por si, sem DIREITOS, não dá dignidade a ninguém, porque se assim fosse, os escravos não precisariam de aspirar pelo fim da escravatura, porque já teriam atingido o topo da dignidade possível, quando todos sabemos que foi precisamente o inverso»...
FIM da 4ª REMADA ( continua )

terça-feira, 2 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

( CONTINUAÇÃO III )
Será muito interessante abordar neste raciocínio as várias actividades, que, na época, representaram um papel fundamental na vida diária destas gentes e começaremos precisamente pelos moinhos, que, montados de forma engenhosa, aproveitavam o "desvio" de parte da água dos afluentes, nas duas margens do rio Douro, para possibilitar, por um processo simples e barato, a moagem de todos os cereais que entravam na composição do pão de milho, que era a base da alimentação das famílias humildes!
Outras actividades de extrema importância, estão ligadas à rica e abundante floresta de toda esta zona de baixa montanha, aonde as famílias humildes iam buscar, quase diariamente, aqueles desperdícios de lenhas com que faziam todos os cozinhados, numa lareira granítica e arrumada ao fundo e no ponto mais central da cozinha e onde todos se aqueciam nos invernos, sempre rigorosos, enquanto a cozedura do pão de milho, tinha lugar, uma vez por semana, num forno de tijolo e barro, bem encostado a um dos cantos da cozinha...
Da mesma floresta, trazia-se ainda o mato rasteiro com que os lavradores, pequenos caseiros e a generalidade das famílias faziam as "camas" de bois, vacas, suínos, galináceos, coelhos, ovelhas e cabras, para que algum tempo volvido, pudessem ter o proveito de sacar dali, o "belo" estrume com que adubariam as terras de cultivo e donde esperavam colher uma parte substancial da alimentação familiar!
As excelentes árvores de pinho e de eucalipto, criadas nesta floresta, e, em que uma boa parte das maiores e mais bem compostas "sortes" pertencia a duas ou três casas abastadas das aldeias, que, só muito raramente procediam ao seu abate, e, assim, ao entrar na floresta qualquer cidadão ficaria elucidado sobre o dono dessas "sortes", só pelo porte desproporcionado das referidas árvores!... Ao contrário, as "sortes" dos restantes donos, na altura certa, lá sofriam o corte necessário e as suas madeiras seguiam pressurosas a abastecer as fábricas, para ali ser transformadas em pasta de papel, ou, então, seguiam directamente para fazer os escuramentos nas galerias das minas do Pejão, outro dos destinos prováveis e de longe a actividade mais empreendedora de toda a região, com uma ocupação superior a mil postos de trabalho, só na Carbonífera!...
Depois de todo este grande empenhamento durante décadas e do grande esforço físico dispendido, absolutamente comum a todas as aldeias periféricas das minas do Pejão, e, que, ao fim e ao cabo, podemos considerar como fazendo parte dos seus DEVERES, apetece, e é justo que perguntemos:

« E quais foram os DIREITOS com que contaram?!»

FIM DA 3ª REMADA ( Continua )

segunda-feira, 1 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

(CONTINUAÇÃO II )
Na outra margem do Douro, quase em frente a Pedorido, escondia-se a ribeira de Rio Mau, de menor dimensão, mas igualmente trabalhada a gosto por pequenos lavradores, que, procuravam tirar o melhor partido daquelas terras ribeirinhas e que se estendiam até ao sopé da serra da Boneca, contornando todo aquele sinuoso vale na companhia do pequeno e inseparável afluente rio Mau, aqui e ali com marcas de alguma violência de invernos passados, mas como que retraído, e, por vezes escondido, segue agora sem pressas, acabando por entregar duma forma mais suave as suas águas ao grande rio Douro no lugar da Foz!
Mas, se agora acompanhássemos as correntes velozes do Douro, íamo-nos deparar um nada mais abaixo com Melres e a sua ribeira, de boa dimensão, paralela ao rio e ao grande areal, desafogada e airosa, porque a serrania ali tivera a "sensatez" de se arrumar para zonas mais afastadas do Douro, como que a criar as boas condições naturais para o surgimento, milhões de anos mais tarde, daquela linda e plana localidade, coisa invulgar em todo o sinuoso vale que vínhamos seguindo rumo ao Atlântico...
Melres, também ela terra de lavradores, pescadores e mineiros, devido à grande proximidade das minas do Pejão em Germunde, mas onde a lavoura e a pesca no Douro tinham grande expressão, assim como o comércio tinha ali um certo destaque, já que uma vez por mês ocorria lá uma feira que mobilizava as gentes das terras vizinhas, de ambas as margens do rio Douro, e, as travessias de barco, naquela época, nunca foram problema... Depois uma menor distância para a Cidade Invicta fazia a diferença, e, aquela gente, tão ligada ao rio, tinha ainda a dupla vantagem com esta proximidade por terra àquela cidade do litoral nortenho!
Convém aqui relembrar, que, nos anos cinquenta, se trabalhava de segunda a sábado e que mais de noventa por cento das pessoas desta vasta zona do Douro se movimentava a pé, não só para o local de trabalho, mas também para as outras tarefas necessárias, como ir ao médico, à farmácia, à igreja,à feira, às compras na Cooperativa, etc.; curiosamente, passar duma margem do Douro para a outra, era na época, coisa fácil e até rotineira, bastava que houvesse motivo, devido às várias travessias em actividade em todas as localidades e onde o barqueiro de serviço podia muito bem ser uma mulher, e, isto, era válido para o dia, como para o início da noite!... No inverno e com as grandes cheias do Douro as coisas "mudavam de figura", e, aí, só quem tivesse necessidade continuava a fazê-lo, porque os barqueiros eram experimentados e nas suas mãos os pequenos Valboeiros tornavam-se leves e rápidos, ou era essa a sensação que ficava nas nossas mentes e depois não se podia faltar ao trabalho, ou ao que quer que fosse...
Todo este labor, levava forçosamente a que as pessoas se encontrassem diariamente na Carbonífera e duma forma regular na igreja, nas capelas e nas procissões, nos funerais, nas tabernas, nos bailaricos, na pesca, na feira, na cooperativa de consumo, nas festas, no futebol, nos rios e seus areais, nos campos e nos montes, no hospital das minas em Oliveira do Arda, e, até as bandas de música contribuiam com o seu despique em arraiais populares, para um novo tipo de encontro, capaz de despertar, por vezes, sentimentos de índole bairrista, mas, todas estas vivências com o decorrer dos anos, ajudavam a criar laços de profunda amizade entre as gentes de todo o Couto Mineiro e que ainda se vão mantendo bem vivas, não sendo raros os casos, em que outras amizades deram mesmo em casamento entre jovens de ambas as margens, e, tudo isto acontecia com muita frequência e jamais a separação natural provocada pelo rio Douro serviu de impedimento a grandes amores, quando tiveram que acontecer!...

FIM DA 2ª REMADA ( continua ))mmmmMm

domingo, 28 de fevereiro de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suasGENTES!

A década de Cinquenta em toda a zona do Couto Mineiro do Pejão é consensual, quanto a ser reconhecida como uma época de muita ocupação, onde a exploração mineira tinha na Carbonífera, de capital belga, o seu maior empregador, e, quase que podíamos dizer, à falta de dados estatísticos, que haveria pleno emprego em toda esta vasta região, muito embora se tratasse, em larga medida, de trabalhos duros e até perigosos e para cúmulo muito mal pagos... Daí, e, por via dessas duras realidades, a emigração para outros países esteve sempre na mira de uma parte dos seus habitantes, e, naturalmente, na década referida também não houve excepção.
Já deu para perceber, que o dia a dia destas gentes por cá era muito difícil, agravada ainda com o facto de serem famílias dum modo geral muito numerosas, devido ao elevado número de filhos, cujo "mérito" vai inteirinho para o "trabalho" persistente da igreja Católica, que dos altares fazia das homilias dominicais um dos seus temas preferidos, recorrendo amiudadas vezes com a ameaça do inferno, procurando por aquela via, incutir nos crentes da existência de uma outra face num Deus infinitamente bom, mas, que, afinal, também poderia ser castigador...
Em resultado de tantas dificuldades diárias, a lavoura ocupava não só os pequenos lavradores e caseiros mais humildes, mas dum modo geral os mineiros e também os barqueiros, pescadores e outros, que se "entretinham" com a feitura anual da sua lavoura e de alguma pesca no grande rio Douro e nos seus pequenos mas importantes afluentes, como era o caso do "velho" e muito amigo Arda, responsável por manter todos os anos uma ribeira pujante e capaz de ajudar, com o que ali se criava, uma parte dos habitantes das aldeias vizinhas dos seus vales - sempre verdes em todas as estações - e que eram por ordem ascendente Pedorido, Oliveira do Arda e ainda Folgoso...
As famílias que todos os anos trabalhavam aquela ribeira do Arda, sabiam que não precisariam de adubar muito aquelas terras, porque as cheias anuais do Douro já o haviam feito em grande medida, com os variados e ricos sedimentos ali deixados ao longo das cheias de Inverno, e, se, a seguir, lhe somarmos na altura devida o trabalho dos homens, dos bois e do arado, e, lá mais para diante com a abundância da água do Arda, que, eram por esta ordem, os grandes responsáveis pelas boas e saudáveis colheitas de milho, feijão, vinho e até de saborosas melancias!
O Arda servia ainda de piscina durante os meses mais quentes do ano a uma juventude masculina, que, na Passaria, se entretinha a aperfeiçoar os dotes naturais de nadadores e sobretudo de saltadores, já que ali, a altura das águas assim o permitia; além do mais, este afluente tinha outras "virtudes" de interesse e estamos a referir-nos à segurança que oferecia aos "banhistas" por um lado, e, à lisura das suas águas por outro, e, era, seguramente, devido a este último factor, que as mulheres e as raparigas desde o Alto Picão, aqui se encontravam regularmente, para em sítios bem escolhidos do baixo Arda, se empenhar determinadas a lavar e a branquear as roupas bem sujas dos mineiros e de toda a numerosa família!
FIM DA 1ª REMADA ( Continua )

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

INTOLERÂNCIAS RELIGIOSAS NOS ANOS CINQ.! (1ª PARTE)

Todos nós já nos apercebemos de que há, por vezes, momentos históricos em que até as religiões se vêem tentadas a usar métodos autoritários e grosseiros, tentando a todo o custo fazer com que as comunidades adoptem posturas e caminhos definidos por quem superintende nessas religiões, esquecendo-se esses dirigentes, que, quase sempre, até são doutorados, de que a adesão a uma prática religiosa é antes do mais um direito de cidadania livre e que ninguém, por mais humilde que seja, poderá ser obrigado a aceitar práticas ou comportamentos indesejáveis para a sua condição de ser humano!
Sabemos agora que isto é básico, mas nos anos Cinquenta o comum dos cidadãos em Pedorido desconhecia este e outros direitos e o resultado está à vista, com os casos que passamos a relatar e que não deverão ser escondidos para "debaixo do tapete" por irresponsabilidade, admito, mas também por parte da Instituição que agora não quererá admitir que falhou e não basta a desculpa, que tanto jeito dá nestas ocasiões, de procurar atirar as culpas para esse passado negro, ao optar por um silêncio comprometedor, quando se sabe que todas as religiões herdam sempre o que se fez de bom e de menos bom até ao presente...
Vamos aos factos:
«As secas nos anos Cinquenta, a partir do mês de Abril aconteciam com um rigor tal, que punham em desespero os lavradores e caseiros mais humildes que viviam de uma agricultura de subsistência, mesmo contando com o melhor quinhão da ribeira do Arda, que resistia muito bem à canícula e porque ali a água nem sequer era problema, já que o "velhinho" e amigo Arda sempre fora solícito na colaboração...
Mas quem dirigia a igreja católica na aldeia, entendia que também tinha uma palavra a dizer, e, quando a seca persistia, lá se prontificava a levar a cabo umas procissões que largavam da igreja lá no sopé junto ao Douro, rumando com alguma ligeireza até às zonas mais altas e mais afectadas, ao mesmo tempo que rezavam ou entoavam cânticos com o fim de ser escutados por um Deus que fosse receptivo e generoso, como lhes convinha...
Só que este tipo de prece religiosa pode ter um ou outro inconveniente, uma vez que se trata de uma exposição pública, de contacto com a natureza e onde é sempre possível o imprevisto acontecer, quando se desfruta durante muito tempo de cenários diversos e de grande beleza, e, pode muito bem suceder um ou outro caso de desconcentracção, como foi o caso da mulher de um dos humildes caseiros da aldeia, quando não pôde evitar em determinada situação um largo sorriso, porque terá achado divertido a algo que os seus olhos terão apreciado momentâneamente; só que em resultado dessa "boa disposição", teve que aguentar com uma bofetada do abade, que na frente dos presentes quis mostrar todo o seu autoritarismo e uma grosseria que na época não teve consequências!... »
As décadas foram passando, mas os que estão ainda vivos registaram e lembram, que, no mínimo, o que deveria ser feito por quem superentende na diocese, se é que ainda não sucedeu, seria um pedido de desculpas à comunidade católica desta honrada aldeia e sobretudo aos familiares dessa honesta mulher, que, seguramente, terá ainda filhos e netos vivos, sabendo nós que alguns dos filhos já terão falecido.
A vingança e a raiva são sempre desaconselháveis, mas reconhecer os erros, só dignifica os Homens e as Instituições, porque é muito antigo e ainda não foi desmentido por nenhum sábio o provérbio que diz:« MAIS VALE TARDE QUE NUNCA...».
( CONTINUA )
RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!
UM ABRAÇO DO TAMANHO DO " VELHINHO " ARDA!



domingo, 14 de fevereiro de 2010

QUE EDUCAÇÃO RELIGIOSA?! EXEMPLIFIQUEMOS!...

Continuando ainda nos anos Cinquenta para abordar desta vez o tema da religião, que era na época, ainda é hoje e no futuro ainda promete ser, fonte de profundas divisões e discórdias entre os povos, porque todas as religiões teimam em apresentar-se como detentoras de verdades absolutas e inquestionáveis, gerando-se a partir daqui estados de discussão intermináveis, sem cedência efectiva de nenhuma das partes, originando ódios recíprocos, enquanto que de quando em vez, vamos assistindo a umas quantas invasões, normalmente sem aviso prévio, de modo a inflingir no "inimigo" ataques de uma crueldade e de uma desumanidade, que, fazem, no mínimo, corar de vergonha todos os humanos que já perceberam e aceitam, que o respeito pelos outros é o mínimo exigível que pode e deve ser feito...
Entretanto, voltemos uns anos atrás e a Pedorido para tentarmos perceber como é que a religião era vivida naqueles tempos por pais, filhos e pela restante comunidade.
No final dos anos Quarenta é aqui construída uma igreja nova, muito mais ampla no seu interior, cortando de vez com as capelas exíguas do século XVIII e XIX, optando agora por uma construção de base granítica, que, como se poderá verificar em todo o seu exterior é a garantia de uma robustez que ninguém ousará pôr em causa...
Começamos por clarificar que estamos a falar da religião Católica, aliás, a única que se praticava, não só nesta aldeia, como nas demais aldeias do Couto Mineiro!
De resto, essa questão nem sequer se colocava na época para os responsáveis católicos, que, "jogavam", pensamos nós, com o desconhecimento geral, ao mesmo tempo que tiravam daí o proveito, sabendo, todos nós, como é bem mais fácil conduzir um "rebanho" que não vai levantar questões, se à partida desconhecer que no resto do mundo há povos a seguir outras religiões, umas mais próximas do catolicismo, outras nem por isso e que todas somadas darão um número de vários milhares, se lhe juntarmos as seitas, que, entretanto, não se cansam de aparecer e que também têm arte e engenho para captar adeptos e seguidores!...
É curioso referir aqui que havia uma família que viveria lá para a cidade do Porto e que todos os anos pelo Verão, vinha passar as suas férias para uma casa no lugar do Valpaço e que era conhecida pela "casa dos protestantes" ou ainda por "casa dos maçónicos", mas tudo isto era dito sem rigor algum pelas gentes da terra; a única coisa que podemos afirmar, é que eram pessoas que passavam todo esse tempo de férias dentro dos limites da sua propriedade e que eram muito simpáticas a dizer o bom-dia, ou a boa-tarde, às pessoas que por ali passavam e ficavam-se por aí...
Entretanto, quem dirigia os destinos da igreja, preocupava-se antes do mais em manter activo um programa para todo o ano, que tinha repetição nos seguintes, por forma a "obrigar" todas as famílias a uma ligação militante, desde as missas diárias até às confissões e comunhões mensais, procurando a adesão dos pais e filhos, passando ainda pela catequese, pelas procissões, pelas novenas e com semanas de pregação, efectuadas por abades de outras paróquias, que "batiam " em temas escolhidos a preceito, havendo sempre o cuidado de arrumar dentro da igreja, as mulheres a um lado e os homens a outro, exactamente igual ao que era a prática nas escolas públicas em todo o país!... As semelhanças com os métodos, usados pelo regime político e pela religião católica, eram por demais coincindentes, sonegando não só uma sã formação religiosa às pessoas, como também a falta de informação contribuia com que estas aceitassem como certas todas as "ordens" emanadas do altar!...
Os pais eram assim "educados" a mandar os filhos bem cedo para as cerimónias da igreja, mesmo que ocorressem à noite e que poderiam ir até às vinte e três horas... Só falta clarificar que eram no essencial filhos de mineiros, de barqueiros, de lavradores, de pescadores e de pequenos caseiros, que, juntamente com uma parte significativa de pais e avós - sempre os mais assíduos - eram o suficiente para "arranjar" boas "assistências"!
Mas, apesar do controle efectivo sobre a comunidade, lá vem o dia em que a "coisa" descamba e o impensável acontece... É assim, que numa das novenas de Maio, ali por meados dos anos Cinquenta, quando a rotina "imposta" parecia vingar por mais um dia, surge o inesperado... e que passamos a contar:
« O padre convidado para o sermão daquela noite, já estava há algum tempo a desenvolver o tema que escolhera, utilizando o púlpito adequado e que ficava do lado dos homens - mais uma coincindência - sensivelmente a meio da igreja, quando resolve esplanar uma das suas ideias e perguntar a si próprio mas em voz alta:

... E QUANDO É QUE NÓS MORREMOS? SIM, QUANDO É QUE NÓS MORREMOS?...

Aqui, faz um pequeno compasso de espera e... acto contínuo, uma voz de homem, irrompe da assembleia e de forma célere "dispara" a seguinte resposta:

... QUANDO DEUS NOSSO SENHOR QUISER!...

O pregador "requisitado" para aquela noite, que não esperaria nunca vir a ser interrompido, por uma vez que fosse, acusa a surpresa da intromissão e notou-se algum embaraço, porque vagueou para outras conjecturas, até lá encontrar de novo o rumo que trazia em mente e prosseguir com o sermão, para mais adiante voltar a questionar-se, mas desta vez com uma pergunta muito directa e sobretudo muito incómoda para os católicos:

... E SE NÓS FORMOS PARA O INFERNO?... E SE NÓS FORMOS PARA O INFERNO?..

Aqui a mesma voz e o mesmo homem de instantes atrás, que não havia mudado de lugar nem de posição, responde sem vacilar e de forma decidida:

... DEUS NOSSO SENHOR NOS LIVRE DE LÁ!...

O abade pregador voltou a "acusar" a segunda intromissão, mas duma forma menos surpreendente e foi mais ágil a controlar o embaraço, para voltar a "encontrar-se" e ao sermão que traçara para aquela noite, mas até ao final não ousou formular mais nenhuma pergunta, pensamos nós, para não correr o risco de voltar a ser de novo interrompido por aquele nosso conterrâneo, que além de uma vida difícil dedicada aos barcos e ao rio Douro, sempre deu mostras de alguns conhecimentos bíblicos - caso muito raro na aldeia - e de uma certa "queda", para em momentos "mais inspirados" fazer questão de "oferecê-los" aos seus conterrâneos, fazendo-o por mote próprio e quando lhe aprouvesse, sem nunca cobrar um vintém, imitando as práticas de Cristo de há dois mil anos!...

NOTA: Foi com alguma saudade que trouxemos até este espaço a recordação de um pedoridense simples e honesto, de quem guardamos boas memórias e a quem prestamos uma justa homenagem e que em vida se chamou Agostinho Tavares!

RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!

UM ABRAÇO PARA PEDORIDO!

domingo, 24 de janeiro de 2010

QUE TIPOS DE EDUCAÇÃO?!... UM EXEMPLO!...

Contam-se muitas histórias, algumas delas muito antigas e que acabam por criar nas nossas cabecinhas, naturais dúvidas sobre a sua autenticidade; daí, também não virá grande mal ao mundo, sobretudo se pecarem por falha no rigor do tempo, visto que mesmo os métodos mais avançados de que hoje os cientistas se servem, também os levará a cometer erros, que, embora mínimos, não deixam de o ser...
Entretanto, surgem as outras histórias mais recentes, que dizem respeito aos humanos e que nos contam como se terá desenvolvido a História dos Povos, já com datas mais precisas, sobretudo nos últimos milhares de anos e até aos nossos dias.
Tudo isto, para concluir, que as coisas nunca foram estáticas e as mudanças não pararam de acontecer, até, porque, os intervenientes também foram sendo substituidos e as regras alteradas, de acordo com novas filosofias, ou ainda, porque as novas realidades a isso obrigaram os de ideias fixas e a sociedade em geral, que, não raras vezes, também viu a sua oportunidade surgir em forma de flash, onde passou a desempenhar, um papel de árbitro, influenciando as decisões para qualquer dos lados...

Vamos a caminho de atingir os setenta anos e pela parte que me toca, acho que será boa altura não só para reflectir, mas, sobretudo, para poder transmitir com algum rigor, até para se poder comparar com os dias de hoje, como era exercida a paternidade nos anos Cinquenta e Sessenta; poderia contar várias histórias de rajada, mas parece-me que não seria um bom método para começar, porque daria aso a que se baralhasse e perdesse o "fio à meada".
Começo por uma pequena história que vivi no final dos anos Cinquenta, que diz bem da relação entre pais e filhos, teria na época os meus dezassete anos:
«Naquele domingo um amigo meu de Pedorido, uma semana depois da Páscoa, convida-me para seguir com ele até um pequeno lugar da freguesia de S. Miguel do Mato, onde segundo ele, teria lugar a festa em honra de S. Lázaro, e, que, presumo, já conheceria de anos anteriores, mas que para mim era uma estreia absoluta; apesar de nunca ter feito uma incursão no terreno para o interior e para uma localidade que distava do Douro uns bons dez quilómetros, nem isso me levou a rejeitar tal convite e a seguir ao almoço arrancamos a pé com a melhor das disposições rumo a S. Lázaro e à festa, porque acreditava que na companhia de um amigo com mais seis anos e com tamanha experiência, tudo iria começar e acabar bem.
O caminho, que mais foi uma caminhada, até se fez bem, pondo de parte a monotonia que desde o início até ao lugar da festa tivemos que suportar, já que nem sequer um ser humano haveríamos de encontrar, enquanto íamos deixando para trás terrenos acidentados e inóspitos com serranias carregadas de arvoredo e do mais variado tipo de vegetação rasteira, sabendo nós que o Arda não correria por vales muito distantes, sem, contudo, nunca lhe pôr o olho em cima, mas, claro, sabíamos que pisávamos terrenos de Arouca...
Chegamos ainda frescos ao pequeno lugar todo engalanado, tendo a capela um lugar de destaque, devido ao dia festivo, e, notava-se, uma pequena onda de forasteiros que se divertiam pelos arruamentos mais próximos da capela, enquanto que muitos outros procuravam cumprir primeiro que tudo as promessas feitas ao santo e que ali se teriam deslocado por via disso!
Já para o final do dia, eu e o meu bom amigo, havíamos de tornar as coisas bem mais difíceis, quando resolvemos meter conversa com duas moças, para depois decidir acompanhá-las a pé até à sua aldeia, que distava uns seis quilómetros, ou mais, do local da festa; depois de as termos deixado na sua terra natal, conforme fora nosso propósito, encetamos o caminho de regresso, com a noite a surgir como mais um obstáculo e que se vinha juntar ao caminho longo e difícil a percorrer, mas que tinha de ser feito; recordo, que voltamos a passar de novo por S. Lázaro, às primeiras horas da noite, onde reinava agora um sossego e uma calmaria próprios de uma aldeia fantasma, uma vez que já não se via viv'alma fora das habitações e a noite escura tornava agora aquele pequeno lugar num sítio adormecido, sem vida, se compararmos com o bulício de horas antes, e, agora, já começávamos a sentir algum cansaço e um certo desconforto moral, porque sabíamos que ainda tínhamos pela frente a derradeira caminhada final de mais dez quilómetros, para, finalmente, reencontrar a nossa querida aldeia, ali bem sobranceira ao rio Douro e defronte a Rio Mau na outra margem, que, até à noite, teima em manter a beleza e uma singular altivez, sem paralelo nas aldeias mais próximas e que imaginamos ter herdado das suas gentes primitivas e que se têm vindo a solidificar ao longo dos tempos!...
Para felicidade nossa e quando atingíamos as fraldas da serra do "Cámouco", prestes a entrar em terrenos paivenses, o luar resolveu em boa hora aparecer e foi uma abendiçoada companhia de que estávamos a necessitar, e, que, logo de seguida, até nos presenteou com uma represa de água límpida e a transbordar, que aproveitamos para saborear, porque além de fresquinha, vinha mesmo a calhar!... Esta bebida, veio dar-nos o impulso de que precisávamos para o resto da viagem, mas assim que atingimos o alto do Picão, fiz saber ao meu bom amigo, que devido ao adiantado da hora, seriam umas onze horas da noite, iria ter uma outra tarefa ainda mais difícil pela frente, porque teria que enfrentar os meus pais e a seguir contar-lhes toda a verdade, sabendo de antemão, que o meu pai era uma pessoa bastante rigorosa e que não iria pactuar com chegada tão tardia, mesmo que se tratasse da primeira vez, como era o caso!...
Ao chegar muito próximo da casa paterna, já sem a companhia do meu amigo, pude verificar que as luzes do exterior estavam todas acesas, os meus pais no terraço à minha espera e à espera das minhas justificações; contei-lhes toda a verdade e nem sequer omiti a minha companhia, que os meus pais bem conheciam. No final das minhas explicações o meu pai repreendeu-me com as seguintes palavras:

- POR SER A PRIMEIRA VEZ QUE TAL SUCEDE, O ASSUNTO POR HOJE FICA POR AQUI!...

E mais não disse, embora viesse a saber pelo meu amigo uns dias depois, que o meu pai procurara confirmar junto dele a veracidade da minha justificação!

NOTA: Esta história acaba também por ser uma simples homenagem póstuma àquele meu amigo de caminhada e que em vida se chamou Manuel Tavares, muito popular em toda a aldeia e que pouco tempo depois foi emigrante em FRANÇA!

RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!

UM ABRAÇO PARA LÁZARO, PEDORIDO E RIO MAU!