sexta-feira, 16 de abril de 2010

OS VERDES E AS FLORES DA PRIMAVERA!

Agora que as temperaturas "acalmaram," as caminhadas ou uns simples passeios pedonais permitem-nos apreciar e mesmo contemplar como bela é a Primavera!
Com toda a certeza que as árvores terão os portes da nossa meninice e o verde será o mesmo, mas também é verdade que uma ou outra espécie serão uma novidade, vindas sabe-se lá de onde, mas muito provàvelmente de algum ponto do nosso litoral, ou então dum dos muitos locais do nosso interior, estou a lembrar-me do Gerês, onde há uns anos atrás me recordo ter visto certas plantas e até árvores que foram novidade e que a altitude, as temperaturas amenas e a humidade explicarão bem melhor que quaisquer outras conjecturas...

É bem verdade, que há uns cinquenta anos atrás, só nos grandes centros urbanos e nas principais cidades deparávamos com jardins e canteiros públicos bem estruturados e floridos, mas, depois de Abril de 1974, aos poucos, foi-se generalizando e o hábito está espalhado por todas as cidades e vilas e ainda por grande parte das aldeias, que se tornaram ainda mais atraentes, sobretudo com a chegada da Primavera, porque as flores tornam os canteiros ou as rotundas um verdadeiro prazer para os olhos de quem passa e que não pode ficar indiferente a tanta beleza e diversidade!
Infelizmente, "nem tudo são rosas" e há vários dias nas minhas caminhadas de fim de tarde, fui surpreendido com uma atitude de um ou mais humanos que pela calada da noite - pensamos - terão tido o atrevimento de retirar uns dois pequenos arbustos rasteiros de um dos canteiros públicos, mesmo marginal ao passeio, abrindo uma clareira que ficou a notar-se à vista desarmada e ainda tiveram o desplante de espalhar uma certa quantidade de terra pelo passeio, em cerca de vinte metros, como que a deixar a marca do "crime"... Este tipo de atitude, não dignifica o ser humano e só vem provar que há ainda um caminho longo a percorrer no sentido da responsabilização individual, compatível com o que deverá ser uma Democracia moderna e exigente e que só poderá ser conseguida através do empenho dos cidadãos!
Há dias atrás, contava-me um amigo meu uma outra história passada na sua rua, em que um vizinho volvidos oito anos, "obrigou" um outro vizinho a retirar uma pequena planta, ( arbusto ) bem linda por sinal e ainda florida, só porque resolveu inventar argumentos sem cabimento, enquanto fazia saber que o seu arbusto não seria para retirar! Ou seja, retiras o teu arbusto, mas eu não retiro o meu... Tal e qual! Conseguiu o seu objectivo, porque ainda há criaturas que preferem ficar prejudicadas, e, com o apoio de outro vizinho, trataram de transferir o lindo arbusto para uma outra zona e estão a fazer todos os esforços possíveis para ver se ainda o conseguem "salvar"...
Estas situações "trazem à baila" as fragilidades ainda muito latentes na nossa sociedade, porque não se muda do dia para a noite!... As mudanças para melhor nas pessoas, levam uma vida e quando se consegue um feito desses é razão mais que suficiente para se fazer uma festa!... A mesquinhez, o egoísmo, a inveja e outros preconceitos interiorizados desde a infância, estão em profunda contradição com as sociedades solidárias, porque são doenças que dividem muito as pessoas, criam todo o tipo de quezílias e tornam-nas infelizes...
A esperança essa nunca vai morrer, porque acompanha sempre todas as causas merecedoras do empenho dos que não desistem, e, que sabem, que vai valer sempre a pena estar do lado dos justos e dos oprimidos!
Há até quem lhe chame uma "guerra" que não mais parará, mas eu prefiro o termo "batalha", porque as guerras dos povos e que nós estudamos na História, eram um conjunto de batalhas e por esse prisma esta será uma das "batalhas" do nosso tempo, e nós, tal como os nossos antepassados, estamos na firme disposição de "guerrear" para que o bem prevaleça sobre o mal!

terça-feira, 23 de março de 2010

Porque será que isto acontece aos HUMILDES?!

Já andávamos, há umas boas duas décadas para passar para o papel algumas considerações, que se prendem com a forma como a política vem sendo exercida no nosso país, desde que começou a ser possível a ida às urnas para eleger para um determinado período de tempo as pessoas ou os partidos políticos, mas também procurar "ver" ou "entender", como é que as pessoas votam, como votam ou, porque, simplesmente, se recusam a ir votar...Achamos por bem recorrer a dois "bons" exemplos, que se passaram nas autárquicas de 2009 e que põem a descoberto situações, que, no mínimo, encaixam mal num sistema, no essencial livre, mas que põe a nu as fragilidades e vulnerabilidades de uma sociedade que não saberá ponderar, se recusa a ponderar e resolve "alinhar", diria, quase cegamente, ao usar livremente o voto, mas sem exigência pela ética política e no maior dos desprezos por princípios de seriedade e de respeito por todos e em especial pelos humildes!

Estamos a referir-nos a Ovar e a Oeiras que são o paradigma da irracionalidade do voto, embora por questões diferentes, é justo que se diga.
Em Oeiras, estava em causa a eleição de um autarca a contas com a justiça, que, aliás, já se tinha pronunciado com uma pena de sete anos de cadeia efectiva e de cinco anos com perda do direito cívico... Apesar de todo este imbróglio, a maioria dos que foram às urnas naquele mês de 2009, optaram em consciência, por votar no autarca "condenado" pelo tribunal de que não restam dúvidas, terá funcionado como devem funcionar os tribunais num estado de direito!
Este caso é no mínimo polémico e levanta muitas questões, no campo jurídico e até constitucional, mas, parece-nos, que o caso mais sério, prende-se com os que quiseram nas urnas utilizar o voto sem o mínimo de exigência ética, com abandono total de princípios e alheando-se completamente das decisões de um juiz e de um tribunal, que ninguém vai acreditar que andou a inventar provas!...
Nos tempos que correm, onde a informação é abundante, não seria com essa desculpa que poderíamos ficar satisfeitos, quando até estamos informados que Oeiras será um dos concelhos do país com os mais elevados índices de letracia... Ou seja, uma boa percentagem daqueles eleitores terá escolaridade quante baste e essa realidade "incomoda" ainda mais, porque, felizmente, não estamos a tentar analisar o procedimento de pessoas de fracos conhecimentos académicos, quase analfabetos...
Em Ovar, um dos grandes pontos de discórdia, prendia-se com a tentativa do anterior executivo pretender mudar a distribuição da água aos munícipes para um novo contrato, que, no mínimo, iria durar cinquenta anos, que segundo estudos divulgados e nunca desmentidos preto no branco, levaria o preço do m3 para valores mais altos e logo nos primeiros três anos. O caso gerou muita discussão pública, durante a campanha eleitoral, tendo o candidato do BE, que havia rompido com o anterior executivo por via do mesmo assunto, utilizado grande parte da campanha a rebater o que considerava um erro histórico, não só pelos custos futuros da água, mas ainda pelo tempo a que os munícipes iriam ficar amarrados de pés e mãos; apesar de todos estes considerandos, a maioria que foi até às urnas, deu a maioria dos votos ao autor da proposta, que se recandidatara pelo seu partido e nem sequer atribuiu ao candidato do BE o número de votos suficientes para ser eleito como vereador!...Este é outro dos casos, em que mais uma vez, o voto terá sido usado de forma quase irracional, por uma maioria que acha muito bem que a água, um bem essencial para a vida de toda a gente, possa subir para preços mais elevados, logo nos três primeiros anos e que o contrato vá valer cinquenta anos, ou seja, um contrato já a contar com os netos que irão ser a continuidade... Acreditam estes "avós", que até tinham boas razões para duvidar, que os seus queridos netos, daqui a cinco décadas serão todos no mínimo da classe média alta, quando pelo que se vê, infelizmente, as coisas não apontam para sonhos tão altos!...
Um querido amigo meu, contava-me há dias da sua experiência, rica de conteúdos, vivida após a revolução dos cravos até ao início dos anos oitenta, numa empresa da região. No fundamental, cuidou-se de repôr a dignidade no trabalho, onde passou a haver melhores salários e outros direitos que os mais humildes não tinham, apesar da boa condição financeira da empresa! O 25 de Abril veio dar a possibilidade de uma viragem histórica naquela empresa, onde além dos lucros passou a haver DIREITOS e DEVERES para todos e só a partir dali os humildes puderam perceber, que é possível ter além do TRABALHO outros DIREITOS, sem pôr em causa nada, nem ninguém...Só que o "urso" tinha entrado em hibernação e com o colapso de Abril, depois do 25 de Nov. de 75, começa por sair lentamente desse estado e nesse ano de 1978, mobilizou-se e mobilizou alguns apoios internos e externos, para repôr a "ordem" numa situação que aceitara, mas que nunca aceitara, apesar dos excelentes resultados financeiros que todos os anos ia obtendo. Contou o meu amigo que o plano passou por duas fases distintas:

a) Começou por querer retirar alguns dos direitos aos trabalhadores que haviam sido acordados por ambas as partes no final de 74 e querendo que a C. dos Trabalhadores concordasse com o processo, coisa que a C. T. não fez!b) Avançar de seguida para um processo mais radical e eficaz, procurando que fossem os próprios trabalhadores num plenário a destituir a C.T., com o argumento de que só ainda não tinham pago a participação nos lucros, ( fazia parte do acordo interno ) por culpa da C.T.

Já no final do Plenário, alguns desses mobilizados avançaram com a proposta que tinha dois pontos: Propôr à C.T. que se demitisse e caso não o fizesse seria demitida pela Assembleia. É evidente que nenhum dos cinco se demitiu, e, explicaram, que se tratava de manobra do patronato, mas mesmo avisados, a maioria expulsou as cinco pessoas honestas da C.T.

O meu bom amigo, ainda se manteve nessa empresa até 1981, ano em que bateu com a porta, mas até lá, ainda assistiu a uma série de tropelias do patronato para com os trabalhadores mais humildes e como não podia deixar de ser, contra aqueles que foram sempre fiéis aos princípios dos acordos e que o patronato "rasgara" em pedaços, logo que começou a ter condições. Já em 1980, este mesmo patronato teve o descaramento de nas horas de trabalho chamar ao seu gabinete este nosso amigo e ao mesmo tempo que lhe lembrava ser um bom profissional, mas que já estaria a ganhar menos que os porteiros e só lhe dava duas alternativas:- a) Dentro das suas empresas não podia permitir que houvesse alguém a defender os trabalhadores e logo que o deixasse de fazer, teria um bom lugar como contra-partida; b) Caso não aceitasse a sua proposta, iria ter uma grande surpresa, sem chegar a concretizar a ameaça...

Nunca mais houve contactos e passado algum tempo o meu amigo despedia-se do seu chefe directo, dos trabalhadores e da empresa e hoje, passados trinta anos, está seguro que honrou o compromisso que assumira ao assinar o Acordo em fins de 1974 e por isso sente-se tranquilo, só sente uma angústia por se ter apercebido na época, que o tempo dos humildes havia regressado, e, isso doeu, e, ainda hoje, sente alguma saudade, quando recorda que os donos dessa empresa, apelidavam de REVOLUCIONÁRIOS os poucos trabalhadores que nunca vergaram!...

Será que esta história verídica e que em traços gerais o meu bom amigo, já na reforma, me contou, explicará em parte os caminhos curtos e aparentemente aveludados, que cativam os portugueses até às mesas de voto e que não passarão de belas encenações com direito a cumprimentos e a sorrisos, não farão parte, em alguns casos, de um aliciamento que nos poderá conduzir para caminhos longos e pedregosos e com consequências difíceis de avaliar?!...

Não valeria a pena reflectir, pelo menos reflectir?!... Os factos estão aí...

domingo, 21 de março de 2010

AS "nossas" MENTIRAS e as dos OUTROS!...

Vamos falar claro, procurando falar verdade, se possível!...
Por me parecer interessante, começo por contar uma pequena história, que apesar de simples merece ser contada:

« O final da manhã de hoje estava calmo e decidi entreter o olhar pelo meu jardim, porque espero com alguma ansiedade a chegada da Primavera, uma vez que já fiz o que devia ser feito, resta apenas a relva começar a despertar para a vida e o mesmo se espera do que foi previamente e carinhosamente enterrado pelos espaços do jardim, esperando, que o nosso empenhamento e o carinho que pusemos em todas as acções, venham a ser compensadas com os melhores resultados, que esperamos ver através de uma relva pujante e ainda mais verde, bem como de flores e rosas mais belas e mais perfeitas, porque temos sempre presente na nossa mente o sentido da exigência até para com a Natureza, talvez, sabe-se lá, por querermos que tudo à nossa volta devesse ser belo e perfeito, imaginando fazer parte de um outro mundo, que não descambasse, nunca, para o "abismo" ...
Só que pensamentos destes, acontecem a toda a gente e daí não vem mal ao mundo, valem o que valem e até nos ajudam a desvanecer, retirando do nosso cérebro outros estados de alma que só nos desfavorece e que dispensaríamos de muito bom grado... De repente, fui "sacudido" e "acordado" para a vida real em resultado de um estrondo característico de uma árvore em queda e o som provinha de um pinhal, que existe na continuidade do meu jardim e como tinha excelente visibilidade, fui capaz de localizar a árvore que caíra, mas continuei a achar muito estranho o silêncio que continuava instalado em toda aquela área e fiquei estático uns dois minutos, na espectativa de ver surgir "alguém" que estivesse agachado naquele matagal, porque sempre acreditei que era mais uma crueldade de algum humano... Como tudo continuava calmo, silencioso, decidi avançar até ao local e dou de caras com a árvore arrancada pela base, mas pelo que pude observar, o acidente foi provocado por todo este mau tempo e que terá tido a sua origem num Atlântico, que, de longe a longe, perde grande parte da sua passividade e faz-nos recordar outros mares e outras latitudes . »

Fiquei mais aliviado e senti alguma felicidade, por perceber, que no caso presente, o ser humano não merecia ser culpabilizado, sim, porque cada dia que passa o rol de crueldades e de acusações aumenta, vindo de todos os cantos da Terra, ao mesmo tempo que vemos a ser esgrimidos argumentos, na tentativa de tentar « TAPAR O SOL COM A PENEIRA », coisa que até hoje não foi conseguido, mas os humanos, por vezes, surpreendem-se a si pròprios...
Os casos de pedofilia, contam-se aos milhares e vêm de longa data, atingindo instituições como a igreja Católica, que terá escondido para "debaixo do tapete", mas que agora vai ter grandes dificuldades para dar explicações convincentes aos seus seguidores e ao resto do planeta, se, entretanto, não optar mais uma vez por ignorar, ou então seguir o caminho da mentira, quando no passado afirmou que esta igreja era santa, mas já se ouvem alguns teólogos a mudar o discurso milenar, ao catalogar, agora, a mesma igreja de santa e de pecadora!... A desculpabilização já estará em marcha, mas a dignidade está ferida de morte, enquanto os milagres irão continuar, possivelmente, na vã tentativa de contrabalançar o errado!...
Todo o ser humano, que duma maneira ou de outra, aspira a um mundo menos desigual e sem as chagas da pedofilia e de outras barbáries, sentir-se-á desassossegado, mas terá de buscar forças mesmo que elas já não existam, porque sempre vai haver gente de BEM, que será sempre a maioria e que terá o descernimento do poeta brasileiro Affonso Romano de Sant'Anna que foi o autor deste belo poema, sempre tão actual e que quero de todo o coração dedicar a todos os meus conterrâneos, com um carinho muito especial para o Manuel Araújo da Cunha e para o Valdemar Marinheiro, pela forma dedicada e continuada na divulgação da nossa linda zona do Douro e das suas boas gentes:
Deliciem-se, a seguir, com uma parte deste belo poema, que reputo de sublime e ainda por cima tão actual, para constrangimento nosso!...
A IMPLOSÃO DA MENTIRA
_____________________________
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
_____________________________
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
____________________________
Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
____________________________
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
(....e continua...)

sexta-feira, 5 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

Continuação ( V )
A actual e futuras gerações que tomem conta destes factos, vividos e sofridos pelos seus antepassados recentes, para que percebam da importância que a viragem que o 25 de Abril veio possibilitar, e, que, a não ter acontecido, não teria dado sequer a hipótese ao autor deste testemunho, se ter apercebido minimamente, de que assistiu aos factos, que participou neles e que fez parte duma sociedade ludibriada, e, o que ainda dói muito, é verificar, mesmo hoje, que ainda há pessoas, alguns são até nossos amigos, mas que ainda não se terão apercebido, que tal como eu, apenas tiveram direito a DEVERES, vivendo na mesma época de CINQUENTA!
Como é bom referir aqui, as provas de lealdade e de companheirismo para com todas as gentes desta vasta zona, por parte do grande rio Douro, do velhinho Arda e do pequeno mas muito útil rio Mau, sem esquecer aqueles saudosos moinhos, assim como toda a vasta e amiga floresta, que, no seu conjunto, tanto ajudaram a suavizar as tremendas dificuldades com que esta esforçada gente foi sendo "brindada" ao longo de décadas!... Só um tresloucado, ou um imbecil, que sempre aparecem ao longo da história dos povos, lhes poderia atribuir culpas, pelos desencantos e sobretudo pela felicidade que sempre escapou aos povos destas lindas aldeias, mas se quisermos ser honestos, por uma vez que seja em toda a nossa vida, iremos encontrar todas essas culpas em seres humanos, que se venderam a troco de quase nada, mas a História irá colocá-los no sítio onde vão parar todos os que merecem ser esquecidos e a nós, os que acordamos para a vida, só nos resta um caminho decente, que passa por alertar os nossos e os filhos dos outros, de que é muito perigoso permitir que a IGNORÂNCIA se volte de novo a instalar na nossa sociedade, porque a seguir é extremamente fácil retirar os DIREITOS e exigir apenas os DEVERES!
A terminar, comove-nos poder voltar a imaginação para umas remadas no maravilhoso Douro ou nos seus afluentes, na companhia de um dos "resistentes" Valboeiros e recordar como foi solidária a sua ligação de muitos e muitos anos com as gentes humildes da região mineira, em que ambos sempre ganharam, sem necessidade de alguma vez ter de ser redigido um qualquer documento entre as partes, já que o respeito mútuo era inequívoco e inquestionável! Está provado que qualquer rio é menos agressivo e mais previsível que o mais pacífico dos seres humanos...
Já não nos espanta, os muitos factos desagradáveis, e, que bem diferentes, para melhor, poderiam ter sido, mas enquanto os rios têm milhões e milhões de anos, os humanos terão a insignificante idade de cento e poucos milhares de anos, o que desculpa, em parte, muitos dos erros que ainda vão cometendo contra si próprios... E até quando?!...
OBRIGADO RIO DOURO!
FIM da 5ª e última REMADA!
UM ABRAÇO PARA TODA A REGIÃO MINEIRA DO PEJÃO!

quinta-feira, 4 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

( Continuação IV)
Seguramente que é aqui que vamos encontrar o grande défice, e, que explica, o que de menos bom sucedeu a toda esta gente, a quem não foi permitido evoluir para o conhecimento, numa época em que o carvão era uma das principais energias que fazia movimentar grande parte da economia deste país, e, até havia quem apelidasse o carvão de OURO NEGRO!... Houve como que o cuidado de atribuir salários baixos e muito más condições de trabalho a quem trabalhasse nas minas e como a indústria nacional necessitava muito desta matéria prima, "alguém" teve a ideia "brilhante" de atribuir uns prémios para juntar aos magros salários, mas só àqueles mineiros que produzissem para lá de um mínimo estabelecido... Estas jogadas e outras, aliadas ao analfabetismo latente e à falta de informação, que o regime de partido único, não permitia, contribuiram, no essencial, para a infelicidade de mineiros e suas famílias, quando havia todas as condições objectivas para que nesta região se vivesse dentro de padrões aceitáveis e sobretudo dignos...
O domingo, que era o único dia de descanso do mineiro e dos outros trabalhadores começava bem cedo, com uma missa pela manhã, a que se poderia juntar a reza do terço de tarde, ou então uma tarde de pesca no Douro, ou no Arda, ou um jogo de futebol ao vivo, que, a acontecer, daria para se encontrar com os amigos da semana, e, no final do mesmo, poder confraternizar com esses amigos e com outros, numa das muitas tabernas da sua aldeia, onde, mais uma vez, discutiriam os mesmos assuntos, de reduzidíssimo interesse, até que o final do dia convidava a tomar o caminho de casa, e, desta forma rotineira e culturalmente adversa, terminava mais uma semana, em que não se previligiou culturalmente a mente, com uma ida ao cinema ou ao teatro, ou a simples leitura de um livro dos autores portugueses mais consagrados, nem sequer uma ligação mais afectiva aos filhos e à esposa como seria aceitável e até desejável!...
Moral desta história:« É fundamental perceber que o trabalho, só por si, sem DIREITOS, não dá dignidade a ninguém, porque se assim fosse, os escravos não precisariam de aspirar pelo fim da escravatura, porque já teriam atingido o topo da dignidade possível, quando todos sabemos que foi precisamente o inverso»...
FIM da 4ª REMADA ( continua )

terça-feira, 2 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

( CONTINUAÇÃO III )
Será muito interessante abordar neste raciocínio as várias actividades, que, na época, representaram um papel fundamental na vida diária destas gentes e começaremos precisamente pelos moinhos, que, montados de forma engenhosa, aproveitavam o "desvio" de parte da água dos afluentes, nas duas margens do rio Douro, para possibilitar, por um processo simples e barato, a moagem de todos os cereais que entravam na composição do pão de milho, que era a base da alimentação das famílias humildes!
Outras actividades de extrema importância, estão ligadas à rica e abundante floresta de toda esta zona de baixa montanha, aonde as famílias humildes iam buscar, quase diariamente, aqueles desperdícios de lenhas com que faziam todos os cozinhados, numa lareira granítica e arrumada ao fundo e no ponto mais central da cozinha e onde todos se aqueciam nos invernos, sempre rigorosos, enquanto a cozedura do pão de milho, tinha lugar, uma vez por semana, num forno de tijolo e barro, bem encostado a um dos cantos da cozinha...
Da mesma floresta, trazia-se ainda o mato rasteiro com que os lavradores, pequenos caseiros e a generalidade das famílias faziam as "camas" de bois, vacas, suínos, galináceos, coelhos, ovelhas e cabras, para que algum tempo volvido, pudessem ter o proveito de sacar dali, o "belo" estrume com que adubariam as terras de cultivo e donde esperavam colher uma parte substancial da alimentação familiar!
As excelentes árvores de pinho e de eucalipto, criadas nesta floresta, e, em que uma boa parte das maiores e mais bem compostas "sortes" pertencia a duas ou três casas abastadas das aldeias, que, só muito raramente procediam ao seu abate, e, assim, ao entrar na floresta qualquer cidadão ficaria elucidado sobre o dono dessas "sortes", só pelo porte desproporcionado das referidas árvores!... Ao contrário, as "sortes" dos restantes donos, na altura certa, lá sofriam o corte necessário e as suas madeiras seguiam pressurosas a abastecer as fábricas, para ali ser transformadas em pasta de papel, ou, então, seguiam directamente para fazer os escuramentos nas galerias das minas do Pejão, outro dos destinos prováveis e de longe a actividade mais empreendedora de toda a região, com uma ocupação superior a mil postos de trabalho, só na Carbonífera!...
Depois de todo este grande empenhamento durante décadas e do grande esforço físico dispendido, absolutamente comum a todas as aldeias periféricas das minas do Pejão, e, que, ao fim e ao cabo, podemos considerar como fazendo parte dos seus DEVERES, apetece, e é justo que perguntemos:

« E quais foram os DIREITOS com que contaram?!»

FIM DA 3ª REMADA ( Continua )

segunda-feira, 1 de março de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suas GENTES!

(CONTINUAÇÃO II )
Na outra margem do Douro, quase em frente a Pedorido, escondia-se a ribeira de Rio Mau, de menor dimensão, mas igualmente trabalhada a gosto por pequenos lavradores, que, procuravam tirar o melhor partido daquelas terras ribeirinhas e que se estendiam até ao sopé da serra da Boneca, contornando todo aquele sinuoso vale na companhia do pequeno e inseparável afluente rio Mau, aqui e ali com marcas de alguma violência de invernos passados, mas como que retraído, e, por vezes escondido, segue agora sem pressas, acabando por entregar duma forma mais suave as suas águas ao grande rio Douro no lugar da Foz!
Mas, se agora acompanhássemos as correntes velozes do Douro, íamo-nos deparar um nada mais abaixo com Melres e a sua ribeira, de boa dimensão, paralela ao rio e ao grande areal, desafogada e airosa, porque a serrania ali tivera a "sensatez" de se arrumar para zonas mais afastadas do Douro, como que a criar as boas condições naturais para o surgimento, milhões de anos mais tarde, daquela linda e plana localidade, coisa invulgar em todo o sinuoso vale que vínhamos seguindo rumo ao Atlântico...
Melres, também ela terra de lavradores, pescadores e mineiros, devido à grande proximidade das minas do Pejão em Germunde, mas onde a lavoura e a pesca no Douro tinham grande expressão, assim como o comércio tinha ali um certo destaque, já que uma vez por mês ocorria lá uma feira que mobilizava as gentes das terras vizinhas, de ambas as margens do rio Douro, e, as travessias de barco, naquela época, nunca foram problema... Depois uma menor distância para a Cidade Invicta fazia a diferença, e, aquela gente, tão ligada ao rio, tinha ainda a dupla vantagem com esta proximidade por terra àquela cidade do litoral nortenho!
Convém aqui relembrar, que, nos anos cinquenta, se trabalhava de segunda a sábado e que mais de noventa por cento das pessoas desta vasta zona do Douro se movimentava a pé, não só para o local de trabalho, mas também para as outras tarefas necessárias, como ir ao médico, à farmácia, à igreja,à feira, às compras na Cooperativa, etc.; curiosamente, passar duma margem do Douro para a outra, era na época, coisa fácil e até rotineira, bastava que houvesse motivo, devido às várias travessias em actividade em todas as localidades e onde o barqueiro de serviço podia muito bem ser uma mulher, e, isto, era válido para o dia, como para o início da noite!... No inverno e com as grandes cheias do Douro as coisas "mudavam de figura", e, aí, só quem tivesse necessidade continuava a fazê-lo, porque os barqueiros eram experimentados e nas suas mãos os pequenos Valboeiros tornavam-se leves e rápidos, ou era essa a sensação que ficava nas nossas mentes e depois não se podia faltar ao trabalho, ou ao que quer que fosse...
Todo este labor, levava forçosamente a que as pessoas se encontrassem diariamente na Carbonífera e duma forma regular na igreja, nas capelas e nas procissões, nos funerais, nas tabernas, nos bailaricos, na pesca, na feira, na cooperativa de consumo, nas festas, no futebol, nos rios e seus areais, nos campos e nos montes, no hospital das minas em Oliveira do Arda, e, até as bandas de música contribuiam com o seu despique em arraiais populares, para um novo tipo de encontro, capaz de despertar, por vezes, sentimentos de índole bairrista, mas, todas estas vivências com o decorrer dos anos, ajudavam a criar laços de profunda amizade entre as gentes de todo o Couto Mineiro e que ainda se vão mantendo bem vivas, não sendo raros os casos, em que outras amizades deram mesmo em casamento entre jovens de ambas as margens, e, tudo isto acontecia com muita frequência e jamais a separação natural provocada pelo rio Douro serviu de impedimento a grandes amores, quando tiveram que acontecer!...

FIM DA 2ª REMADA ( continua ))mmmmMm

domingo, 28 de fevereiro de 2010

RELEMBRAR o DOURO seus AFLUENTES e suasGENTES!

A década de Cinquenta em toda a zona do Couto Mineiro do Pejão é consensual, quanto a ser reconhecida como uma época de muita ocupação, onde a exploração mineira tinha na Carbonífera, de capital belga, o seu maior empregador, e, quase que podíamos dizer, à falta de dados estatísticos, que haveria pleno emprego em toda esta vasta região, muito embora se tratasse, em larga medida, de trabalhos duros e até perigosos e para cúmulo muito mal pagos... Daí, e, por via dessas duras realidades, a emigração para outros países esteve sempre na mira de uma parte dos seus habitantes, e, naturalmente, na década referida também não houve excepção.
Já deu para perceber, que o dia a dia destas gentes por cá era muito difícil, agravada ainda com o facto de serem famílias dum modo geral muito numerosas, devido ao elevado número de filhos, cujo "mérito" vai inteirinho para o "trabalho" persistente da igreja Católica, que dos altares fazia das homilias dominicais um dos seus temas preferidos, recorrendo amiudadas vezes com a ameaça do inferno, procurando por aquela via, incutir nos crentes da existência de uma outra face num Deus infinitamente bom, mas, que, afinal, também poderia ser castigador...
Em resultado de tantas dificuldades diárias, a lavoura ocupava não só os pequenos lavradores e caseiros mais humildes, mas dum modo geral os mineiros e também os barqueiros, pescadores e outros, que se "entretinham" com a feitura anual da sua lavoura e de alguma pesca no grande rio Douro e nos seus pequenos mas importantes afluentes, como era o caso do "velho" e muito amigo Arda, responsável por manter todos os anos uma ribeira pujante e capaz de ajudar, com o que ali se criava, uma parte dos habitantes das aldeias vizinhas dos seus vales - sempre verdes em todas as estações - e que eram por ordem ascendente Pedorido, Oliveira do Arda e ainda Folgoso...
As famílias que todos os anos trabalhavam aquela ribeira do Arda, sabiam que não precisariam de adubar muito aquelas terras, porque as cheias anuais do Douro já o haviam feito em grande medida, com os variados e ricos sedimentos ali deixados ao longo das cheias de Inverno, e, se, a seguir, lhe somarmos na altura devida o trabalho dos homens, dos bois e do arado, e, lá mais para diante com a abundância da água do Arda, que, eram por esta ordem, os grandes responsáveis pelas boas e saudáveis colheitas de milho, feijão, vinho e até de saborosas melancias!
O Arda servia ainda de piscina durante os meses mais quentes do ano a uma juventude masculina, que, na Passaria, se entretinha a aperfeiçoar os dotes naturais de nadadores e sobretudo de saltadores, já que ali, a altura das águas assim o permitia; além do mais, este afluente tinha outras "virtudes" de interesse e estamos a referir-nos à segurança que oferecia aos "banhistas" por um lado, e, à lisura das suas águas por outro, e, era, seguramente, devido a este último factor, que as mulheres e as raparigas desde o Alto Picão, aqui se encontravam regularmente, para em sítios bem escolhidos do baixo Arda, se empenhar determinadas a lavar e a branquear as roupas bem sujas dos mineiros e de toda a numerosa família!
FIM DA 1ª REMADA ( Continua )

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

INTOLERÂNCIAS RELIGIOSAS NOS ANOS CINQ.! (1ª PARTE)

Todos nós já nos apercebemos de que há, por vezes, momentos históricos em que até as religiões se vêem tentadas a usar métodos autoritários e grosseiros, tentando a todo o custo fazer com que as comunidades adoptem posturas e caminhos definidos por quem superintende nessas religiões, esquecendo-se esses dirigentes, que, quase sempre, até são doutorados, de que a adesão a uma prática religiosa é antes do mais um direito de cidadania livre e que ninguém, por mais humilde que seja, poderá ser obrigado a aceitar práticas ou comportamentos indesejáveis para a sua condição de ser humano!
Sabemos agora que isto é básico, mas nos anos Cinquenta o comum dos cidadãos em Pedorido desconhecia este e outros direitos e o resultado está à vista, com os casos que passamos a relatar e que não deverão ser escondidos para "debaixo do tapete" por irresponsabilidade, admito, mas também por parte da Instituição que agora não quererá admitir que falhou e não basta a desculpa, que tanto jeito dá nestas ocasiões, de procurar atirar as culpas para esse passado negro, ao optar por um silêncio comprometedor, quando se sabe que todas as religiões herdam sempre o que se fez de bom e de menos bom até ao presente...
Vamos aos factos:
«As secas nos anos Cinquenta, a partir do mês de Abril aconteciam com um rigor tal, que punham em desespero os lavradores e caseiros mais humildes que viviam de uma agricultura de subsistência, mesmo contando com o melhor quinhão da ribeira do Arda, que resistia muito bem à canícula e porque ali a água nem sequer era problema, já que o "velhinho" e amigo Arda sempre fora solícito na colaboração...
Mas quem dirigia a igreja católica na aldeia, entendia que também tinha uma palavra a dizer, e, quando a seca persistia, lá se prontificava a levar a cabo umas procissões que largavam da igreja lá no sopé junto ao Douro, rumando com alguma ligeireza até às zonas mais altas e mais afectadas, ao mesmo tempo que rezavam ou entoavam cânticos com o fim de ser escutados por um Deus que fosse receptivo e generoso, como lhes convinha...
Só que este tipo de prece religiosa pode ter um ou outro inconveniente, uma vez que se trata de uma exposição pública, de contacto com a natureza e onde é sempre possível o imprevisto acontecer, quando se desfruta durante muito tempo de cenários diversos e de grande beleza, e, pode muito bem suceder um ou outro caso de desconcentracção, como foi o caso da mulher de um dos humildes caseiros da aldeia, quando não pôde evitar em determinada situação um largo sorriso, porque terá achado divertido a algo que os seus olhos terão apreciado momentâneamente; só que em resultado dessa "boa disposição", teve que aguentar com uma bofetada do abade, que na frente dos presentes quis mostrar todo o seu autoritarismo e uma grosseria que na época não teve consequências!... »
As décadas foram passando, mas os que estão ainda vivos registaram e lembram, que, no mínimo, o que deveria ser feito por quem superentende na diocese, se é que ainda não sucedeu, seria um pedido de desculpas à comunidade católica desta honrada aldeia e sobretudo aos familiares dessa honesta mulher, que, seguramente, terá ainda filhos e netos vivos, sabendo nós que alguns dos filhos já terão falecido.
A vingança e a raiva são sempre desaconselháveis, mas reconhecer os erros, só dignifica os Homens e as Instituições, porque é muito antigo e ainda não foi desmentido por nenhum sábio o provérbio que diz:« MAIS VALE TARDE QUE NUNCA...».
( CONTINUA )
RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!
UM ABRAÇO DO TAMANHO DO " VELHINHO " ARDA!



domingo, 14 de fevereiro de 2010

QUE EDUCAÇÃO RELIGIOSA?! EXEMPLIFIQUEMOS!...

Continuando ainda nos anos Cinquenta para abordar desta vez o tema da religião, que era na época, ainda é hoje e no futuro ainda promete ser, fonte de profundas divisões e discórdias entre os povos, porque todas as religiões teimam em apresentar-se como detentoras de verdades absolutas e inquestionáveis, gerando-se a partir daqui estados de discussão intermináveis, sem cedência efectiva de nenhuma das partes, originando ódios recíprocos, enquanto que de quando em vez, vamos assistindo a umas quantas invasões, normalmente sem aviso prévio, de modo a inflingir no "inimigo" ataques de uma crueldade e de uma desumanidade, que, fazem, no mínimo, corar de vergonha todos os humanos que já perceberam e aceitam, que o respeito pelos outros é o mínimo exigível que pode e deve ser feito...
Entretanto, voltemos uns anos atrás e a Pedorido para tentarmos perceber como é que a religião era vivida naqueles tempos por pais, filhos e pela restante comunidade.
No final dos anos Quarenta é aqui construída uma igreja nova, muito mais ampla no seu interior, cortando de vez com as capelas exíguas do século XVIII e XIX, optando agora por uma construção de base granítica, que, como se poderá verificar em todo o seu exterior é a garantia de uma robustez que ninguém ousará pôr em causa...
Começamos por clarificar que estamos a falar da religião Católica, aliás, a única que se praticava, não só nesta aldeia, como nas demais aldeias do Couto Mineiro!
De resto, essa questão nem sequer se colocava na época para os responsáveis católicos, que, "jogavam", pensamos nós, com o desconhecimento geral, ao mesmo tempo que tiravam daí o proveito, sabendo, todos nós, como é bem mais fácil conduzir um "rebanho" que não vai levantar questões, se à partida desconhecer que no resto do mundo há povos a seguir outras religiões, umas mais próximas do catolicismo, outras nem por isso e que todas somadas darão um número de vários milhares, se lhe juntarmos as seitas, que, entretanto, não se cansam de aparecer e que também têm arte e engenho para captar adeptos e seguidores!...
É curioso referir aqui que havia uma família que viveria lá para a cidade do Porto e que todos os anos pelo Verão, vinha passar as suas férias para uma casa no lugar do Valpaço e que era conhecida pela "casa dos protestantes" ou ainda por "casa dos maçónicos", mas tudo isto era dito sem rigor algum pelas gentes da terra; a única coisa que podemos afirmar, é que eram pessoas que passavam todo esse tempo de férias dentro dos limites da sua propriedade e que eram muito simpáticas a dizer o bom-dia, ou a boa-tarde, às pessoas que por ali passavam e ficavam-se por aí...
Entretanto, quem dirigia os destinos da igreja, preocupava-se antes do mais em manter activo um programa para todo o ano, que tinha repetição nos seguintes, por forma a "obrigar" todas as famílias a uma ligação militante, desde as missas diárias até às confissões e comunhões mensais, procurando a adesão dos pais e filhos, passando ainda pela catequese, pelas procissões, pelas novenas e com semanas de pregação, efectuadas por abades de outras paróquias, que "batiam " em temas escolhidos a preceito, havendo sempre o cuidado de arrumar dentro da igreja, as mulheres a um lado e os homens a outro, exactamente igual ao que era a prática nas escolas públicas em todo o país!... As semelhanças com os métodos, usados pelo regime político e pela religião católica, eram por demais coincindentes, sonegando não só uma sã formação religiosa às pessoas, como também a falta de informação contribuia com que estas aceitassem como certas todas as "ordens" emanadas do altar!...
Os pais eram assim "educados" a mandar os filhos bem cedo para as cerimónias da igreja, mesmo que ocorressem à noite e que poderiam ir até às vinte e três horas... Só falta clarificar que eram no essencial filhos de mineiros, de barqueiros, de lavradores, de pescadores e de pequenos caseiros, que, juntamente com uma parte significativa de pais e avós - sempre os mais assíduos - eram o suficiente para "arranjar" boas "assistências"!
Mas, apesar do controle efectivo sobre a comunidade, lá vem o dia em que a "coisa" descamba e o impensável acontece... É assim, que numa das novenas de Maio, ali por meados dos anos Cinquenta, quando a rotina "imposta" parecia vingar por mais um dia, surge o inesperado... e que passamos a contar:
« O padre convidado para o sermão daquela noite, já estava há algum tempo a desenvolver o tema que escolhera, utilizando o púlpito adequado e que ficava do lado dos homens - mais uma coincindência - sensivelmente a meio da igreja, quando resolve esplanar uma das suas ideias e perguntar a si próprio mas em voz alta:

... E QUANDO É QUE NÓS MORREMOS? SIM, QUANDO É QUE NÓS MORREMOS?...

Aqui, faz um pequeno compasso de espera e... acto contínuo, uma voz de homem, irrompe da assembleia e de forma célere "dispara" a seguinte resposta:

... QUANDO DEUS NOSSO SENHOR QUISER!...

O pregador "requisitado" para aquela noite, que não esperaria nunca vir a ser interrompido, por uma vez que fosse, acusa a surpresa da intromissão e notou-se algum embaraço, porque vagueou para outras conjecturas, até lá encontrar de novo o rumo que trazia em mente e prosseguir com o sermão, para mais adiante voltar a questionar-se, mas desta vez com uma pergunta muito directa e sobretudo muito incómoda para os católicos:

... E SE NÓS FORMOS PARA O INFERNO?... E SE NÓS FORMOS PARA O INFERNO?..

Aqui a mesma voz e o mesmo homem de instantes atrás, que não havia mudado de lugar nem de posição, responde sem vacilar e de forma decidida:

... DEUS NOSSO SENHOR NOS LIVRE DE LÁ!...

O abade pregador voltou a "acusar" a segunda intromissão, mas duma forma menos surpreendente e foi mais ágil a controlar o embaraço, para voltar a "encontrar-se" e ao sermão que traçara para aquela noite, mas até ao final não ousou formular mais nenhuma pergunta, pensamos nós, para não correr o risco de voltar a ser de novo interrompido por aquele nosso conterrâneo, que além de uma vida difícil dedicada aos barcos e ao rio Douro, sempre deu mostras de alguns conhecimentos bíblicos - caso muito raro na aldeia - e de uma certa "queda", para em momentos "mais inspirados" fazer questão de "oferecê-los" aos seus conterrâneos, fazendo-o por mote próprio e quando lhe aprouvesse, sem nunca cobrar um vintém, imitando as práticas de Cristo de há dois mil anos!...

NOTA: Foi com alguma saudade que trouxemos até este espaço a recordação de um pedoridense simples e honesto, de quem guardamos boas memórias e a quem prestamos uma justa homenagem e que em vida se chamou Agostinho Tavares!

RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!

UM ABRAÇO PARA PEDORIDO!

domingo, 24 de janeiro de 2010

QUE TIPOS DE EDUCAÇÃO?!... UM EXEMPLO!...

Contam-se muitas histórias, algumas delas muito antigas e que acabam por criar nas nossas cabecinhas, naturais dúvidas sobre a sua autenticidade; daí, também não virá grande mal ao mundo, sobretudo se pecarem por falha no rigor do tempo, visto que mesmo os métodos mais avançados de que hoje os cientistas se servem, também os levará a cometer erros, que, embora mínimos, não deixam de o ser...
Entretanto, surgem as outras histórias mais recentes, que dizem respeito aos humanos e que nos contam como se terá desenvolvido a História dos Povos, já com datas mais precisas, sobretudo nos últimos milhares de anos e até aos nossos dias.
Tudo isto, para concluir, que as coisas nunca foram estáticas e as mudanças não pararam de acontecer, até, porque, os intervenientes também foram sendo substituidos e as regras alteradas, de acordo com novas filosofias, ou ainda, porque as novas realidades a isso obrigaram os de ideias fixas e a sociedade em geral, que, não raras vezes, também viu a sua oportunidade surgir em forma de flash, onde passou a desempenhar, um papel de árbitro, influenciando as decisões para qualquer dos lados...

Vamos a caminho de atingir os setenta anos e pela parte que me toca, acho que será boa altura não só para reflectir, mas, sobretudo, para poder transmitir com algum rigor, até para se poder comparar com os dias de hoje, como era exercida a paternidade nos anos Cinquenta e Sessenta; poderia contar várias histórias de rajada, mas parece-me que não seria um bom método para começar, porque daria aso a que se baralhasse e perdesse o "fio à meada".
Começo por uma pequena história que vivi no final dos anos Cinquenta, que diz bem da relação entre pais e filhos, teria na época os meus dezassete anos:
«Naquele domingo um amigo meu de Pedorido, uma semana depois da Páscoa, convida-me para seguir com ele até um pequeno lugar da freguesia de S. Miguel do Mato, onde segundo ele, teria lugar a festa em honra de S. Lázaro, e, que, presumo, já conheceria de anos anteriores, mas que para mim era uma estreia absoluta; apesar de nunca ter feito uma incursão no terreno para o interior e para uma localidade que distava do Douro uns bons dez quilómetros, nem isso me levou a rejeitar tal convite e a seguir ao almoço arrancamos a pé com a melhor das disposições rumo a S. Lázaro e à festa, porque acreditava que na companhia de um amigo com mais seis anos e com tamanha experiência, tudo iria começar e acabar bem.
O caminho, que mais foi uma caminhada, até se fez bem, pondo de parte a monotonia que desde o início até ao lugar da festa tivemos que suportar, já que nem sequer um ser humano haveríamos de encontrar, enquanto íamos deixando para trás terrenos acidentados e inóspitos com serranias carregadas de arvoredo e do mais variado tipo de vegetação rasteira, sabendo nós que o Arda não correria por vales muito distantes, sem, contudo, nunca lhe pôr o olho em cima, mas, claro, sabíamos que pisávamos terrenos de Arouca...
Chegamos ainda frescos ao pequeno lugar todo engalanado, tendo a capela um lugar de destaque, devido ao dia festivo, e, notava-se, uma pequena onda de forasteiros que se divertiam pelos arruamentos mais próximos da capela, enquanto que muitos outros procuravam cumprir primeiro que tudo as promessas feitas ao santo e que ali se teriam deslocado por via disso!
Já para o final do dia, eu e o meu bom amigo, havíamos de tornar as coisas bem mais difíceis, quando resolvemos meter conversa com duas moças, para depois decidir acompanhá-las a pé até à sua aldeia, que distava uns seis quilómetros, ou mais, do local da festa; depois de as termos deixado na sua terra natal, conforme fora nosso propósito, encetamos o caminho de regresso, com a noite a surgir como mais um obstáculo e que se vinha juntar ao caminho longo e difícil a percorrer, mas que tinha de ser feito; recordo, que voltamos a passar de novo por S. Lázaro, às primeiras horas da noite, onde reinava agora um sossego e uma calmaria próprios de uma aldeia fantasma, uma vez que já não se via viv'alma fora das habitações e a noite escura tornava agora aquele pequeno lugar num sítio adormecido, sem vida, se compararmos com o bulício de horas antes, e, agora, já começávamos a sentir algum cansaço e um certo desconforto moral, porque sabíamos que ainda tínhamos pela frente a derradeira caminhada final de mais dez quilómetros, para, finalmente, reencontrar a nossa querida aldeia, ali bem sobranceira ao rio Douro e defronte a Rio Mau na outra margem, que, até à noite, teima em manter a beleza e uma singular altivez, sem paralelo nas aldeias mais próximas e que imaginamos ter herdado das suas gentes primitivas e que se têm vindo a solidificar ao longo dos tempos!...
Para felicidade nossa e quando atingíamos as fraldas da serra do "Cámouco", prestes a entrar em terrenos paivenses, o luar resolveu em boa hora aparecer e foi uma abendiçoada companhia de que estávamos a necessitar, e, que, logo de seguida, até nos presenteou com uma represa de água límpida e a transbordar, que aproveitamos para saborear, porque além de fresquinha, vinha mesmo a calhar!... Esta bebida, veio dar-nos o impulso de que precisávamos para o resto da viagem, mas assim que atingimos o alto do Picão, fiz saber ao meu bom amigo, que devido ao adiantado da hora, seriam umas onze horas da noite, iria ter uma outra tarefa ainda mais difícil pela frente, porque teria que enfrentar os meus pais e a seguir contar-lhes toda a verdade, sabendo de antemão, que o meu pai era uma pessoa bastante rigorosa e que não iria pactuar com chegada tão tardia, mesmo que se tratasse da primeira vez, como era o caso!...
Ao chegar muito próximo da casa paterna, já sem a companhia do meu amigo, pude verificar que as luzes do exterior estavam todas acesas, os meus pais no terraço à minha espera e à espera das minhas justificações; contei-lhes toda a verdade e nem sequer omiti a minha companhia, que os meus pais bem conheciam. No final das minhas explicações o meu pai repreendeu-me com as seguintes palavras:

- POR SER A PRIMEIRA VEZ QUE TAL SUCEDE, O ASSUNTO POR HOJE FICA POR AQUI!...

E mais não disse, embora viesse a saber pelo meu amigo uns dias depois, que o meu pai procurara confirmar junto dele a veracidade da minha justificação!

NOTA: Esta história acaba também por ser uma simples homenagem póstuma àquele meu amigo de caminhada e que em vida se chamou Manuel Tavares, muito popular em toda a aldeia e que pouco tempo depois foi emigrante em FRANÇA!

RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!

UM ABRAÇO PARA LÁZARO, PEDORIDO E RIO MAU!





segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

... CASCA-LHES S. DOMINGOS!... CASCA-LHES...

A linda aldeia de Oliveira do Arda no sopé da "serra" de S. Domingos tinha um posicionamento natural, em forma de V, adaptando-se quase na perfeição ao formato que o Douro e o Arda desenharam, ao rasgar aqueles dois vales que iriam servir de leito para as suas águas de milhões de anos, e, que, se repararmos, em muito se assemelha à postura física da sua vizinha e linda aldeia de Rio Mau, no sopé da Boneca, mas com a diferença desta se encontrar na margem oposta do grande Rio Douro... que desliza lá bem no fundo, muito encostado por todo o Verão às terras paivenses e deixando bem a descoberto aquele imenso areio d' Hortos ao longo de toda a margem direita, por muitos considerado o maior areal do Douro e que os Oliveirenses tinham o previlégio de observar na sua real dimensão, e, assistir, se assim o entendessem, aos vários processos de trabalho que ali se desenrolavam, de segunda a sábado, a começar pela retirada continuada de areias e godos, através de camions que desde manhã até até ao final do dia, efectuavam num vai-vem constante pela marginal até Sebolido, para aí "cortar," até atingir o grande Areal, para depois abastecer parte de todo aquele frenesim imobiliário, em que se tornara todo o litoral nortenho, a partir das décadas de Cinquenta e Sessenta; por vezes, e, em simultâneo, dependendo da época do ano, decorriam as tarefas piscatórias, em especial do sável e da lampreia, que em nada colidiam com as extracções das areias, embora não nos custe a admitir, que os pescadores olhassem aquela outra tarefa como uma "intromissão," que em outros tempos nunca acontecera, e, porque, também não lhes agradaria nem um pouco, ver todas aquelas irregularidades e os grandes buracos, que aquele tipo de exploração ia deixando ao longo daquele grande e belo areal, que, quase formava uma meia lua nos meses do ano em que o Estio primava por secas prolongadas; também era verdade que a "violência" das primeiras cheias lá para as proximidades do Inverno, iria repôr a ordem em todo o areal, corrigindo, este e outros erros, que os humanos sempre foram peritos em cometer.
Desconhecemos se existia alguma actividade piscatória no Douro e mesmo no Arda por parte de alguns Oliveirenses, mas acreditamos que isso terá acontecido, uma vez que os vizinhos de Pedorido, Rio Mau, Cancelos e outros, tiravam partido sazonal e das mais variadas formas na captura das muitas espécies em que o Douro era fértil, valorizadas ainda porque se tratava de peixes de água doce, uma vez que as marés mais atrevidas do Atlântico, só se "atreviam" no máximo até Melres, sendo esta a razão única, porque o sável tinha um valor de qualidade e comercial superior, caso fosse capturado nos areios a montante, estamos a falar do areal de Pedorido, d'Hortos e outros...

Acontece, que todos os anos em Oliveira do Arda nos meses de Agosto e Setembro as festas em honra de S. Domingos e da S.ra das Amoras, atraíam milhares e milhares de pessoas, autênticas romarias vindas dos mais variados povoados em redor, mas também de terras distantes, dos concelhos da Feira e Gaia e até de Penafiel e Gondomar!... Este mar de gente, deslocava-se sobretudo a pé, utilizando ainda autocarros, automóveis e bicicletas, muitas bicicletas, num frenesim pouco comum nas gentes portuguesas, que parecia ter esperado sem paciência todo o tempo que medeia aquelas datas, em especial quando se festejava a S.ra das Amoras, que era encarada como uma romaria, enquanto que pelo S. Domingos estava ainda em causa um rol imenso de promessas e que as pessoas de corpo inteiro, ali bem no alto, procuravam satisfazer, procurando a ajuda, se fosse caso disso, de familiares ou amigos, quando se tratava de promessas que exigissem grande esforço físico e porque o calor apertava naquele tórrido mês de Agosto!...
Para que tenhamos uma ideia da repercussão destas festas, era comum ver alguns dos melhores ciclistas portugueses, como eram os casos de Sousa Cardoso e Mário Silva, a trepar nas suas bicicletas por aquela íngreme subida de S. Domingos e completamente dissolvidos naquela desordenada onda humana, que estava prestes a superar a parte mais curta e mais difícil duma jornada, que, em muitos casos, já durava há várias horas... Claro, que aqueles ciclistas vinham numa outra missão, já que a Volta a Portugal estava por dias, e, é de crer, que estariam a dar os retoques finais numa forma já muito apurada e que se notava pela facilidade com que "engoliam" tão duras subidas... Estes dois ciclistas, faziam parte do grupo dos melhores roladores e trepadores nacionais daqueles saudosos tempos!

Entretanto, as várias travessias no Douro, utilizando o amigo e inseparável VALBOEIRO, não tinham "parança", para com a maior ligeireza possível, trazer da margem direita toda aquela gente, que, não se conformava só em ouvir o chamamento dos foguetes e os acordes de bandas e alti-falantes dos grandes arraiais, que não deixavam sossegar os espíritos de quem é jovem ou ainda tem esse espírito, e, que, os vales, servindo-se dos ventos, se prontificavam em conduzir todos aqueles efeitos festivos pelas encostas mais vizinhas, atingindo não só estradas, caminhos e carreiros, mas também os montes, hortas e todo o casario por mais simples e desordenado, onde em última instância iria penetrar a mensagem e o convite generalizado, sem distinções; de resto estas datas eram sobejamente conhecidas, diríamos que de cor, pelos povos das redondezas e mesmo de gentes afastadas, por se tratar de romarias e tradições que vêm de muitas centenas de anos e que passam de geração em geração...
Cada povo usa a crença e a diversão à sua maneira e cremos que foi sempre assim desde a Pré-História até aos nossos dias!...
Recordo-me que em Pedorido, todos os anos pela S.ra das Amoras, um número razoável de Pedoridenses, colocava-se na N 222, mesmo junto do cemitério e de costas para o rio Douro, para assistir sorridente e divertido ao "triste" espectáculo, que lhes era "oferecido", gratuitamente, por muitos populares montando pasteleiras, vindos das bandas da Feira e, que, regra geral, não conseguiam passar com sucesso aqueles dois carris, por onde, diariamente, circulavam os vagons da Carbonífera, originando quedas de enorme aparato e sem consequências, pelo menos na ocasião, uma vez que voltavam a montar rumo a Oliveira do Arda e sem um queixume sequer... O objectivo estava quase a ser alcançado e não ia ser uma queda que iria impedir a concretização de um sonho que durava há um ano e em alguns casos há vários...

Voltando ao S. Domingos e à festa bem lá no alto, é de assinalar que serão várias as razões, porque ficamos com recordações que se perpetuaram no tempo e que teimosamente persistem no nosso consciente, porque festas haverá com certeza muitas, mas aquela tinha um lugar de distinção, porque, ali, éramos como que convidados a reflectir muito seriamente sobre quem somos e qual o nosso papel neste nosso planeta, talvez, porque não estejamos muito habituados a viver regularmente nas altitudes e isso nos deixe pouco à vontade, e, essa ocasião sublime, leva-nos a que questionemos certas atitudes, por um lado, enquanto que por outro, ficamos sem palavras, ao descobrir a grandeza do horizonte por onde quer que apontemos o nosso olhar e isso assusta, porque nos transmite pequenez e insegurança...

Antes de terminar quero aqui contar-vos uma história passada numa dessas festas a S. Domingos, ainda na década de cinquenta:
- A meio da tarde desse domingo festivo, o padre convidado dava início ao sermão em honra do Santo, respeitando assim o horário, independentemente dos poucos assistentes, algumas dezenas, muito embora se tratasse duma pequena capela, mesmo assim notava-se que a afluência dos fiéis era escassa; naturalmente, que no exterior uma enorme multidão divertia-se à sua maneira, salvaguardando os muitos casos de devotos que se sucediam nas voltas à referida capela, cumprindo assim uma parte da promessa ao S. Domingos, porque, regra geral, a outra parte da promessa, dizia respeito a uma pequena quantia em dinheiro a que ninguém tinha acesso, depositada em local apropriado; num curto espaço de tempo, dá-se uma reviravolta no estado do mesmo e a bela tarde por todos saboreada, vê-se transformada num abrir e fechar de olhos, com o desaparecimento do sol, o surgir de nuvens negras acompanhadas de trovoada e a consequente chuva torrencial, que, iria apanhar todo o arraial desprevenido... Ninguém estava à espera, ninguém estava preparado e só havia ali no ponto mais alto da serra um bom refúgio para acudir a tão grande emergência: A CAPELA DE S. DOMINGOS... Todo o arraial pensou o mesmo e a minúscula capela de repente terá registado a maior enchente de que havia memória, mas só uma pequena parte dos romeiros pôde abrigar-se, ocupando tudo quanto era espaço, enquanto o nosso abade percebendo o motivo da forte afluência dos "fiéis," deixa de lado, por alguns momentos, o rumo do seu elaborado sermão, para duma forma contundente mostrar toda a sua solidariedade com a intempérie, ao mesmo tempo que gesticulava e gritava a frase que encontrou como a mais adequada à situação, na esperança, pensamos nós, de vir a ser atendido pelo Santo em mais um dos seus milagres:

«CASCA-LHES S. DOMINGOS!... CASCA-LHES S. DOMINGOS!...»

Aquele abade não resistiu à tentação humana, diríamos quase primária, de mostrar o seu desagrado por método pouco ortodoxo, fruto da grande influência das histórias bíblicas, em especial do velho testamento, muitas delas carregadas por um simbolismo castigador e decisório e, que, continuam, mesmo no nosso tempo, a causar inflamados debates, e, sobretudo, a originar múltiplas interpretações!

Como diria alguém:- É A VIDA!...

UM GRANDE ABRAÇO PARA A LINDA E BELA OLIVEIRA DO ARDA!

RECORDAR É VIVER DUAS VEZES!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

... Os Rios, o Futebol e outras "rasteirices" humanas...( 2ª Parte )

Naquela tarde domingueira, aquele jogo de futebol amigável em Pedorido, foi o resultado de um ambiente eufórico e de muita satisfação, vivido na vizinha aldeia de Oliveira do Arda, que contagiou não só toda aquela juventude, mas o resto da aldeia, que não sendo tão jovem, aderiram, porque perceberam que numa época tão difícil como aquela, receber "de mão beijada" um equipamento completo, era de se lhe "tirar o chapéu"!... A desinteressada oferta, fora cometida por um emigrante OLIVEIRENSE, que daquela forma, quis fazer uma agradável surpresa, sabendo de antemão do jeito que a oferta iria proporcionar aos jovens da sua aldeia!
O Verão ia sensivelmente a meio daquele saudoso ano de 1958!
Acontece, que na época existia um óptimo relacionamento entre a juventude das duas aldeias e não era só devido à proximidade, mas sobretudo ao convívio diário que mantinham na Carbonífera e que solidificava profundamente as amizades; por todas estas envolvências, o adversário natural só poderia ser Pedorido, que, quando contactado, logo aceitou, tanto mais que o referido jogo iria ser disputado no seu improvisado campo, entre o Arda e o Douro, como era habitual...
Foi das maiores enchentes que ali aconteceram! Era um ambiente de festa, que ultrapassava o jogo em si, e, recordamos, que de Oliveira do Arda veio um apoio extraordinário à sua equipa, como nunca se vira!... Só que as coisas vieram a correr muito mal dentro das quatro linhas e a festa foi estragada, quando já na segunda parte, alguns dos jogadores se envolveram em pancadaria e Pedorido perdia já por 3-2! Este lamentável acontecimento impediria que o jogo chegasse ao fim, restando a consolação de que aquele desaforo não contagiasse os espectadores, que felizmente se mantiveram à margem do problema, abalando calmamente encosta acima, uns para regressar desiludidos a suas casas, outros "desligando" rapidamente e dispondo-se para uma perninha de dança no tal BAILARICO a que já fizemos referência; outros ainda para dar continuidade ao namorico, já que o dia era "ainda uma criança"; uma boa parte dos homens adultos seguia para "encostar" naquelas tabernas tão do seu agrado, onde esperavam encontrar aqueles com quem já era hábito disputar uns jogos de sueca, acompanhados com umas quantas canecas de um tinto verde e carrascão, que costumava deixar as suas marcas no interior do branco da porcelana...
Na semana que se seguiu ao jogo, não faltaram os comentários por toda a aldeia de Pedorido; as críticas eram unânimes à forma como um jogo amigável havia terminado e até alguns, que haviam feito parte da equipa, lamentavam o sucedido, até porque eram amigos, diziam, mas que agora já não havia nada a fazer, que o mal já estava feito, etc, etc,etc.É neste estado de espírito que o assunto é encarado no seio da população, pelas várias tabernas e claro nos mais variados locais de trabalho da Carbonífera; como não podia deixar de ser, o tema chega à barbearia e é ali amplamente discutido e a determinada altura surge a voz de um PEDORIDENSE, que decide tomar uma posição, que apanhou todos de surpresa:
- Não só reprovava o que acontecera no referido jogo, como também não concordava com as lamúrias dos infractores, que era, afinal, uma forma encapotada de se desresponsabilizarem, ao não assumirem a m.... que fizeram; não se podia ficar pelas "meias tintas" e defendia que se devia pedir desculpas públicas ao adversário, - leia-se Oliveira do Arda - convidá-los para novo jogo, para aí "acertar todas as agulhas" e assim restabelecer perante os dois públicos, a amizade que sempre existira entre povos vizinhos; ao mesmo tempo defendia, que era necessário fazer uma profunda remodelação na equipa de Pedorido, convocando outros jogadores, porque na sua opinião, havia que disciplinar e não premiar infractores!
Passou-se de imediato à acção e os Oliveirenses aceitaram as desculpas e aceitaram também fazer segundo jogo, que em pouco tempo foi levado à prática no mesmo terreno de jogo, ou seja, nas CONCAS.
O segundo encontro decorreu sem incidentes; Pedorido venceu com naturalidade por 5-1, utilizando uma equipa que muitos consideraram como sendo uma equipa de segunda, mas que cumpriu os objectivos a que se propôs!
Passados tantos anos é mais que justo, divulgar que o Pedoridense que esteve na origem desta bela atitude, que "deu a cara" e "meteu mãos à obra", retirando da lama o nome da terra que o vira nascer, chamava-se JOSÉ, era barbeiro de profissão e naquela tarde foi ao ponto de se equipar para capitanear a equipa, não fosse "o diabo tecê-las"...
Posteriormente a estes acontecimentos e quando na mesma BARBEARIA, onde em boa hora se havia feito luz, recordávamos estes factos e suas peripécias em que o "capitão" para um jogo e apenas por precaução, afirmava convicto:-« Fui para dentro do campo comandar aquela equipa, convencido de que era o jogador mais fraco e tenho consciência de que fui o responsável do golo que sofremos, quando já ganhávamos por 5-0...».
O"capitão" não era inocente e com os seus trinta e pico anos, sabia que na aldeia havia bons jogadores de futebol, só que eram traídos pela falta de maturidade, coisa que a ele não faltava... e demonstrara-o naquela disputa provocada pelo padre da paróquia, se bem se recordam...
Agora à distância, recordamos tais acontecimentos com muita saudade e apreciamos como foi bela, generosa e futurista, a atitude do ZÉ MARANTA, que teve ainda o sabor da humildade e do desprendimento, porque sabia que nada iria receber como contrapartida, como foi o caso!...

Moral da história: Só podemos dar aquilo que temos dentro de nós!... E quem nada tiver, nada poderá dar!

O nosso barbeiro, não mais voltou a envergar a camisola do clube da sua aldeia, nem mesmo para a capitanear e toda a gente percebeu, que só o fez naquele jogo, por uma questão de carácter e da dívida, que todos temos, para com a terra que nos vê nascer e à qual pertencemos até ao fim!


OBRIGADO "CAPITÃO"! OBRIGADO ZÉ!

RECORDAR É VIVER DUASVEZES!

UM GRANDE ABRAÇO PARA PEDORIDO E PARA OLIVEIRA DO ARDA!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

..Os Rios, o Futebol e outras "rasteirices" humanas... ( 1ª parte )

Os meses de Verão, nos anos de Cinquenta e Sessenta, proporcionavam uma mais intensa actividade no futebol amador, entre as aldeias vizinhas.
Em Pedorido, não se fugia à regra e ali mesmo, onde o Arda terminava o seu percurso, surgia aquele tapete de lodo já solidificado, aqui e ali com alguma grama, transformado em campo de futebol; este pequeno espaço, mesmo encostado ao areal, era como que o resultado natural do afastamento do caudal do Douro, empurrado pela seca às fragas da Penela, ali mesmo em frente, na margem direita, deixando a descoberto um extenso areal do lado do Arda e que causava todo aquele encanto e um belo contraste, com o tão apreciado Choupal das Concas, onde também sobressaíam as nogueiras e os castanheiros, árvores quase centenárias, que convidavam ao passeio e ao desfrute duma beleza tão natural, que faziam daquele espaço, o mais romântico da aldeia e nem se conhecia nas aldeias mais próximas, outro local que rivalizasse sequer com a sua beleza!
Claro, que nem todos ocupavam as tardes desses já longínquos domingos da mesma forma!...
A maior parte assistia entusiasmada à renhida partida de futebol, colocando-se estrategicamente num ponto ligeiramente elevado, ali mesmo em cima do acontecimento e de costas para o Choupal, não tirando os olhos do que ia acontecendo no improvisado campo e podendo ainda mirar todo o movimento de automóveis, que na marginal da outra banda começara a ter bastante significado, aos fins de semana, a partir de meados dos anos Cinquenta!
Isto quereria significar que as gentes do Porto, Gaia e outras, descobriam finalmente, o interesse que as zonas ribeirinhas do Douro representavam para as suas horas de lazer e que passava a ser mais uma alternativa às suas praias atlânticas; ali na aldeia, havia quem não prescindisse da pesca no Grande Rio, nem que domingo fosse, era como que uma outra paixão, que desde miúdos alimentavam e que só por morte, ou por outra razão de força maior seriam capazes de pôr de lado; não seria um simples jogo de futebol, mesmo que um dos sobrinhos alinhasse pela equipa da sua aldeia, uma razão forte para o desviar daquela tarefa domingueira, até porque mesmo antes da noite, teria todas as informações acerca do resultado e das peripécias, que sempre acontecem nestes jogos entre equipas vizinhas; os pequenos lavradores, normalmente, optavam pela ida ao futebol, mas não prescindiam de uma passagem por algum dos bocados de terra, que ora ficava na ribeira do Arda, ora no alto da Parada, ou até lá para os lados do Picão; os mineiros eram assíduos, pouco faltosos e vibravam com as jogadas dos miúdos mais habilidosos, aliás, parte da equipa era composta por mineiros que desde muito novos não deixaram de comparecer no velhinho campo de saibro, lá na fronteira com a Póvoa, maravilhados com a técnica e o saber do velhinho húngaro Zanos Zorgo, que aqui relembramos!...
Os pares de namorados tinham nas tardes de domingo o ponto mais alto da semana e havia que aproveitar bem o tempo! Havia mesmo quem utilizasse as travessias de barco, na esperança de encontrar na outra margem, o amor que ainda não tinha vislumbrado na sua querida aldeia, enquanto que outros namoros já mais sólidos, também optavam pela mudança de ares, fazendo a travessia do Douro, para desfrutar de todo aquele cenário que o rio proporcionava, ao mesmo tempo que usufruiam duma outra liberdade e de um à vontade, que nem sempre era conseguido nas suas aldeias!
As Concas ganhavam na preferência dos jovens casalinhos e as razões estavam à vista:- Era um local muito acolhedor e um espaço onde se respirava um certo romantismo e que beneficiava de temperaturas amenas no pico do Verão, em resultado do arvoredo de que já falamos, mas também indo beneficiar e muito de toda aquela envolvência que o Arda e o Douro lhe transmitiam!...
Era certo e sabido, que assim que terminasse o jogo de futebol, os promotores habituais dos bailaricos arrancavam cá em cima, junto da velha serração, com o reportório, que sendo já conhecido, servia de suporte e chamamento às danças habituais e que naquele dia só atrasaram umas horas devido ao futebol; o jogo agora já era outro e os intervenientes mudaram radicalmente e o futebol passara à história... O acordeão, a viola e o minúsculo cavaquinho não davam tréguas e se no início eram três ou quatro pares de dançarinos, logo que a multidão atingia o local do bailarico, o número de pares multiplicava-se e por consequência a roda alargava o suficiente para dar espaço ao vira do Minho, que nem a propósito " obrigava " toda aquela juventude a um ritmo endiabrado e ninguém queria "ficar mal na fotografia"... A apreciar este cenário, por fora, apareciam sempre alguns mais idosos, homens e mulheres, como que a matar saudades dos tempos da sua juventude e que entretanto passara, mas que deixou as marcas de alguma saudade!... Assim que começasse a debandada dos dançarinos, o baile era encerrado, mas ficava prometido pelos músicos amadores, que voltariam no domingo próximo e seguintes...

Tudo quanto narramos até aqui inseria-se perfeitamente dentro dos padrões que na época se pautavam pela sã convivência e pelo respeito que coexistiam no seio deste tipo de sociedades trabalhadoras e pacíficas, para quem o dia a dia não era "pera doce", mas que suportavam com muita dignidade! O domingo era como que a compensação mínima de semanas laboriosas e de uma certa desumanização, uma vez que se tratava de trabalhos duros e de alguma violência física, quer se tratasse nas minas em Germunde ou no Fojo, ou mesmo na agricultura de subsistência em todas as aldeias do Couto Mineiro.
Mas como "uma desgraça nunca vem só", esta linda aldeia na foz do Arda, vivia um outro tormento, que corroía as suas entranhas e lhe ia retirando, lenta mas continuadamente, a dignidade que fazia parte da sua matriz; tudo isto tivera origem num plano orquestrado pela cabeça de um padre, que após ser bem acolhido pela paróquia, resolvera nomear-se como que o "controleiro" da vida privada de toda a gente humilde, infernizando pela "calada" a vida de muitas pessoas... Apenas escapavam ao controle os mais abastados e que na época eram escassos!...
Por aqui ficamos a perceber, que a espionagem ao serviço do abade tivera que redobrar de atenção naquela já longínqua tarde de domingo, em que a juventude da aldeia estivera particularmente activa em várias frentes:- a) Primeiro, porque o futebol mobilizara uma pequena multidão e as multidões complicam, criam até embaraço e despistam espiões com alguma experiência... b) Segundo, porque o bailarico poderia dar lugar a situações bastante "criativas" e por isso mesmo de muito interesse para a causa a que consciente ou inconscientemente aderiram; c) Terceiro, porque a dispersão dos pares de namorados era grande e a juntar a tais dificuldades, ainda poderiam perder de vista aqueles pares, que, em devido tempo, haviam passado de barco para a outra margem e a quem não queriam perder o rasto, de modo algum...
À primeira vista, todo este emaranhado de situações resultariam num cenário complicado para espiões "amadores", mas tinham que se desunhar, para, logo que possível, levar até ao "chefe", senão todas, pelo menos as últimas informações, que actualizariam os casos que vinham a ser seguidos e que de forma alguma poderiam ficar em branco, numa tarde tão rica em movimentações!...
Sabia-se que do futebol não vinha o mal ao mundo, apenas poderia dar aso a umas entradas mais violentas, ou a uns palavrões que ofendiam não o próprio, mas algum familiar de que se gosta muito, mas no geral não passava disso; mas os "espias" tinham que ter "cuidados" redobrados, porque podia dar oportunidade para outros "encontros", porventura mais amorosos e aquele abade convivia muito mal com os AMORES dos humildes, que, embora o fossem, afinal, também tinham todo o direito à FELICIDADE! Ou será que NÃO?!
O grande problema é que aquela boa gente estava a ser controlada pelo Fascismo, numa "santa" aliança com uma Igreja milenar, mas que se deixara enredar pelos interesses mesquinhos de pessoas sem escrúpulos, que da capital tratavam do País como se fora uma sua QUINTA!
Esqueceu-se essa gentinha dum pequeno mas importante pormenor: - NUNCA SERÁ FÁCIL DOMINAR UM POVO COM MAIS DE OITOCENTOS ANOS DE HISTÓRIA!!!!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Homem simples mas FIRME! Merece ser Recordado!...

Era o mais novo dos irmãos e aos dezoito anos resolveu estrear-se como mineiro em Germunde, por pensar, que chegara a altura certa de arranjar alguma independência financeira, que não tinha no dia a dia duma lavoura de subsistência a que os seus pais davam continuidade...

A incorporação militar no quartel militar da Serra do Pilar veio interromper tão audaciosa profissão de mineiro, ao mesmo tempo que lhe dava a possibilidade de aperfeiçoar os conhecimentos práticos que desenvolvera na barbearia de seu pai, numa velha sala sem condições e com ferramentas toscas e primitivas, causadoras, por isso, de algum desconforto aos clientes daquela aldeia ...
Assim que termina o serviço militar, regressa em definitivo a Pedorido, mas agora mais maduro, com novas ideias em relação ao seu futuro e também mais apto profissionalmente, porque praticara a tempo inteiro em cortes de cabelo e em barbas mais exigentes e os contactos com toda a oficialidade daquele quartel deram-lhe uma outra tarimba para regressar, mas muito mais capaz! Por sorte, na década de CINQUENTA a sua aldeia era o centro nevrálgico do Couto Mineiro e o nosso homem decide dedicar-se por inteiro à profissão de barbeiro; constrói uma nova, mas pequena barbearia no prolongamento da velha casa dos pais, com quem ficara a morar e nunca descurando com estes do cultivo das terras. Naturalmente, que não rejeita a clientela do progenitor e junta-lhe agora uns tantos escriturários da Carbonífera, jogadores de futebol, segura e alarga toda a juventude da terra e até de aldeias vizinhas e dá especial atenção a clientes domiciliários.
Um desses domicílios era o abade da paróquia, que de tempos a tempos mandava recado por "correios" habituais e já muito conhecidos do nosso barbeiro, a marcar o dia e a hora em que deveria comparecer. Tudo rolava pelo melhor, mas um dia o bom relacionamento com o padre iria ter um fim! Sem que nada o fizesse prever as coisas aconteceram ... quando um dos " moços de recados" do abade combina a data e a hora para o habitual domicílio na residência paroquial.
Não querem saber que o "ilustre" cliente se apresentara ao seu barbeiro já de cabelinho e barba aparadinhos?!... Era lógico que o assunto a tratar não era de índole profissional, porque o abade descobrira por uma espécie de pide, que com o tempo montara na aldeia e que trouxera ao seu conhecimento de que o barbeiro solteirão, também andaria a "pisar o risco" da moral e dos bons costumes!... Afinal, quem mandava e decidia naquela linda aldeia do ARDA?! O autoritarismo do dono da igreja e do rebanho, deu aso a violenta discussão no interior da residência a que só terá assistido a empregada de serviço...
Claro que as homilias seguintes do padre trouxeram a desavença para a praça pública, como era muito habitual desta figura, que não se cansava de vociferar contra o "prevaricador" sem nunca pronunciar o seu nome; entretanto, já tinha dito o esssencial para que toda a aldeia ficasse "esclarecida"... Enquanto isto o nosso barbeiro desliga totalmente do assunto, deixa de ser cliente da igreja, continua virado para a sua dupla tarefa, ou seja, da barbearia e do cultivo dos campos e continua a manter a mesma postura e a mesma atitude com todas as pessoas da referida aldeia!
Para acicatar ainda mais o homem da batina e da coroa, resolve viver maritalmente à revelia da igreja católica, trazendo da aldeia vizinha a sua noiva, que muito naturalmente com o andar dos anos o presenteou com vários filhos; a união entre os dois era mesmo para valer!...
Voltaram as inflamadas homilias, carregadas de ódio, que duraram alguns domingos, mas que não tiveram quaisquer resultados práticos! Se o padre era pequenote no tamanho, mas destemido no propósito, o barbeiro era também valente e dono de forte personalidade, do melhor que na época havia na aldeia... De resto, os clientes da barbearia não deixaram de o ser, assim como se mantiveram os clientes que fazia aos domicílios. Com o tempo a coisa sossegou e o padre viu-se obrigado a "meter a viola no saco" e toda a aldeia percebeu, que o barbeiro foi dos poucos a ganhar uma disputa ao padre, mas foi preciso possuir uma têmpera forte e perceber, que tudo tem o seu limite, e, neste caso, o limite acontecera, quando uns anos antes o bom povo de Pedorido recebera confiante e de braços abertos um padre, que com o passar dos anos se viria a destacar, pelo péssimo contributo que veio dar a esta gente e por arrastamento à própria igreja católica, que representou até ao fim!
Exemplos?! Eles foram tantos que nem merece a pena enumerá-los!...
Entretanto, o nosso barbeiro já partiu, mas ficou o seu exemplo de verticalidade!
Merece ser recordado e a sua atitude firme, merece ser conhecida das gentes do futuro!

A MELHOR FORMA DE DAR A CONHECER A NOSSA TERRA É DIVULGÁ-LA!!!
UM ABRAÇO DO TAMANHO DO ARDA PARA PEDORIDO!

sábado, 14 de novembro de 2009

Duas aldeias, um Rio, duas formas de vida!...

Se fizer uma retrospectiva aos anos SESSENTA e recuando mesmo até finais dos anos QUARENTA, ou seja, àquele período pós 2ª guerra mundial ( anos de 1948, 1949, 1950 e seguintes) fico com a nítida impressão de ter vivido em países diferentes, o que não foi o caso... Estávamos no mesmo país, apenas o Douro separava estas duas localidades e era a fronteira natural, como ainda hoje é. Curiosamente, a religião era a mesma, com uma ligeira diferença, que não acrescentava nem tirava nada ao caso:- A aldeia da margem direita exibia uma pequena e humilde capela, enquanto na aldeia da outra margem era notório a imponência, pelo menos no exterior, de uma igreja nova, ali bem junto do rio, contrastando, de facto, com todas as freguesias e aldeias de todo o Couto Mineiro; esqueceram-se, sòmente, o mentor ou mentores de tal projecto, na ocasião, de um pormenor que lhes terá escapado, ou não; estou, naturalmente, a referir-me ao cemitério, que, mesmo ali ao lado, ficou como que o parente pobre de toda esta história e a marcar, talvez, até aos nossos dias, a falta de rigor e até de respeito para com a memória dos que nos antecedem! É curioso assinalar que na aldeia da outra margem, onde a capela era mais pequena e humilde, existia também um cemitério, mas que mantinha quase que uma perfeita harmonia com o meio envolvente, e que não se sobrepunha, nem diminuia à referida capela.
Sem pretender ser rigoroso porque tinha seis e sete anos, retive, alguns dados de alguma vivência nessa pequena aldeia, no sopé da Serra da Boneca, que, por ser pequena, nós os miúdos, corriamo-la duma ponta à outra... E, por ter sido assim, recordo que num dos limites da aldeia morava um homem com alguma idade e a quem chamavam Padre Manel; quero acreditar, que uma das ruas que hoje tem o nome de PADRE MANUEL, terá a ver com a mesma figura do homem que conheci em miúdo... Recordo, perfeitamente, que a estrada marginal era novinha em folha e com muito pouco trânsito, e, talvez por isso, a miudagem da aldeia jogava ali amiudadas vezes à bola e um pouco mais acima ficava a tal moradia do padre Manuel, e, creio que, mesmo ao lado, existia uma oficina, penso que de carpintaria, onde regularmente trabalhavam o referido abade, com cerca de meia dúzia de colaboradores, todos do pequeno lugar e que se dedicavam ao fabrico de colmeias.
Fiquei com a ideia de que este homem da igreja católica repartia a sua vida por estas duas funções, ou seja, como padre da pequena paróquia de Rio Mau e como profissional, ou artesão, na área da indústria do mel. Esta dupla actividade num padre, marcou-me muito positivamente pela vida fora, por considerar um bom exemplo de cidadania e que nunca mais me foi proporcionado ver!... Depois, fiquei ainda com a ideia bastante vincada, de que nos últimos anos da década de QUARENTA, Rio Mau tinha uma comunidade que vivia uma certa paz, bastante unida e que deixava transparecer uma boa disposição e até uma certa alegria, muito embora a vida das pessoas não fosse nada fácil! Não temos dados para garantir que foi tudo obra do padre Manuel, mas não nos custa admitir que também terá contribuido e muito para esta coesão como povo, porque de seguida a mesma igreja " lançou " outro tipo de padres, mais profissionais, sem duplas tarefas e isso pode ter feito a diferença!... Claro que nessas novas "fornadas " de padres também apareceu uma ou outra excepção; há sempre excepções em tudo, mas é terrível ter de assistir e suportar na nossa juventude, a atitudes continuadas de abuso de poder sobre povos, sobretudo sobre os mais humildes, que só mereciam ser compreendidos e ajudados a libertarem-se de uma cruz pesadíssima , que já vinha muito de trás, soubemo-lo mais tarde... Devo admitir que aprendi muito mais até aos sete anos com um velho padre que até nem falaria muito, mas que uniu e não dividiu e que deu como exemplo o trabalho honesto e continuado!
Temos por hábito em Portugal, procurar no estrangeiro os provérbios que nos costumam dar a inspiração para os bons exemplos, que achamos conveniente escutar e se possível seguir; estou a lembrar-me do provérbio chinês « Se o teu semelhante tiver fome não lhe dês o peixe que pescaste, ensina-o antes a pescar». Se estivéssemos mais atentos, não necessitávamos de ir tão longe buscar bons exemplos; temos aqui, mesmo à mão de semear, o exemplo do magnífico padre Manuel, que viveu e deixou obra de valor e de futuro em Rio Mau! Já agora, porque não se divulga aos mais jovens quem era este bondoso homem, como viveu e os exemplos que deixou e que ainda hoje estão a ser seguidos?! Se a igreja não o faz, porque não é levado a cabo pela Junta, pela Câmara ou mesmo por outras entidades públicas ou privadas? Dir-se-á que foi há muito tempo, mas que eu saiba os bons exemplos nunca passam de moda, porque são pedagógicos!...
Contava-se que o "nosso" homem dizia, sabiamente, a propósito das guerrinhas que iam acontecendo um pouco pelo mundo fora e que os jornais e a rádio ( não havia televisão! ) faziam chegar ao público:« ISTO COMEÇOU MAL, VAI ACABAR MAL!», desabafava em jeito de profecia...
Esta frase, diz-nos muito, e, diz-nos, sobretudo, uma coisa que não engana:- Era um homem de paz e que temia que os humanos nunca aprendessem com os erros da História e não arrepiassem caminho... Está tudo tão actual, relativamente a esse tema, que ainda hoje podemos perguntar:

«... SERÁ QUE NÃO VAI ACABAR MAL?!... »

Enquanto que em Rio Mau se vivia esta saudável realidade, na aldeia de Pedorido quase nada era comparável!... E porquê, se até teria as condições objectivas que Rio Mau não tinha?!
Vamos já ver porquê:-Vivia-se o período áureo da Carbonífera e Pedorido era o centro nevrálgico do Couto Mineiro! Pode-se mesmo afirmar, que embora a vila de Castelo de Paiva fosse a sede do Concelho, do ponto de vista financeiro a freguesia mais periférica ocupava o centro de decisão, por ser ali que pontificava a maior empresa e a que gerava mais riqueza!... Então o que faltava a Pedorido para que na próspera década de CINQUENTA, este povo não tivesse os níveis de felicidade que no dia a dia usufruia o povo de Rio Mau?! Naturalmente que as razões seriam várias e duvido que todas venham a ser conhecidas, mas uma das razões é segura e os factos comprovam-no:- À frente daquela paróquia havia sido colocada uma figura, que do ponto de vista humano, era como que o oposto do padre Manuel e que se preocupou no fundamental, em utilizar no dia a dia, a "velha" mas sempre muito utilizada fórmula « DIVIDIR PARA REINAR»!... Na época, a igreja católica tinha um peso ENORME sobre a vida das pessoas e o padre poderia desiquilibrar a balança; era como que a arma de dois gumes e aquela gente teve a infelicidade que não merecia; os factos são de uma evidência tal, que só uma grande aliança política entre o regime e a chefia daquela paróquia, explicam a vergonha com que impunemente se perseguia os mais humildes, utilizando processos e atitudes, que, ainda hoje, só de recordá-los, causam profundo mal estar nos cidadãos mais rigorosos no respeito pelo seu semelhante, sendo o desaforo ainda mais grave, se o desrespeito for cometido contra pessoas simples, que não conhecendo os seus direitos se tornam presas fáceis; mas, também é verdade, que os povos podem não ser muito cultos do ponto de vista académico, mas acabam sempre, mas sempre, por perceber quando foram ludibriados e usados e a "vingança" poderá tardar, mas não irá faltar:
-Em Rio Mau fala-se muitas vezes no padre Manuel e relembra-se o que fez de bom por aquela GENTE e como não se entenderia de outra forma, resolveram e bem, dar o seu nome a uma das ruas da aldeia! Foi um gesto nobre e bonito, que dignifica este povo!...
Na aldeia da outra margem do Douro, não se ouve nunca falar do tal padre que se esforçou tanto em dividir em vez de unir, nem conheço que tenham dado o seu nome a uma das ruas de Pedorido, e, nem nos blogs, o seu nome foi uma vez sequer citado...
CÁ SE FAZEM... CÁ SE PAGAM!
E convém nunca esquecer, para bem nosso, que o padre Manuel que viveu em Rio Mau e ali deixou bons exemplos e que ainda hoje perduram, já utilizava a inteligência e a paciência para ensinar os paroquianos a "pescar"! Ah, e muito importante, não era da CHINA!

Que pena, um Rio tão poderoso como o DOURO, não ter podido intervir e repôr também em Pedorido os níveis de felicidade que eram vividos pelas gentes de Rio Mau?!...
Afinal, os Rios não podem fazer o que só aos humanos compete!... E foi uma pena, UMA GRANDE PENA, porque naquela época as gentes de Pedorido, viviam, como que descaracterizadas, assim como numa espécie de hibernação humana!... E foi duro, porque doeu muito, e, pior ainda, deixou marcas nas gentes mais humildes da aldeia!


UM GRANDE ABRAÇO PARA PEDORIDO E RIO-MAU!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O rio Douro e dois bons exemplos!...

O Douro serpenteava por todo aquele vale depois de uma caminhada longínqua, dizia-se que de Espanha, mas fará hoje sentido pensar que grande parte das gentes ribeirinhas não teria uma ideia real das distâncias, nem conheceria outras pequenas parcelas do país a que pertencia, porque estavam todos muito ocupados numa luta diária pela sobrevivência deles e dos filhos, movimentando-se a pé ou de barco ou então conduzindo a junta de bois no rumo já habitual, com as tarefas que se tornavam já rotineiras de servir uma agricultura de subsistência e que nunca haveria de evoluir para outro melhor escalão!... Qual era o pescador do Douro, o lavrador, o barqueiro ou o mineiro que nas décadas de Trinta, Quarenta, Cinquenta e até Sessenta tinha condições para viajar e conhecer o SEU RIO até Barca d'Alba ou mesmo até à Régua?!...
Os barcos, todos os barcos eram feitos a pensar no trabalho para a sobrevivência deste povo vizinho do Grande Rio e na época nenhum barco era feito a pensar no lazer!.. Este pequeno barco desta minha curta história, não teria mais de cinco, seis metros de comprimento por dois de largura-apelidado de valboeiro- era utilizado para dois fins específicos: para todo o tipo de pescado de acordo com cada época sazonal e também era usado para a travessia de todas as pessoas que diàriamente, quer chovesse, quer fizesse sol, necessitavam deste transporte para chegar até um trabalho, num dos muitos que as minas de carvão ofereciam e que por vezes eram bem duros, bem como para outro tipo de objectivos que só era possível encontrar na outra margem, ou simplesmente porque havia um regular contacto entre as gentes das duas margens e que por via disso se conheciam muito bem... Porque as minas laboravam na margem esquerda e foram durante muitas décadas o maior empregador nesta vasta zona do Douro, acontecia que a maior clientela vinha da margem direita e o funcionamento destas travessias começava logo pelas seis, sete horas da manhã, durava todo o dia e prolongava-se pela noite dentro, porque os mineiros revezavam-se por dois turnos. Era muito habitual ver na travessia do Remoinho em Rio Mau, para lá da meia-noite, os pretendentes à travessia movimentarem a luz dos seus gasómetros da outra margem do rio, "chamamento" que se tornara um hábito a que os barqueiros de serviço correspondiam, tanto mais que quem aguardava na margem oposta não tinha comodidade alguma naquele ermo inclinado para o Douro... Nem um banco, nem um abrigo que fosse e porque regressavam de um trabalho árduo das minas, teriam ainda de aguardar cerca de vinte ou mesmo trinta minutos, até que o pequeno e ligeiro barco ali aportasse, para uma travessia que iria durar um tempo equivalente ao da espera, porque no rigor do Inverno e com mau tempo, não era" pera doce" ter de atravessá-lo nos dois sentidos e com o caudal na sua largura máxima! Eram pessoas audaciosas e de personalidade vincada, de não virarem a cara às grandes dificuldades, estas mulheres e homens que se fizeram barqueiros do Douro!...
É mais que justo neste preciso momento lembrar aqui duas mulheres de Rio Mau que durante anos e anos se dedicaram à difícil tarefa de "barqueiras" na travessia do Remoinho em Rio Mau, utilizando aquele pequeno barco e levando sempre a bom porto os muitos interessados em mudarem da margem direita para a margem esquerda e vice-versa! Já não me recordo dos seus nomes, só sei que seriam irmãs, que vestiam sempre de preto ( nunca lhes conheci outra roupa) e que chegaram ao ponto de salvar algumas vidas humanas, porque com tanta utilização do rio era quase inevitável os acidentes não se darem... O autor desta curta história também chegou a ser engolido pelas águas do Douro, bem lá para o meio do caudaloso rio, quando tinha cinco anos apenas e foi uma dessas duas irmãs, que me retirou duma morte mais que certa, apenas com uma das mãos e assim que apareci pela primeira vez à superfície, depois do aparatoso mergulho, porque me desiquilibrei do pequeno barco em movimento... Entretanto, já passaram mais de sessenta anos sobre tão triste episódio e que aqui registo, ao mesmo tempo que entendo ser meu dever dar a conhecer a fibra e a coragem destas duas mulheres, que se adaptaram duma forma notável a um trabalho difícil e de muito desgaste, prontas a decidir e a resolver qualquer problema que a profissão ou o próprio rio lhes viesse a colocar. Aqui deixo a minha singela homenagem e o meu profundo respeito, para com estas duas mulheres simples e que é justo aqui recordar!
Ao entrar na década de Cinquenta a minha família mudou-se para a outra margem e já a morar em Pedorido perdi o contacto com as "barqueiras" referidas na história, mas do outro lado do rio continuei atento e a ver com regularidade o mesmo desempenho das duas mulheres de negro, ora a caminho da margem esquerda, ora no sentido inverso... Aquele pequeno barco que parecia ser ainda o mesmo de anos atrás, movimentava-se como um pêndulo, da mesma forma de tempos idos e parecia deslizar pelos mesmos espaços e até as águas pareciam as mesmas!... Resta saber se as forças que imprimiam aos remos continuavam iguais, mas à distância notava-se que a personalidade e o empenho moravam ainda intactas naquelas criaturas... Duas grandes mulheres e mais dois bons exemplos que o Douro ajudou a descobrir!

Um grande abraço para Rio Mau!

Outro igualzinho para Pedorido!